Guerra contra o Taleban reaproxima EUA do Irã

Subitamente confrontados com um inimigo comum no Afeganistão - o regime do Taleban - o Irã e os Estados Unidos iniciaram contatos secretos e têm feitos gestos que indicam um crescente desejo de cooperação. É muito cedo para avaliar se os interesses convergentes dos dois países no Afeganistão os colocará no caminho do diálogo aberto e de uma eventual normalização de relações, que terminaram de forma dramática, em 1979, depois que o governo de Jimmy Carter acolheu o deposto xá Reza Pahlevi e o regime revolucionário do aiatolá Khomeini abençoou o seqüestro de 52 diplomatas da embaixada americana em Teerã. Mas os sinais de aproximação são evidentes. De acordo com o The New York Times, o governo iraniano respondeu positivamente a uma mensagem que os Estados Unidos enviaram no dia 8 de outubro passado, apenas algumas horas antes do início do bombardeio aéreo do Afeganistão, pedindo para resgatar e assistir pilotos americanos que possam ser forçados a fazer pouso de emergência ou saltar de pára-quedas em seu território. O pedido e a resposta foram transmitidos pelo governo da Suíça, que atua como intermediário entre os dois países desde o rompimento das relações diplomáticas. Na semana passada, o Irã já havia concordado em autorizar o trânsito por terra pelo país de 110 toneladas de alimentos doados pelos EUA a uma agência das Nações Unidas. Os suprimentos, que chegaram na quarta-feira, destinam-se aos 1,5 milhão de refugiados afegãos que estão concentrados ao longo da fronteira de 800 quilômetros entre os dois países. Os gestos positivos de Teerã estão gerando reações semelhantes em Washington. Na segunda-feira, um advogado do departamento de Justiça pediu a um juiz federal para arquivar um processo que 137 ex-reféns americanos e seus parentes iniciaram contra o governo iraniano, pedindo uma indenização pelos 444 dias de cativeiro ilegal em Teerã. Paralelamente, os EUA estão considerando suspender os efeitos do embargo econômico em vigor contra o Irã para permitir ao país comprar aviões da Boeing, que teve muitas encomendas canceladas desde os ataques terroristas de 11 de setembro e enfrenta a perspectiva de uma crise grave. Diplomatas americanos e iranianos encontram-se duas vezes nas últimas semanas em Genebra para discutir a situação no Afeganistão e maneiras de formar um governo pós-Taleban que goze de uma ampla base de apoio. O Irã, um estado confessional que professa o islamismo xiita, vê como ameaça a versão radical do islamismo sunita representado pelo Taleban e por Osama bin Laden. Em 1998, dez diplomatas iraniano foram mortos, num incidente, pelo Taleban. Desde então Teerã financia a Aliança do Norte, a força rebelde que domina uma pequena parcela do Afeganistão e, neste momento, é a ponta da lança de uma eventual ofensiva por terra contra Cabul. Richard Haas, um especialista em Oriente Médio encarregado do planejamento político do departamento de Estado, tem estado no centro dos contatos com o Irã, o que funcionários americanos comparam a "dança" diplomática entre os dois países que são, oficialmente, inimigos declarados. O Irã continua na lista oficial dos Estados que Washington considera patrocinadores do terrorismo. Publicamente, os líderes da teocracia iraniana não perderam seu apetite para criticar os EUA. No último fim de semana, o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do país, condenou os ataques aéreos contra o Afeganistão e previu que eles podem produzir "uma catástrofe humana". Mas a guerra contra o terrorismo parece estar levando Washington a uma atitude mais pragmática em relação ao Irã, uma nação milenar e um país crucial para qualquer projeto de estabilidade política no Golfo Pérsico e no Oriente Médio. A influência do Irã no Afeganistão pós-Taleban está refletida em declarações feitas recentemente em Washington e em Teerã. "Se os EUA se virem apanhados numa armadilha no pântano do Afeganistão, eles, definitivamente, precisarão do Irã", disse ao Financial Times Mishen Rezai, ex-líder da Guarda Revolucionária e figura influente na hierarquia do regime islâmico que controla o país. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, provavelmente tinha o mesmo tipo de preocupação em mente durante uma conversa com um jornalista, num jantar em Washington, durante o qual deixou clara sua preferência por uma política americana mais favorável ao Irã no Golfo Pérsico. "Como aconteceu de nós nos opormos ao mesmo tempo ao Iraque e ao Irã?", perguntou ele, referindo-se à política de "dupla contenção" de dois países rivais entre si adotada por Washington depois da guerra do Golfo, na década passada, "Isso não faz nenhum sentido". Leia o especial

Agencia Estado,

16 Outubro 2001 | 14h27

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