Guerra antecipa aposentadoria do Concorde

A "aposentadoria" antecipada do Concorde poderá ser uma das conseqüências indiretas da guerra contra a Iraque. Corrente entre os profissionais dos transportes aéreos, a informação não foi até agora confirmada nem desmentida pelos dirigentes da Air France e da British Airways, operadoras do supersônico na linha Londres/Paris-Nova York. Pelo que adiantam fontes ligadas à direção das duas companhias, estas, uma vez deflagrado o conflito, aplicarão um plano de redução de seus vôos internacionais. É nesse cenário que se inscreve o fim eventual da "carreira" do Concorde, cuja licença de exploração se estende, todavia, até 2009.Para os especialistas, a decisão sobre a "aposentadoria" deveria ter sido tomada desde a tragédia do verão de 2000, quando aquele Concorde, após uma decolagem acidentada, caiu em cima da cidade de Gonesse (região parisiense) matando os passageiros e vários moradores da área.Panes são freqüentesAinda que o avião seja seguro, o certo é que, segundo os próprios pilotos da frota francesa (cinco aparelhos), cada vôo do supersônico na linha Paris-Nova York converteu-se em "desafio tecnológico". Isso porque, como os incidentes, panes e enguiços diversos se tornaram freqüentes, a Air France se vê obrigada a manter dois outros supersônicos em "stand-by" em Paris e Nova York para suprir qualquer eventualidade. Não é diferente, conforme os técnicos da área, a situação da frota de Concordes da British Airways, que já tem atrás de si, como a francesa, trinta anos de vôo.Às dificuldades de ordem técnica se juntaram e se ampliaram os problemas comerciais. Depois do desastre de Gonesse, desapareceram os grupos de turistas ricos da terceira idade aptos a pagar o luxo da travessia do Atlântico a bordo de um Concorde, programa já considerado fora de moda pelos mais jovens.Ao mesmo tempo, com o agravamento da crise econômica, as empresas européias e americanas reduziram os custos das viagens de seus executivos. Não somente o privilégio do vôo por Concorde foi abolido, como também o "direito" à primeira classe nos vôos comuns de carreira. De modo geral, os executivos tiveram de se conformar com a solução mais modesta da classe executiva.Baixa rentabilidadeEm conseqüência, a rentabilidade do supersônico na única linha que lhe restou - Londres ou Paris-Nova York - caiu sensivelmente. Nos últimos meses, a lotação não chegou a 50 por cento da capacidade do aparelho, o que obrigou Air France e British Airways a multiplicarem as promoções comerciais. O pessoal das duas companhias foi o mais favorecido nisso, passando a realizar o glamuroso trajeto por apenas 500 euros."É uma pena que o Concorde não chegue ao alcance do grande público", lamentou o dirigente comunista Jean-Claude Gayssot. Como ministro francês dos Transportes, ele tomou em 2000, após o desastre de Gonesse, a decisão de restaurar os vôos do supersônico, menos por realismo econômico do que pela que força simbólica para o orgulho nacional.

Agencia Estado,

18 de março de 2003 | 12h01

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