Guerra eleitoral em Bogotá

Outro dia, o badalado consultor político Juan José Rendón, guru de campanha do presidente colombiano Juan Manuel Santos, pediu demissão. Não tinha escolha. Dias antes, um ex-traficante da alta roda internacional, hoje preso nos EUA, quebrou o código de silêncio e abriu a boca.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h14

Afirmou ter intermediado um pagamento ao marqueteiro para que ele convencesse autoridades a lhes assegurar benefícios legais, incluindo a não extradição para os EUA. O preço: US$ 12 milhões.

Santos confirmou que recebeu a proposta de rendição dos traficantes e não concordou com os termos dos traficantes. No entanto, o dano já estava feito.

A poucas semanas da eleição do dia 25, com sua popularidade em queda, o líder colombiano luta pela sua sobrevida política. No seu cangote está Oscar Iván Zuluaga, ultraconservador, ex-ministro da Fazenda. A peleja deve se estender para o segundo turno, no qual o famoso cavalheirismo político colombiano promete acabar na sarjeta.

Não está longe dela. Mal estourou o escândalo Rendón e outro já se irrompeu, no outro lado das barricadas. Neste, um comissário de campanha de Zuluaga foi acusado de comandar uma rede de espionagem para tumultuar as negociações entre a Casa de Nariño e as Farc.

Luis Alfonso Hoyos negou tudo, dizendo-se um mero "assessor espiritual" do candidato. No entanto, já que o espírito é efêmero, contratou um araponga, Andrés Sepúlveda, com currículo de hacker profissional (tem código html tatuado no pescoço), convicções da ultradireita e uma queda pelo macabro. Da sua página no Twitter, que se chama "Sacroculto", dispara sem piedade contra o "castro-chavismo" de Santos, a quem acusou de "ajoelhar-se ante as Farc".

O hacker foi preso na semana passada, acusado de interceptar correspondências eletrônicas das Farc, do governo cubano e até da presidência colombiana.

Sua prisão derrubou o guia espiritual de Zuluaga e empurrou a civilidade do país andino cordilheira abaixo. Desde o início, Santos dirigiu sua presidência para o precipício. Economista de brasão nobre colombiano, fez uma carreira discreta e, até 2010, jamais concorrera a nenhum cargo público.

Tal como Dilma Rousseff, subiu ao palanque não por desenho próprio, mas como peça no tabuleiro do seu chefe e mentor, o popularíssimo Álvaro Uribe. Não que tenha sido um poste. Santos serviu Uribe como fiel ministro da Defesa, executando a guerra sem trégua contra a guerrilha.

Todos imaginavam que ele fosse seguir o roteiro uribista: ultraconservador, aliado fiel de Washington e inimigo visceral de Hugo Chávez. Levou dias para quebrar o encanto. Seu primeiro gesto foi selar a paz com Chávez. Repetiu o gesto com o equatoriano Rafael Correa, sócio do grêmio bolivariano. Uribe reagiu, chamou Santos de tolo, depois de traidor. Em seguida, a coisa piorou. Hoje, criador e criatura não se falam. Mordido talvez pela ambição, Santos reabriu negociações com as Farc, vislumbrando a paz que iludiu seus antecessores. Cansados do conflito que já matou 200 mil e desterrou 2 milhões, os colombianos aplaudiram.

Isso foi em outubro de 2012. Desde então, a economia cresceu. O desemprego caiu e a pobreza recuou. A paz, porém, segue relutante. O governo e as Farc já esboçaram acordos sobre a reforma agrária e a participação política de ex-rebeldes, mas, 20 meses depois, ainda não sabem como acabar com o tráfico de drogas, reparar as vítimas, nem como terminar com o último conflito armado da região. Melhor para a direita ressurgente que, sob a carranca de Uribe, quer uma solução no campo de batalha. Pior para Colômbia, ainda contundida pela guerra e agora polarizada pela quimera da paz.

*É colunista do 'Estado' e chefe da sucursal brasileira do portal de notícias 'Vocativ'

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