Guerra contra o 'Clarín' expõe tática para sufocar a imprensa

Usando a Lei de Mídia, os Kirchner mostram que a ordem é "colocar de joelhos" os grupos não alinhados à Casa Rosada

BUENOS AIRES, / A.P., O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h05

"Coloquem o Clarín de joelhos!" foi a ordem que o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) deu aos ministros de sua sucessora e mulher, a presidente Cristina Kirchner, em meados de 2010, poucos meses antes de morrer de um fulminante ataque cardíaco. A ordem era a de reduzir ao máximo o poder da maior holding multimídia do país, o Grupo Clarín.

O grupo de comunicação foi aliado dos Kirchners por pelo menos cinco anos, a partir de 2003. Em 2008, no entanto, durante a crise ruralista, o Clarín não exibiu o alinhamento automático que o governo esperava e passou a ser encarado como o "inimigo número um".

"Se você não está 100% alinhado com o governo Kirchner, passa a ser considerado 100% inimigo da presidente Cristina", afirmou em entrevista ao Estado o historiador Luis Alberto Romero.

Em 2009 o governo aprovou a Lei de Mídia, que impõe limites para a atuação de grupos de comunicação, entre elas, o impedimento de canais de TV de cobrir mais de 35% da população do país, além da proibição de uma empresa possuir ao mesmo tempo um canal de TV aberta e outro a cabo.

O principal alvo do governo era nítido, já que os próprios ministros se referiam à nova norma sem sutilezas como a "Lei Clarín". No entanto, o Grupo Clarín conseguiu suspender parte da lei na Justiça temporariamente.

No dia 7 de dezembro a Corte Suprema avaliará se a suspensão parcial da lei será prorrogada ou não. O governo já canta vitória e afirma que nessa data será o fim do grupo que a presidente Cristina denomina de "rede nacional do medo e do desânimo".

Nos últimos anos, a maior parte dos canais de televisão, assustada com as pressões do governo, alinhou-se com a presidente Cristina e evita notícias negativas sobre a administração Kirchner. Dos nove grandes canais de TV a cabo e de TV aberta do país, sete estão alinhados em maior ou menor grau com a Casa Rosada.

A presidente já anunciou que o governo abrirá licitações para que outros empresários fiquem com as licenças que o Grupo Clarín possui atualmente.

O grupo promete enfrentar o governo na Justiça e afirma que a Lei de Mídia - que é retroativa - é inconstitucional. Nos bastidores, teme-se até mesmo que grupos simpatizantes do governo possam tentar invadir algumas instalações do Clarín no dia 7 de dezembro.

Segundo a analista de opinião pública Mariel Fornoni, a disputa com o Clarín não causa problemas diretos na popularidade de Cristina. "Essa lei não está dentro das preocupações das pessoas. Mas veremos o que acontece depois do 7 de dezembro."

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