Johannes Eisele/AFP
Johannes Eisele/AFP

Guerra do Afeganistão foi perdida antes que Biden a encerrasse; leia análise

Nunca houve uma maneira decente de sair do país

Michelle Goldberg*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 05h00

Em 2019, ataques aéreos aliados e do governo do Afeganistão mataram cerca de 700 civis, mais do que em qualquer outro ano desde o início da guerra, de acordo com o Costs of War Project, um grupo que monitora o número de vítimas humanas nos conflitos americanos pós-11 de Setembro. 

Os ataques aéreos dos EUA e da Otan diminuíram em 2020, após o acordo para a retirada das tropas, entre Donald Trump e o Taleban, mas as ofensivas de Força Aérea Afegã (AAF) aumentaram. “Como consequência, a AAF está prejudicando mais civis afegãos do que em qualquer momento de sua história”, escreveu Neta Crawford, chefe do departamento de ciência política da Universidade de Boston e codiretora do Projeto Costs of War, no ano passado.

Os EUA são tão responsáveis por essas vítimas quanto pelos afegãos que morrerão por causa de sua retirada mal administrada. Em meio às cenas dolorosas do desfecho da guerra, isso é fácil de esquecer, especialmente quando os comentaristas fingem que o conflito que Joe Biden herdou poderia ter sido mantido a um custo baixo.

Existem duas críticas principais à política de Biden para o Afeganistão. A primeira, que é válida, acusa o governo de não limpar os obstáculos burocráticos que mantinham os aliados afegãos esperando por vistos, possivelmente prendendo dezenas de milhares de pessoas que merecem ser retiradas. A segunda, que é absurda, culpa Biden pela derrota em uma guerra perdida anos atrás.

O argumento para ter mais paciência ou mais tempo para os EUA pressupõe que a presença americana no Afeganistão estava fazendo mais bem do que mal. Para alguns afegãos, principalmente na capital, isso era sem dúvida verdade. Manter um contingente de tropas americanas no Afeganistão pode muito bem ter protegido aqueles que serão mais prejudicados pela barbárie teocrática do Taleban.

Mas, para os EUA permanecerem no Afeganistão, Biden teria de denunciar o acordo de Trump com o Taleban. Mais tropas americanas seriam necessárias, e os combates, incluindo ataques aéreos americanos, quase certamente aumentariam. Isso significaria mais sofrimento e mais morte para muitos civis afegãos.

Crawford me disse que a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão começou a divulgar dados sobre vítimas civis em 2008. Na maioria dos anos, ela disse, o Taleban, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico foram responsáveis pela maioria das mortes de civis, mas não durante todos os anos. Cerca de 3 mil civis morreram em 2020 e, antes da tomada do Taleban, disse ela, 2021 parecia ser tão ruim ou pior.

Agora, embora o Taleban tenha rédea solta, ela acredita que as mortes de civis possam diminuir. “Dado o colapso, ou a retirada, das forças nacionais, militares e policiais afegãs, eu realmente acho que não bateremos o recorde de civis mortos, porque, em algumas dessas áreas, as pessoas não vão disputar terras. Não haverá ataques aéreos, que matam muitas pessoas. Haverá menos bombardeios.”

Talvez a violência americana no Afeganistão pudesse ser justificada se estivesse melhorando a vida do afegão médio. Mas, muitas vezes, parece que tornou a vida das pessoas mais difícil. O relatório mais recente do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão pinta um quadro contundente de duas décadas de esforços americanos no Afeganistão. 

“As autoridades dos EUA, muitas vezes, conferiam poder a pessoas que atacavam a população ou desviavam a assistência dos EUA de seus destinatários para enriquecer e capacitar a si próprios e a seus aliados. A falta de conhecimento no nível local significava que os projetos destinados a mitigar o conflito, muitas vezes, o exacerbavam, e até mesmo financiavam insurgentes inadvertidamente”, diz o relatório. 

Falando daqueles que pensam que os americanos poderiam ter ficado no Afeganistão por um longo prazo simplesmente para evitar perder a guerra, Crawford disse: “O que essa conversa parece demonstrar é que o nível de miséria civil foi retirado da equação, e só o que importa é quem controla Cabul”.

O controle do Taleban em Cabul, é claro, também significará uma catástrofe para os civis, e alguns jovens sentirão que perderam a chance de um futuro. Nunca houve uma maneira decente de sair do Afeganistão. Por isso, os EUA travaram uma guerra inútil por 20 anos. Mas também não havia uma maneira decente de ficar.

* É JORNALISTA 

 

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