Guerra ao Estado Islâmico divide Congresso

Democratas e republicanos tentam alcançar consenso sobre o pedido de autorização para uso da força feito por Obama

PAUL, KANE, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2015 | 02h05

O Congresso americano volta esta semana a se reunir em Washington, após um recesso de dez dias, para enfrentar a complexa questão sobre como os Estados Unidos devem lutar contra organizações terroristas como o Estado Islâmico. Formalmente, a tarefa consiste em redigir e aprovar uma "autorização para o uso da força militar", mas o objetivo principal é demonstrar ao mundo que há um apoio bipartidário ao envolvimento do Exército americano na luta contra um novo inimigo mais desconcertante do que os enfrentados quando os congressistas aprovaram pela última vez resoluções do gênero, em 2001 e 2002.

Até o momento, o único acordo real é que o Congresso precisa adotar uma posição mais enérgica no debate sobre assuntos de política externa. O governo do presidente Barack Obama se encontra na posição de dar o alarme diante da possibilidade de ataques terroristas, mas oferecendo uma resolução de guerra que inclua o estabelecimento de limites na batalha contra o Estado Islâmico.

Os críticos de direita intensificaram sua campanha pela reformulação do pedido de autorização do uso da força militar do presidente para permitir um ataque mais amplo, incluindo a participação de tropas americanas no combate terrestre.

Os críticos de esquerda temem que o pedido de autorização de Obama careça de especificidade e conceda demasiada autoridade ao Pentágono para expandir a guerra a outros teatros. O próprio aliado mais forte do presidente na área de segurança nacional no Capitólio, o senador Jack Reed (democrata do Estado de Rhode Island), levantou algumas sérias objeções ao projeto.

"Acho que o prazo de três anos para a resolução não é adequado. Não queremos indicar ao mundo que pretendemos ficar lá por tantos anos. Infelizmente, essa batalha levará muito tempo", disse Reed, representante da bancada democrata na Comissão dos Serviços Armados, ao canal NBC, na semana passada.

O trabalho formal será realizado pelas comissões de Assuntos Exteriores da Câmara e a de Relações Exteriores do Senado, que têm poder para autorizar ações militares no exterior. O secretário de Estado, John Kerry, deverá ser sabatinado pela comissão de Assuntos Externos da Câmara amanhã, enquanto especialistas em direito do Exército serão ouvidos pela Comissão dos Serviços Armados da Câmara na quinta-feira.

O pedido de autorização enviado por Obama ao Congresso é apenas uma proposta inicial. Portanto, não haverá votação dessa minuta específica. Importantes parlamentares - como Reed e o senador John McCain (republicano do Arizona), presidente da Comissão dos Serviços Armados - terão o papel de assessores no debate sobre a guerra e, basicamente, todos os membros da Câmara e do Senado terão a chance de votar sobre a resolução. Isso se as comissões chegarem a algum tipo de acordo sobre o esboço de um texto.

A possibilidade de fracasso é real, considerando que, nos últimos anos, o Congresso falhou em medidas tradicionalmente bipartidárias, como o financiamento no longo prazo da política agrícola e a construção de rodovias, e poderá até deixar o Departamento de Segurança Interna inoperante (por falta de verbas) em razão de uma disputa separada sobre imigração.

No domingo, o senador Bob Corker (republicano do Tennessee), presidente da Comissão de Relações Exteriores, enfatizou a difícil tarefa que o Congresso terá pela frente, e não garantiu o sucesso.

"Debateremos aqui, dentro em breve, uma autorização para o uso da força militar. Essa é uma questão importante para nossa segurança interna, para o mundo, e espero que nós, como nação, a enfrentemos de modo sensato e prudente nas próximas semanas", afirmou Corker no programa Meet the Press, da rede NBC.

As motivações para a preparação e a aprovação de um esboço de autorização para o uso da força militar são diferentes em cada ala do Congresso. Muitos democratas foram eleitos pela primeira vez para o Congresso - em 2006 e 2008 - em razão do forte sentimento contrário à guerra entre o eleitorado, após as lutas no Iraque. Portanto, para alguns, essa será a chance de corrigir os erros do debate de 2002 que aprovou a guerra.

A maioria dos republicanos quer conceder maiores poderes ao presidente e aos chefes militares para evitar restrições ao prosseguimento da guerra. Os republicanos eleitos em novembro, em sua maioria, que acabaram de assumir seus cargos, adotaram posições típicas da linha belicista tradicional do partido em questões de segurança nacional.

"Acho que não deveríamos colocar obstáculos ao presidente dos EUA", disse McCain à NBC no dia 15. "O Congresso controla o dinheiro. Se não gostarmos do que o comandante-chefe fizer, poderemos cortar os seus recursos para isso. Mas, impedir que ele tenha nossa autorização para empreender uma ação militar, francamente, acho inconstitucional e acabaríamos com 535 comandantes-chefes (os congressistas)."

Um esforço particularmente ardiloso será encontrar uma linguagem para a autorização que permita conquistar o apoio. Entrevistas com os principais assessores de republicanos e democratas de maior expressão mostraram que não há muita disposição entre os líderes do Congresso para a redação de um documento de cunho particularmente partidário. Mesmo considerando os prazos mais reduzidos sugeridos por alguns, essa política estará vigorando para quem se tornar o próximo presidente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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