Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Guerra comercial com a China afeta agricultores dos EUA, base eleitoral de Trump

Agronegócio começa a sentir efeitos da queda de exportações após fechamento do mercado chinês; voto rural foi fundamental para vitória do presidente americano nas eleições de 2016

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 05h00

WASHINGTON - Em 2016, Donald Trump se tornou presidente graças aos 60% dos votos que teve em áreas rurais dos EUA – o que compensou a vitória de Hillary Clinton nas grandes cidades do país.

Desde então, o agronegócio é um pilar de seu governo. Nas últimas semanas, porém, a guerra comercial com a China vem aumentando a insatisfação dos agricultores, afetados pelo tiroteio tarifário entre Pequim e Washington.

Trump ainda tem apoio de grande parte do setor, mas a deterioração da base pode ser fatal para sua reeleição, em 2020. Em julho, segundo pesquisa publicada pelo Farm Journal, 79% do setor rural apoiava o presidente. Em agosto, o número caiu para 71%.

Os agricultores americanos se tornaram um grande dano colateral da guerra comercial de Trump. Após um ano de disputas tarifárias, as exportações de soja americana, carne de porco, trigo e outros produtos para a China diminuíram drasticamente, já que Pequim também impôs tarifas em resposta ao protecionismo de Trump.

Os contratos lucrativos que sustentavam muitos fazendeiros foram cancelados, com os chineses buscando produtos em outros países, como Brasil e Canadá.

Os pedidos de falência agrícola este ano, até junho, aumentaram 13% em relação ao mesmo período em 2018 e as taxas de inadimplência estão aumentando, segundo dados oficiais.

A situação está se tornando um problema político para Trump na véspera de um ano eleitoral. Durante meses, os agricultores hipotecaram apoio ao presidente, que garantia que sua política comercial fortaleceria o setor.

Agora, em Estados considerados cruciais para a reeleição, como Minnesota, Iowa e Wisconsin, um número crescente de agricultores diz que está perdendo a paciência com a Casa Branca.

Para conter a revolta no campo, Trump despachou Sonny Perdue, secretário da Agricultura, para um giro pelos EUA. Em sua peregrinação, Perdue tenta minimizar a crise, mas volta sempre para Washington com uma lista de queixas.

“As coisas estão indo ladeira abaixo – e rapidamente”, reclamou Brian Thalmann, presidente da Associação de Produtores de Milho de Minnesota, ao secretário de Trump durante uma feira anual em Minnesota. Thalmann é um dos líderes do setor que publicamente não apoia mais o presidente.

Perder o mercado do país mais populoso do mundo foi um golpe duro para o setor rural americano. As exportações agrícolas dos EUA para a China caíram de US$ 24 bilhões, em 2014, para US $ 9,1 bilhões, no ano passado.

A Casa Branca anunciou uma ajuda financeira de US$ 28 bilhões. No entanto, à medida que a guerra comercial se intensifica, como na semana passada, os ânimos pioram.

O preço do conflito comercial está se espalhando para o setor de maquinário, que atende o agronegócio. A Deere & Company, fabricante de equipamentos agrícolas, anunciou um corte em sua previsão de lucro pela segunda vez este ano.

O executivo-chefe da empresa disse que os agricultores estão adiando as compras em razão da preocupação com o acesso a mercados de exportação.

Os produtores de etanol também estão em pânico. Eles reclamam que uma decisão da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês)– de isentar pequenas refinarias de petróleo da exigência de misturar etanol à base de milho – levou a uma queda na demanda por combustível.

“Este é um momento estressante na agricultura”, disse Joel Jaeger, diretor do Pro Farmer Midwest Crop Tour, centro de análise do setor. Muitos agricultores, no entanto, continuam apoiando Trump e mantêm a esperança de que o presidente saiba o que está fazendo.

Por enquanto, Perdue continua sua missão. “Ele é um de nós. Ele é agricultor”, afirmou Brad Kremer, produtor rural de Wisconsin e tesoureiro da Associação Americana dos Produtores de Soja. “Acho que ele tem um trabalho difícil em um governo difícil.” / NYT

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