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Guerra comercial

Se a guerra é a continuação da política por outros meios, como escreveu Carl von Clausewitz, melhor que ela seja comercial

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2019 | 06h00

A semana foi marcada pela escalada de medidas comerciais dos Estados Unidos em duas frentes: a China e a Venezuela. Em ambos os casos, a vinculação entre comércio e política torna a disputa mais intrincada, sua solução, mais tortuosa, e o impacto sobre o mundo, mais contundente.

A Casa Branca anunciou no dia 1.º uma nova leva de sobretaxas sobre produtos chineses para o início de setembro, no valor de US$ 300 bilhões. O governo chinês orientou as traders do país a simplesmente não comprar mais produtos agrícolas americanos.

Um especialista em comércio exterior me explicou em junho em Pequim que, para a China, essa última rodada de tarifas seria a mais importante, porque envolveria os bens de maior valor agregado. Em razão de seu superávit, que foi de US$ 419 bilhões no ano passado, os chineses não têm mais como retaliar no plano comercial, por absoluta falta de produtos americanos para sobretaxar.

Isso explica o que se deu na segunda-feira: a China deixou que sua moeda cruzasse a barreira psicológica dos 7 yuans por dólar. Isso torna produtos chineses ainda mais baratos. Horas depois, o Tesouro americano declarou a China “manipuladora de moeda”, e prometeu reverter essa “vantagem competitiva injusta”. Novas medidas contra a China estão no forno.

O dólar forte é preocupação recorrente do presidente Donald Trump, que acusa também o Banco Central Europeu e de outros parceiros comerciais de manter suas moedas artificialmente baixas. A China já usou desse artifício, mas este não é o caso agora. Na verdade, o dólar forte é consequência principalmente das políticas de Trump.

O protecionismo americano comprime as exportações e, consequentemente, o crescimento dos parceiros comerciais dos Estados Unidos. Os bancos centrais desses países tendem, então, a baixar juros, o que incentiva a migração de capitais em direção aos títulos do Tesouro americano.

O crescimento robusto da economia americana, impulsionado pelo corte de impostos, atrai ainda mais investimento externo. Tudo isso aumenta a demanda por dólares e fortalece a moeda americana. No que se refere à China, as coisas não caminham de acordo com os objetivos de Trump.

O superávit chinês no comércio com os Estados Unidos somou US$ 226 bilhões de janeiro a julho, ante US$ 163 bilhões nos primeiros sete meses de 2018. Em julho, sofreu um pico, alcançando US$ 45 bilhões, em comparação com US$ 27,5 bilhões no mesmo mês de 2018. Daí o desespero de Trump.

Essa dinâmica econômica é conjuntural. Mas existe algo de estrutural nessa briga, que vai além de governos. A China evolui para ocupar o lugar dos EUA como potência hegemônica. Os americanos tentam retardar esse processo inexorável.

O ex-presidente Barack Obama promoveu a criação da Parceria Trans-Pacífico para marginalizar a China da elaboração das regras comerciais, como ele mesmo explicou em um discurso sobre o Estado da União. Trump é mais direto.

Na outra frente, o Tesouro americano congelou todos os ativos do governo venezuelano nos EUA. Antes, essa medida estava restrita a membros do regime e à estatal do petróleo PDVSA.

Trata-se de uma escalada drástica, que coloca a Venezuela no mesmo patamar de inimigos dos Estados Unidos, como Coreia do Norte, Irã, Síria e Cuba. Medidas desse porte foram adotadas pela última vez na América Latina contra o Panamá de Manuel Noriega e a Nicarágua sandinista nos anos 80.

É uma forma de inibir os aliados do regime chavista - Rússia, Irã, Turquia, Cuba e China - de continuar fazendo negócios com a Venezuela: seus ativos nos Estados Unidos também podem ser congelados.

O regime venezuelano suspendeu as negociações com a oposição, por ela ter apoiado as medidas. Carl von Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. Sendo assim, melhor que ela seja comercial. O que não significa que será indolor.

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