"Guerra do gás" entre Rússia e Ucrânia afeta a Europa

A "guerra do gás" entre Moscou e Kiev afetou hoje o fornecimento destinado à Europa, embora as partes discordem se foi a Rússia que reduziu o bombeamento ou a Ucrânia que "rouba" o combustível durante seu trânsito em direção a outros países. A Ucrânia denunciou que a Rússia reduziu hoje o fornecimento de gás destinado à Europa, poucas horas depois que a corporação estatal russa Gazprom cortou os envios à Ucrânia por falta de acordo sobre os novos "preços de mercado" reivindicados por Moscou. A companhia nacional ucraniana Naftogaz declarou que a Rússia não só cortou as provisões nos dois gasodutos destinados à Ucrânia, como também, diminuiu o fornecimento nos outros três que conduzem à Europa. "Os volumes de gás destinados foram reduzidos para assegurar o trânsito para a Europa. A redução total é de 187 milhões de metros cúbicos de gás ao dia", 67 milhões a mais que a quantidade cortada à Ucrânia anunciada pela Gazprom, assinalou a Naftogaz em comunicado citado pela agência russa Interfax. "Essas ações põem em perigo o fornecimento de gás à Europa", assinalou a empresa ucraniana, que prometeu cumprir seus compromissos relativos à passagem do combustível. O porta-voz da Gazprom, Serguei Kupriyanov, disse que é o Governo de Kiev que, "segundo dados operacionais, iniciou a extração não autorizada de gás russo destinado a consumidores europeus", e ameaçou levar a Ucrânia aos tribunais. "Não consumimos nem um só metro cúbico de gás russo", respondeu por sua vez o primeiro-ministro ucraniano, Yuri Yekhanurov. Um representante da Gazexport, braço exportador da Gazprom, confirmou à cadeia russa NTV, na fronteira da Ucrânia com a Eslováquia, que esse país recebia menos gás destinado à Europa. "Segundo os parâmetros que vejo no esquema, as provisões que passam por esse ponto podem ser reduzidas em uns 40 milhões de metros cúbicos por dia", disse o funcionário da primeira estação distribuidora de gás situada além da Ucrânia. Ucrânia recusa reajuste e Rússia corta fornecimento de gásO presidente ucraniano, Viktor Yushchenko, voltou a qualificar de "inaceitável" e "e sem fundamentos econômicos" o novo preço russo, de US$ 230, que quase quintuplica o anterior, de US$ 50, por cada mil metros cúbicos de gás. Yushchenko, levado ao poder há um ano pela "Revolução Laranja" que provocou inquietação em Moscou, acusou a Rússia de exercer "pressão política" sobre a Ucrânia e se mostrou disposto a pedir apoio ao Ocidente. Essa manhã, a Rússia cumpriu sua ameaça de cortar o fornecimento de gás natural à Ucrânia depois que Kiev rejeitou definitivamente o novo preço do combustível russo para 2006. A Gazprom anunciou que a ucraniana Naftogaz "rejeitou oficialmente" a última oferta russa, que propunha uma moratória de três meses para os novos "preços de mercado", e diminuiu o abastecimento da Ucrânia em 120 milhões de metros cúbicos diários. No entanto, a Gazprom assegurou que continua fornecendo "em pleno volume" o gás que passa pelo território ucraniano com destino aos países europeus, embora tenha dito temer que o Governo de Kiev "roube" parte do combustível. A Rússia fornecia à Ucrânia 130 bilhões de metros cúbicos de gás anuais, dos quais 85% estavam destinados à Europa e o resto ao Governo de Kiev, que até agora cobrava "em espécie" pelo trânsito por seu território. As autoridades ucranianas aceitam passar a tarifas mais próximas as do mercado, mas pedem um período de transição de dois ou três anos para evitar o afundamento da indústria nacional, e oferecem como preço ideal US$ 80 por mil metros cúbicos de gás. O país alega que o contrato assinado em agosto de 2004 pela Gazprom com a Naftogaz estabelece que os US$ 50 por cada mil metros cúbicos de gás são o preço fixo até 2009, e ameaçou recorrer ao Tribunal Internacional de Arbitragem de Estocolmo. O ex-assessor econômico da Presidência russa, Andréi Ilariónov, deu razão à Ucrânia ontem, mas Kupriyanov insistiu hoje que aquele acordo previa uma "correção anual" dos preços. A União Européia já convocou uma reunião do grupo de coordenação do gás para 4 de janeiro, na qual será analisada a crise entre Ucrânia e Rússia, que assume hoje a Presidência do Grupo dos Oito (G8) países mais industrializados do mundo.

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