"Guerra ao terrorismo" deixa Europa preocupada

Tendo prometido apoiar os Estados Unidos em sua guerra contra o terrorismo, a Europa está agora preocupada sobre o que isso significa, exatamente. "Estamos no mesmo barco, mas tememos o que o capitão vai decidir fazer", disse Dominique Moisi, do Instituto de Relações Internacionais da França. Mais próximos do mundo árabe e com uma grande população muçulmana, europeus se preocupam com o fato de que a ação militar dos EUA possa ir longe demais e provocar mais terrorismo - o que iria inevitavelmente atingi-los também. Num continente por duas vezes devastado por conflitos globais no século XX, políticos odeiam usar a palavra "guerra". Os europeus ficaram chocados com os ataques da semana passada contra os Estados Unidos, mas não têm estômago para um grande conflito. Cerca de metade dos suecos, segundo uma pesquisa publicada hoje, disseram que seria errado os EUA atacarem o Afeganistão caso o país não entregue Osama bin Laden, o maior suspeito dos ataques. Na Grã-Bretanha, uma sondagem mostrou que 66% da população apoiaria ataques militares contra grupos responsáveis pelos ataques, enquanto 59% concordam com ataques contra países que abrigam terroristas."O tipo de cruzada que criaria um ´choque de civilizações´ realmente deixa os europeus nervosos", disse Moisi. "Não podemos arcar com isso". Líderes da União Européia convocaram uma cúpula de emergência para sexta-feira a fim de coordenarem suas ações e reafirmarem o apoio inequívoco aos Estados Unidos - em parte, na esperança de conseguirem uma influência maior no planejamento estratégico de Washington. "Nosso completo apoio também significa que eles vão ter de levar nossos sentimentos e opiniões em conta", disse o ministro do Exterior da Bélgica, Louis Michel, cujo país ocupa a presidência rotativa da União Européia.Enquanto as tropas americanas se preparam para a ação, líderes europeus buscam acalmar a situação e controlar a retórica. "Não se trata de uma guerra", afirmou Michel. "Você não pode usar palavras como essa. Tem de haver uma ´mobilização´ contra o terrorismo". Michel disse que seu país irá contribuir com tropas apenas se houver um pedido bastante específico.No domingo, o ministro da Defesa italiano, Antonio Martino, foi ainda mais longe. Ele "excluiu categoricamente" a possibilidade de uma "convocação extraordinária" de reservistas na Itália. A Itália iria reconsiderar caso seus soldados fossem especificamente necessários e requeridos, disse Martino, mas acrescentou que tal situação "não é esperada... neste momento".O presidente francês, Jacques Chirac, rumando hoje para um encontro na Casa Branca com o presidente George W. Bush, disse que a França apoiará "totalmente" uma ação militar assim que os responsáveis forem identificados. Líderes franceses têm enfatizado que os EUA têm de tomar cuidado para alvejar apenas aqueles que são culpados, e o ministro da Defesa Alain Richard advertiu contra o uso apenas da força na campanha contra o terrorismo.Mesmo os aliados tradicionalmente mais próximos, Alemanha e Grã-Bretanha, emitiram declarações cautelosas. O presidente alemão, Johannes Rau, pediu aos EUA para responderem aos ataques "por meios civis". O ministro da Defesa, Rudolf Scharping, disse que a decisão sobre o tipo de ajuda que a Alemanha irá oferecer ainda tem de ser tomada. Ainda assim, o chanceler Gerhard Schroeder recusou-se a descartar o uso de soldados alemães nos ataques retaliatórios americanos. "Não dá para ficar na chuva sem se molhar", disse ele à tevê alemã.Numa entrevista à CNN, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, foi perguntado se a Grã-Bretanha tomaria parte militarmente. "Já deixamos bem claro que estamos do lado dos Estados Unidos", respondeu. Mas Blair também sublinhou a necessidade de análises cautelosas e troca de consultas com os aliados.Líderes europeus elogiaram Bush por não ter respondido imediatamente aos ataques, dando tempo para que as Nações Unidas fossem incluídas na estratégia e tentarem formar uma coalizão do tipo que expulsou o Iraque do Kuwait. "Qualquer coisa que pareça um forte ataque irracional por parte dos Estados Unidos não terá apoio na Europa", disse John Harper, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados Johns Hopkins, em Bolonha, Itália. "Iria parecer que eles estariam fazendo mais mal do que bem".

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