Guerra destrói patrimônio sírio, diz Unesco

Museus são saqueados e redes de tráfico de obras de arte exploram escavações clandestinas

ANDREI NETTOCORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h07

Além de marcar a memória de famílias das mais de 100 mil pessoas mortas em 29 meses de conflito, a guerra civil na Síria deixa um triste legado para toda a humanidade: a destruição do patrimônio histórico do país. Em meio aos combates, ruínas romanas e prédios seculares, ícones para cristãos e muçulmanos, foram atingidos, enquanto sítios arqueológicos se tornaram alvos de escavações clandestinas e museus vêm sendo saqueados por redes internacionais de tráfico de obras de arte.

As informações constam de um relatório produzido pela Unesco com base em autoridades sírias e voluntários que mapearam a destruição. De acordo com o documento, produzido por Maamoun Adulkarim, diretor-geral de Antiguidades e de Museus da Síria, o maior interlocutor da ONU no assunto, os sítios atingidos por bombardeios e por pilhagem se contam às dezenas, em especial em Alepo e Idlib.

A primeira razão da destruição são os bombardeios de forças leais ao ditador Bashar Assad e por grupos rebeldes. Os maiores danos foram verificados nos museus de Alepo, Deir-el-Zor, Hama, Homs, Maarta e Naaman. Relatos de comunidades locais indicam que o prejuízo vai de janelas espatifadas a telhados desabados sobre as obras de arte.

Em alguns casos, a estrutura dos prédios foi abalada. Foi o caso do velho mercado de Alepo, do século 14, tombado pela Unesco em 1986, destruído em parte por um incêndio - um dano testemunhado pela reportagem do Estado em novembro de 2012. Também em Alepo, os minaretes da mesquita Omíada foram arrasados por bombardeios, assim como as torres do tempo de Al-Omari, em Deraa.

Em Homs, as fortalezas de Krak des Chevaliers e de Al-Madik sofreram danos importantes, como também a igreja de Oum el-Zenar e outros templos cristãos. Obras como as fortificações do oásis de Palmira, parte de uma antiga província romana, relíquia tombada pela Unesco em 1980, também teriam sido alvos de ataques de granadas de obus com o único objetivo de destruir o local.

O problema vai além dos bombardeios. Com os combates, bandos organizados atacam museus por obras de arte. Roubos foram registrados em Hama, Apamee, Alepo, Jaabar, Raqqa e Maaret el Naaman. Sítios arqueológicos vêm sendo alvo de escavações ilegais também realizadas por quadrilhas organizadas, contratadas por colecionadores e comerciantes de obras de arte. Um dos casos mais graves, de acordo com a Unesco, ocorreu em Deir-el-Zor, onde os sítios de Mari, Doura Europos, Tell Cheikh Hamad e Tel el-Sin foram violados. Peças recolhidas sem autorização já estariam à venda no interior da Síria e no exterior.

Escavações foram realizadas também em Raqqa, Ebla, Idlib, Apamee e Deraa, onde saques com danos irreversíveis foram realizados. Em Tell Qaramel, nas imediações de Alepo, até retroescavadeiras teriam sido usadas. "Não se trata mais nem mesmo de escavação clandestina. Será necessário inventar uma outra palavra para classificar essas ações", afirma Adulkarim.

Preocupados com o grau de destruição, na quinta-feira, Lakhdar Brahimi, enviado da ONU para a Síria, e a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, se reuniram em Paris para discutir um plano de proteção aos sítios históricos. A estratégia é conscientizar a população a tentar preservar os 10 mil sítios históricos e repetir a estratégia de 2012, quando mais de 4 mil objetos arqueológicos foram recuperados em ações realizadas em várias cidades sírias.

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