Guerra dos tâmeis continua no Sri Lanka, apesar de cessar-fogo

O atentado suicida que deixou cerca de 100 pessoas mortas nesta segunda-feira no Sri Lanka voltou a revelar a fragilidade do cessar-fogo alcançado em 2002 para pôr fim a uma guerra civil que durou duas décadas e deixou cerca de 65 mil mortos. Os embates entre as forças de segurança do Sri Lanka - antigo Ceilão - e a guerrilha rebelde dos Tigres da Libertação Tâmil Eelam (LTTE) remetem a uma divisão histórica da sociedade cingalesa. Os tâmeis, de origem indiana e religião hindu, são 18% da população do Sri Lanka e lutam pelo autogoverno ou pela independência nas regiões norte e leste do país, principalmente na península de Jaffna e em torno da cidade de Trincomalee.Em 1948, o Sri Lanka deixou de ser uma colônia britânica para se tornar um Estado independente. Na década de 1970 a minoria tâmil começou a se sentir discriminada e a pedir a independência.Mas foi só na década de 1970 que nasceu o movimento Tigres da Libertação Tâmil Eelam, que a partir de 1983 iniciou o conflito armado pela independência do norte e do leste do Sri Lanka.Em 1987 a Índia interveio na guerra civil, enviou alimentos à população da região tâmil e assinou um acordo com o Governo do Sri Lanka segundo o qual enviaria tropas para manter a paz no norte e no leste da ilha. Os rebeldes tomaram a península de Jaffna.Três anos depois, as tropas indianas concluíram sua retirada, enquanto o Exército e a guerrilha dos Tigres combatiam de forma cada vez mais violenta.Esta guerra foi acompanhada por sangrentos atentados contra governantes, políticos, religiosos e a população civil. Em 1991, o primeiro-ministro da Índia, Rajiv Gandhi, foi assassinado por uma mulher que levava explosivos junto a sua cintura e, em 1993, o então presidente do Sri Lanka Ranasinghe Premadasa morreu em um atentado a bomba.DiálogoO ano de 1994 foi marcado por um convite ao diálogo (que havia sido abandonado em 1991) feito pelo primeiro-ministro, Ranil Wickramasinghe, mas não que não foi adiante.As negociações de paz foram retomadas em janeiro 1995, fracassando de novo. Nesse mesmo ano, o Exército de Sri Lanka tomou Jaffna, reduto rebelde.Depois do atentado de 31 de janeiro de 1996, em que morreram mais de 200 civis e outros 1.400 ficaram feridos na explosão de um caminhão carregado com explosivos em frente ao Banco Central de Colombo, a presidente se comprometeu a "restabelecer a paz total". A tentativa, no entanto, foi mais uma vez frustrada. Em uma só campanha militar, conhecida como operação "Vitória Segura", e levada a cabo em 1997, morreram milhares de pessoas entre civis, rebeldes e militares.Após um atentado contra um santuário budista em 1998, o governo do Sri Lanka declarou o LTTE uma organização ilegal, como haviam feito anteriormente Índia e EUA.No final de 1999, os tâmeis combinaram a luta armada no território tâmil com a realização de atentados contra destacadas personalidades políticas. A então presidente Chandrika Kumaratunga foi também alvo de um ataque suicida durante um comício eleitoral, no qual morreram 23 pessoas e cerca de 100 ficaram feridas. A presidente sobreviveu.Novos contatosO ano de 2000 foi marcado por uma tentativa de atentado contra a primeira-ministra Sirimavo Bandaranike e uma nova ofensiva da guerrilha para reconquistar Jaffna. Mas foi nesse período também que iniciaram-se os novos contatos para retomar o diálogo entre os dois lados do conflito.Os esforços realizados ficaram paralisados por uma crise política que, em outubro de 2001, obrigou a presidente Chandrika Kumaratunga a dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas. As eleições aconteceram em dezembro e foram vencidas pelo opositor PNU. Ranil Wickramesinghe se tornou primeiro-ministro. Wickramesinghe deu um grande passo rumo à paz ao negociar um cessar-fogo por tempo indeterminado com a guerrilha em fevereiro de 2002, ao que seguiu, sete meses mais tarde, o início de um diálogo de paz e a legalização do grupo armado. No entanto, as conversas de paz foram rompidas em abril de 2003 sem que houvesse qualquer acordo.Ainda que as negociações tenham continuado paralisadas, em 2005 os Tigres Tâmeis e o governo assinaram um acordo de cooperação para ajudar as regiões afetadas por um tsunami que, em dezembro de 2004, causou cerca de 39.000 mortes e deixou um milhão de desabrigados.O cessar-fogo, ainda vigente, foi constantemente desrespeitado durante este ano. De fato, neste mês de outubro, os duros enfrentamentos entre o Exército e a guerrilha no norte da ilha ameaçaram a retomada das conversas de paz previstas para o fim deste mês em Genebra.

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