Washington Post / Jabin Botsford
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Guerra de nervos de Trump

Diplomacia do presidente americano consiste em desligar tudo que permite a comunicação com o outro

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 05h00

Após a destruição de um drone americano no Irã, o mundo acreditou que a quarta Guerra do Golfo em 50 anos explodiria. Felizmente, Donald Trump perguntou a seus generais quantas vítimas resultariam de uma operação contra as bases de mísseis iranianos. Os generais refletiram em suas mentes. “Cento e cinquenta”, disse um deles. Trump achou que seriam muitas mortes, “desmarcou” a guerra e o planeta respirou aliviado.

Desde então, todos voltaram ao trabalho, alguns para neutralizar a disputa entre americanos e iranianos, outros para correr em fuga, na pior das hipóteses. Os europeus viram isso como uma grande oportunidade para testar “a diplomacia comum”.

Hesitantes entre o desejo de preservar a distensão recentemente conquistada com o Irã, e brutalmente demolida por Trump, os europeus escolheram uma via prudente e enérgica: quase todos os dias, Bruxelas pede aos dois inimigos que mantenham o “máximo de prudência”. 

Em poucos dias, começa em Osaka a reunião do G-20, uma oportunidade desesperada para salvar o acordo nuclear de 2015. O problema é que os americanos não sabem como sair de um problema confuso que eles mesmo criaram. Eles não sabem qual “fio de Ariadne” que devem seguir para escapar do Minotauro da guerra.

Distinguimos dois grupos na Casa Branca: Trump (e os generais) gostariam de asfixiar o Irã em vez de matá-lo. Ele caminha para a beira da guerra, mas eles não querem cair nela. Mas, com Trump, é difícil saber onde está o Norte e onde está o Oeste. Às vezes, ele “se faz de pomba”, chegando a prometer aos iranianos, se forem gentis, encontrar felicidade, árvores, flores, frutas e canções. Outras vezes, ele “se faz de falcão”. Sua paciência está esgotada. Até a próxima “mudança de rumo”.

Estas “idas e vindas”, é claro, são julgadas severamente. Concluímos que Trump é um louco ou um idiota. Em sua diplomacia desgrenhada, a própria lógica foi colocada fora do jogo. A linguagem vacila em tuítes breves. Como negociar ou mesmo falar com um homem que ignora (ou finge ignorar) o princípio do “terceiro excluído”, os princípios lógicos de Aristóteles ou de Descartes? 

A diplomacia de Trump consiste em desligar tudo que permite a comunicação com o outro. Os ocidentais, perdidos no escuro, sem bússola, lâmpada ou língua comum, tateiam como cegos. E Trump, com esse mistério, “prospera”. Este jogo é perigoso. 

Embora a opção da guerra seja a preferida de John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, e Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, ela é rejeitada para dar espaço para às “sanções” de Trump. Assim, corremos o risco de ataques indiretos contra este ou aquele interesse americano, como por exemplo no Iraque. No Irã, o caos, revoltas populares famintas e incontroláveis. Uma insurgência das populações xiitas, no leste da Arábia Saudita, sunita, ou finalmente um bloqueio completo do Estreito de Ormuz, com o caos no mercado de petróleo.

Alguns acreditam que a diplomacia ainda tenha algo a dizer. Por acaso, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e o presidente francês, Emmanuel Macron, se reunirão hoje em Tóquio, às vésperas da cúpula do G-20, em Osaka, da qual Trump participará. Os dois líderes terão a oportunidade de discutir tranquila e longamente sobre a questão iraniana. Será que eles poderão milagrosamente encontrar juntos uma saída? A resposta virá daqui a alguns dias. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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