Guerra da celulose: Kirchner suspende cúpula com Uruguai

O presidente Néstor Kirchner intensificou sua ofensiva contra o governo uruguaio ao cancelar a reunião de cúpula que ele teria nesta quarta-feira com o presidente Tabaré Vázquez na cidade de Colonia, no Uruguai. O encontro tinha como objetivo acender pela primeira vez um cachimbo da paz para tentar desativar o conflito que confronta os dois países desde meados do ano passado. O pivô da crise é a construção de duas fábricas de celulose no município uruguaio de Fray Bentos, localizado às margens do rio Uruguai, na fronteira entre dois países. Inesperadamente, o governo Kirchner preferiu adiar a cúpula presidencial, alegando que o documento que seria assinado para definir os poderes da Comissão Técnica a ser criada para resolver o conflito era muito genérico. O governo argentino exige um documento mais detalhado sobre o funcionamento da Comissão, que avaliará o impacto ambiental das duas fábricas. De nada serviu que as empresas que estão instalando as duas fábricas - a finlandesa Botnia e a espanhola Ence - anunciassem a paralisação da construção por um prazo de 90 dias, como sinal de boa vontade para resolver a crise. Kirchner opõe-se à construção das fábricas, alegando que são altamente poluentes e que prejudicarão a agricultura, piscicultura e turismo na região, além da saúde dos argentinos da área da fronteira. Vázquez defende as fábricas, argumentando que elas possuem tecnologia de ponta. As fábricas implicam no maior investimento privado da história do Uruguai (um total de US$ 1,8 bilhão), além de proporcionar 12 mil empregos diretos e indiretos. Todos os partidos políticos e a opinião pública uruguaia defendem a construção das fábricas, consideradas cruciais para a recuperação econômica do país. Os dois presidentes estão contra a parede. Os analistas sustentam que qualquer recuo implicará na danificação de suas imagens em seus respectivos países. Para complicar a situação de Kirchner, as assembléias populares de habitantes argentinos da fronteira exigem "poluição zero". As assembléias - muito bem organizadas e fora do controle de Kirchner - realizaram durante 45 dias piquetes permanentes em duas das três pontes que ligam os dois países - levando a economia uruguaia a um princípio de asfixia (o setor de turismo sofreu perdas de US$ 300 milhões neste verão; enquanto que as empresas de transportes perderam US$ 5 milhões diários). Os setores mais radicais das assembléias querem que as fábricas não sejam instaladas sobre o rio Uruguai. O governo uruguaio pretendia que os dois países concordassem em realizar, ao longo dos próximos anos, um monitoramento conjunto para fiscalizar a poluição do rio Uruguai. A proposta não agrada o governo Kirchner, nem os habitantes argentinos da fronteira.

Agencia Estado,

29 Março 2006 | 20h55

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