Guerra comercial

De imediato, disputas poderiam favorecer o Brasil, que já exporta soja e outros produtos para a China

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2018 | 05h00

Estados Unidos e China passaram a semana apontando suas artilharias um contra o outro para uma possível guerra comercial. Até agora tudo está no campo das palavras. Mas a rápida escalada e a disputa real de poder entre os dois países mais importantes do mundo tornam o conflito bastante sério.

A briga começou no dia 23, quando o governo de Donald Trump impôs tarifas de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio, para em seguida isentar vários países, incluindo o Brasil. 

No fim, ficou claro que o alvo era a China, cujas exportações foram afetadas em US$ 3 bilhões. Os chineses reagiram com tarifas sobre a compra de US$ 1,2 bilhão em sucata de alumínio e de US$ 200 milhões em tubos de ferro e aço. 

O comércio é parte importante de uma disputa maior por influência no mundo, em que os chineses estão emergindo como superpotência.

No dia 28, o presidente da China, Xi Jinping, recebeu Kim Jong-un, mas só depois que o ditador norte-coreano havia deixado Pequim ele comunicou Trump do encontro. Foi uma forma de mostrar quem tem a chave do processo de distensão em curso na Península Coreana. Trump foi visto no banco de trás.

Movimento

 Na terça-feira, o governo americano anunciou a sobretaxa de 25% sobre 1.300 produtos industriais chineses. A justificativa é que a China viola a propriedade intelectual desses produtos – ou seja, rouba sua tecnologia – e impõe barreiras à entrada das empresas americanas em seu mercado interno. 

Isso é, em grande medida, verdadeiro. A questão é que boa parte dos itens relacionados na lista não são produtos acabados, mas partes da cadeia de produção da indústria americana. 

Embora o governo americano tenha tomado o cuidado de deixar de fora o iPhone, calçados e roupas, o encarecimento daqueles componentes pode tirar a competitividade dos produtos acabados americanos.

A reação chinesa veio no dia seguinte, com uma lista de 106 categorias de produtos que, assim como a americana, abarca cerca de US$ 50 bilhões em comércio. 

A lista inclui produtos que são objeto de forte lobby, como as aeronaves e a soja. Outros são politicamente sensíveis, como a fruta cranberry, produzida em Wisconsin, Estado do presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, e o uísque Bourbon, de Kentucky, terra do líder republicano no Senado, Mitch McConnell. O Congresso passará por eleições em novembro.

Autoritarismo

 O governo chinês acha que resiste melhor que o dos Estados Unidos a uma guerra como essa porque seu regime autoritário tem mais facilidade de enfrentar pressões políticas e seu modelo de intervenção na economia lhe permite apoiar setores que sofrerem com as medidas americanas.

De imediato, essas medidas, se confirmadas, poderiam favorecer o Brasil, que já exporta soja e outros produtos para a China.

Na quinta-feira, Trump dobrou a aposta: ordenou estudos para impor tarifas sobre produtos chineses no valor de US$ 100 bilhões. Essas listas serão submetidas a audiências públicas ao longo de dois meses. 

O presidente americano declarou ter instruído seu secretário da Agricultura, Sonny Perdue, a “implementar um plano para proteger os fazendeiros e seus interesses”. Ele não entrou em detalhes, mas isso costuma significar subsídios – algo que prejudicaria concorrentes como o Brasil e desencadearia ações na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Aliados

Estou no Japão, e aqui há temor que Trump pressione o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, a abandonar sua política de desvalorização do iene, quando se reunir com ele em seu balneário de Mar-a-Lago, na Flórida, nos dias 17 e 18. 

A política monetária é um componente importante na retomada do crescimento japonês e, antes de assumir, em janeiro de 2017, Trump acusou o Japão de beneficiar seus exportadores com o excesso de liquidez.

A ofensiva comercial de Trump desperta uma preocupação diferente em cada parceiro dos Estados Unidos. Uma guerra comercial é algo que se sabe como começa, mas não como termina.

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