Guarda Nacional recebe ordem para deixar Ferguson

Governador do Missouri afirma que força estadual não é mais necessária após redução de protestos contra morte de jovem negro

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL, FERGUSON, EUA, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2014 | 02h01

Com a redução da tensão em Ferguson, o governador do Missouri, Jay Nixon, anunciou ontem que a Guarda Nacional deixará a cidade, sacudida por quase duas semanas de protestos contra a morte de um jovem negro por um policial branco. A noite de quarta-feira foi a mais calma desde o início das manifestações, em parte pela ação de líderes religiosos, que agiram como intermediários entre a população e as forças de segurança.

Morto com seis tiros - dois na cabeça - no dia 9, Michael Brown será enterrado na segunda-feira, em cerimônia que terá a participação do reverendo Al Sharpton, uma das estrelas do movimento americano pela defesa dos direitos civis.

A rotina na cidade de Ferguson foi suspensa desde a morte de Brown, de 18 anos, pelo policial branco Darren Wilson, que revoltou a comunidade local e desencadeou uma discussão nacional sobre raça e violência das forças de segurança. O jovem estava desarmado quando foi atingido pelo policial.

O começo das aulas, previsto para o dia 14, foi adiado até segunda-feira e o comércio da cidade de 21 mil habitantes ficou quase paralisado.

Nos dias seguintes à morte de Brown, os protestos se tornaram violentos. Houve confrontos com as forças policiais e saques de várias lojas. Desde o início desta semana, a tensão vem diminuindo a cada noite. Quarta-feira, apenas seis pessoas foram detidas. No dia anterior, foram 51 prisões e, na segunda-feira, 78.

Pastores de diferentes igrejas evangélicas da região criaram uma organização chamada Clérigos Unidos para tentar evitar confrontos e violência nas ruas de Ferguson. Na quarta-feira, eles usavam pela primeira camisetas cor de laranja iguais e eram consultados com frequência por policiais quando o risco de confronto surgia.

As forças de segurança também mudaram sua tática e abandonaram a mobilização de grande número de integrantes da tropa de choque. Na segunda-feira, elas bloquearam um dos lados da rua que concentra os protestos e apontaram fuzis para manifestantes e jornalistas, o que acirrou os ânimos dos que protestavam. No fim da noite, foram lançadas bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

"Nós nunca tivemos nada parecido em nossa comunidade. Saint Louis estava à beira do distúrbio racial, mas nunca nos organizamos para administrá-lo", disse o pastor Michael Robinson, principal idealizador do movimento Clérigos Unidos. Saint Louis é a maior cidade da região e fica a poucos quilômetros de Ferguson.

A entidade foi criada na semana passada, na esteira das manifestações. O objetivo é mobilizar líderes religiosos para atuar se surgirem crises semelhantes. Além disso, os pastores esperam fortalecer os laços com as comunidades locais e criar programas nas áreas de educação, habitação e financiamento. "Ficaremos aqui no longo prazo", disse Robinson.

Os protestos se concentram nas quadras da Avenida West Florissant onde está grande parte das lojas de Ferguson. Todas viram o movimento despencar e foram obrigadas a reduzir seu horário de funcionamento em razão das manifestações e da ocupação da área por forças de segurança.

"A polícia assusta a clientela", disse o barbeiro Ikino Johns, que depende de seu salário para sustentar seus quatro filhos. Como o pagamento nos Estados Unidos é feito por hora, Johns viu seu rendimento cair pela metade nas duas últimas semanas. "Se ninguém vem, eu não ganho."

Mas ele afirma que não quer voltar à "normalidade" que existia antes da morte de Brown. "É como um marido que bate na mulher, é preso e volta a viver com ela depois que sai da cadeia", disse Johns.

Na Lavanderia Ferguson, as 52 máquinas de lavar e 37 de secar estavam paradas no fim da manhã de ontem, sem nenhum cliente. Lisa Sykes, que é branca, trabalhava pela primeira vez nesta semana, fazendo faxina do lugar. "Como vou pagar minhas contas? Eu não posso viver com um dia de trabalho por semana", afirmou Sykes, que tem dois filhos e dois netos.

Segundo ela, a lavanderia fica aberta normalmente até as 22 horas e recebe mais de 60 pessoas por dia. No entanto, desde o início dos protestos pela morte de Brown, o horário de fechamento do estabelecimento foi antecipado para as 17h30 e o número de clientes diminuiu para, no máximo, dez ao dia. "Eu quero justiça como todo mundo, mas também quero paz", afirmou Sykes.

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