Guerra às drogas tornou-se ineficaz

A história rodou o mundo. Em setembro de 2007, a tenente Pricilla Azevedo, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, foi sequestrada por traficantes em Niterói, torturada e jurada a morte. Conseguiu fugir do cativeiro e, no dia seguinte, comandou uma blitz na mesma favela, prendendo seus algozes um a um.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h09

Pela valentia e dedicação, Pricilla - hoje major da PM e coordenadora do Programa Estratégico da Secretaria de Segurança do Rio - acaba de receber um prêmio da mão da Secretária do Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton.

Ela é uma luz no breu do tamanho do continente. Com algumas brilhantes exceções - loas para Colômbia e para a pacificação dos morros cariocas -, as Américas estão perdendo a guerra contra as drogas. O embate malogrado provoca insônia em uma dezena de líderes sul e centro-americanos. Como a evangélica da PM carioca, enfrentam o inimigo com uma pistola na mão e a Bíblia na outra. É cedo ainda para dizer quem levará a melhor, mas sem uma mudança de rumo, o combate às drogas seguirá cobrando seu preço, deixando mais mártires que heróis.

Os mexicanos que o digam. Dos 37 traficantes mais procurados do país, 23 já estão na cadeia ou mortos. Mesmo assim, desde 2006, a ofensiva do presidente Felipe Calderón já consumiu 50 mil vidas, metade delas nos últimos dois anos. Enquanto México agoniza, seus cartéis se globalizam. Acometidos pelo narcotráfico, Guatemala, Honduras e El Salvador tornaram-se "a zona mais letal do mundo" fora do Afeganistão e do Iraque, nas palavras do Gen. Douglas Fraser, chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA.

Cada vez mais políticos e estudiosos questionam a doutrina atual de guerra bruta e debatem abertamente a ideia de descriminalizar as drogas para que o conflito não consuma países inteiros. A proposta não é apenas de nobres aposentados, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, do México e César Gaviria, da Colômbia, ou o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan.

Descriminalização. Hoje chefes de Estado discutem abertamente a ideia. Entre eles está o colombiano Juan Manuel Santos, cujo país já recebeu mais de US$ 7 bilhões dos Estados Unidos para combater o narcotráfico. O mais novo adepto à proposta de legalização é - pasmem - o general direitista Otto Perez Molina, presidente de Guatemala.

A guinada tem suas razões. Para muitos latino-americanos, a política americana é um desastre em câmera lenta. Apesar de 40 anos de campanhas antidroga, os EUA anos não conseguem diminuir o consumo. Eram a maconha e a cocaína os tóxicos preferidos, agora são as meta anfetaminas.

A clientela ao sul do Rio Grande também cresceu. As novas classes médias latinas - mais da metade da população brasileira e seis em cada dez mexicanos - têm dinheiro no bolso e um paladar para tudo, de carro zero ao ecstasy. E ninguém precisa de um diploma de economista para entender que o consumo em alta somado à repressão à oferta só valoriza a droga, elevando o lucro dos cartéis.

Mesmo perdendo a guerra, Washington insiste na velha toada, agora repetida com um sorriso à Obama. Coube ao vice-presidente Joe Biden repassar o recado em sua visita esta semana à América Central. Legalizar as drogas? "Vale a pena discutir o tema", afirmou com entusiasmo a uma roda de jornalistas. "Mas não há nenhuma chance de que o governo Obama-Biden venha a mudar sua política (contra) a legalização."

Enquanto as autoridades não se entendem, no Rio, Pricilla Azevedo está fazendo a parte dela. Com uma pistola em uma mão e a Bíblia na outra.

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