Guerra da Chechênia faz Putin perder o sangue-frio

A Chechênia, região russa à qual a Rússia dedica uma guerra feroz, não consegue agradar ninguém: nem os chechenos, que morrem cada vez mais; nem os europeus, que se decepcionaram com Putin no último encontro entre União Européia e a Rússia, em Bruxelas, e, enfim, nem a Putin, que perde o sangue frio diante de quem ousa invocar a "barbárie" dos soldados russos em Grozny.Foi justamente o que aconteceu neste encontro russo-europeu de Bruxelas. O presidente russo Putin proferiu frases de rara violência e grosseria, mas ninguém se deu conta no momento, pois ele, espumando de raiva, falou em russo.O que aconteceu? Como nenhum ministro europeu - exceto os dinamarqueses - teve coragem de evocar o horror checheno diante do ocupante do Kremlin, um jornalista "camicase" se aventurou a fazê-lo na coletiva de imprensa. O representante do Le Monde fez uma pergunta sobre a "festa" dos soldados russos em Grozny.Putin começou por demonstrar ter sido muito bem catequizado depois dos atentados de Bin Laden em Nova York. Os chechenos são "terroristas muçulmanos". Eles querem criar um califato no Cáucaso e, depois, no mundo inteiro. O presidente da Chechênia, Aslan Kaskhadov, é um novo Bin Laden.E subitamente Putin entra em erupção e ataca o jornalista francês. "Se você quer se tornar um muçulmano radical, se quer passar por uma circuncisão, eu o convido a ir para Moscou. Somos um país multicultural. Temos especialistas em questões como essa e recomendo que faça essa operação lá, de modo que ninguém irá condená-lo."Diante desse impropério, ninguém reagiu. E por quê? Putin falou em russo e, como seus intérpretes também eram russos, não traduziram essa passagem. Mas logo em seguida os jornalistas russos falaram. A verdade absoluta. No dia seguinte, os jornais de Moscou repercutiram a proposta de Putin: "Putin quer circuncidar a Europa." Essa história prova muitas coisas. Primeiro, Putin, esse homem frio, de face impassível, controla seus nervos muito mal. Desde o questionamento sobre a Chechênia, um dos desastres de seu governo, ele ficou louco. E a sua raiva se traduz em obscenidades e escatologia.Recentemente, ele prometeu "descarregar os terroristas chechenos pela privada".Em seguida, a Europa deu uma nova prova de sua covardia. Mostra-se altiva e vigilante quando um país pequeno, como a Turquia, transgride os direitos humanos. Se é o colosso russo, ou o colosso chinês, no caso do Tibete, ela se acanha. Ela "coloca o rabo entre as pernas".O filósofo francês André Glucksmann disse: "A União Européia, que se construiu depois de um genocídio, o perpretado por Hitler, vai macular sua certidão de nascimento se não fizer nada para impedir outro genocídio, e os muçulmanos moderados, que têm sofrido continuamente violações e massacres, vão se ´binladenizar´ como no Afeganistão. A Europa criou condições favoráveis à loucura terrorista, não mais aquela ´loucura religiosa´, mas aquela ´loucura de dor´".Efeitos colaterais dessa covardia da Europa, que vive anunciando que vai envelhecer, mas pelo seu tamanho, sua riqueza o mais poderoso conjunto do mundo, sua relevância diplomática é enorme. Disparate: sua relevância diplomática é a mesma de uma ostra estragada.Enfim, a cólera de Putin confirma que a Rússia vai endurecer na Chechênia. Mesmo na imprensa, portanto sob as ordens do Kremlin, há vozes discordantes. O sociólogo Boris Kagarlitsky disse: "Jamais a Rússia esteve tão próxima da criação de um Estado totalitário como depois da tomada dos reféns moscovitas. O poder vai destruir os resultados políticos adquiridos ao final da primeira guerra da Chechênia: a saber, a liberdade política".Por meio de diversas fontes confiáveis, notícias chegam ao Ocidente sobre o calvário checheno. Oficiais russos mantêm registros dos presos, de maneira a poder revendê-los aos seus familiares, mortos ou vivos. Os soldados praticam o "fagots" (feixes), que consiste em amarrar homens, mulheres e crianças e explodi-los com granadas. Também usam armadilhas para capturá-los e, depois, vendê-los em troca de dinheiro. Todas essas informações devem ser checadas. Podem ser distorcidas ou exageradas.Fica a suposição de que coisas abomináveis ocorrem neste país.

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