Guerra às drogas força deslocamentos e causa violência na Colômbia

Mais de 3 milhões de pessoas deixaram suas casas, fugindo de traficantes, guerrilheiros e paramilitares.

Leandra Felipe, BBC

13 de abril de 2012 | 05h57

Além de espalhar violência pela Colômbia, a guerra às drogas deslocou milhões de pessoas ao redor do país. Expulsos de casa por narcotraficantes, por guerrilheiros ou pelo confronto com forças do governo, os chamados "desplazados" formam um contingente que fez do país vizinho o recordista em número de refugiados internos no mundo.

Até maio de 2011, o governo havia registrado mais de 3,7 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado, embora estudos independentes apontem a existência de 5,2 milhões de refugiados internos no país.

Milhares de famílias refugiadas vivem em bairros da periferia de Bogotá, boa parte delas em condições precárias e improvisadas.

É o caso da família do agricultor Willian Peña, 56 anos. Há seis anos, ele foi expulso de suas terras pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), no Departamento de Tolima, no centro-oeste do país.

Embora tenha nascido sob inspiração política, as Farc acabaram se tornando mais um ator no complexo jogo de forças do narcotráfico colombiano ao usar as drogas para financiar suas atividades.

Peña conta que vivia com a esposa e três filhos e tinha como fonte de renda a agricultura familiar. "A gente levava uma vida tranquila. Eu plantava e vendia verduras. Mas, em cinco minutos, as Farc chegaram e mandaram a gente sair e largar tudo, porque senão a gente ia morrer", conta.

Deslocamento forçado

Peña vive em Ciudad Bolívar, um bairro no sul de Bogotá com mais de 3 milhões de habitantes. Por causa de sua localização geográfica, nas montanhas da cidade, e pelo crescimento desordenado, o bairro lembra algumas favelas do Rio de Janeiro.

Ali, além de famílias deslocadas, convivem combatentes que deixaram guerrilhas e grupos paramilitares, desempregados, trabalhadores de baixa renda e várias gangues de criminosos comuns.

Peña disse à BBC Brasil que o grande problema é que o deslocamento não é uma escolha, e sim algo forçado.

"Não estamos preparados para viver em uma grande cidade, não temos emprego, não temos instrução. É uma mudança forçada muito brusca", diz.

Determinado em conseguir uma casa para morar, o colombiano diz que gostaria de voltar a viver no campo, mas que, enquanto houver guerra, isso não é possível.

Ele está cadastrado para receber uma casa por meio de um programa de moradia do governo distrital de Bogotá para refugiados internos. "Quero viver com dignidade. Não quero esmola. Não sou pedinte. Eu sou agricultor", desabafa.

Adaptação difícil

Nelley Nodiega, de 20 anos, chegou a Bogotá há um ano, grávida de sete meses. Ela e sua família saíram do sítio onde viviam no Departamento de Antioquia por causa da ação do grupo paramilitar Las Abejas. O grupo nasceu para combater as ações das guerrilhas de esquerda, mas assim como elas acabou abraçando o narcotráfico.

Nelley conta que o avô não quis pagar a "vacina", espécie de comissão cobrada por grupos paramilitares. "Eles falaram que iam matar a gente. Mas meu avô preferiu ir embora e deixar tudo a dar dinheiro pra eles", conta a jovem.

Hoje a família mora em uma casa emprestada em Soacha, município ao sul de Bogotá, endereço de milhares de deslocados.

"É muito ruim chegar na cidade grande sem conhecer nada. A gente não está acostumado e não sabe nem conversar direito", diz Nodiega.

O deslocamento também ocorre como efeito da própria guerra com as forças do governo. A comerciante Neila Valenza, de 69 anos, perdeu o irmão em um tiroteio e vive como refugiada há 10 anos, vendendo roupas em uma barraca em Bogotá.

Ela teve que sair do sítio onde vivia no Departamento de Caquetá, dentro da zona de distensão - uma região cedida pelo governo colombiano para as Farc no fracassado Processo de Paz de Cáguan, realizado entre 1998 e 2001.

"Quando o governo viu que não ia dar certo a negociação de paz, a guerra começou de novo e a gente teve que sair muito rápido. Era tiro pra tudo quanto é lado. Não deu pra levar nada e nunca mais voltamos porque, depois disso, a guerrilha se apoderou da fazenda", relembra.

Desafio

O governo colombiano pede que as pessoas que perdem as terras busquem primeiramente o Programa de Ação Social, onde serão registradas e levadas para albergues em cidades como Bogotá, Medellín, Cali ou Cartagena.

As famílias podem ficar em um albergue por até um mês, enquanto procuram um lugar para morar.

O programa também oferece uma ajuda mensal de dois salários mínimos colombianos à família (cerca de mil reais) por até dois anos.

O presidente da Fundação Humanitária Novo Amanhecer, Jesus Marío Corrales, grupo que ajuda mais de 27 mil deslocados na Colômbia, acredita que o problema não se resolverá somente com o fim do conflito armado.

"Mesmo que as guerrilhas parem de atuar, outros grupos criminosos como (os paramilitares) Bacrims e os Rastrojos estão se fortalecendo, dominando o narcotráfico e outras modalidades de crime organizado. A população, especialmente a rural, não tem pra onde correr", adverte. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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