Yonatan Sindel / EFE
Yonatan Sindel / EFE

Guerra em Gaza é oportunidade, mas também um risco para Netanyahu; leia artigo

Os críticos de Netanyahu têm agora mais razões para querer vê-lo partir

Isabel Kershner/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 05h00

Quando o conflito se intensifica, a luta política em Israel arrefece. Quando o país fica à beira da guerra, a oposição se alinha ao governo. Mas não desta vez. Enquanto o confronto em Gaza provoca destruição e a violência sectária entre árabes e judeus se intensifica, um dos opositores de Binyamin Netanyahu culpa o primeiro-ministro pela sensação de caos e trabalha para tirá-lo do cargo. Yair Lapid disse que os acontecimentos da última semana “não podem servir de desculpa para Netanyahu se manter no poder”. “É por isso que ele deveria ser substituído o mais rapidamente possível”, escreveu Lapid, no Facebook.

A escalada da crise ocorre em um momento crucial para a política israelense. Poucos dias atrás, Netanyahu, que é julgado por corrupção e não conseguiu formar governo após quatro eleições em dois anos, parecia prestes a perder o cargo. Lapid obteve a chance de formar uma coalizão. Seus parceiros são um discrepante grupo de pequenos partidos com agendas conflitantes, e ele tem até 2 de junho para formar uma aliança.

O derramamento de sangue tanto facilita quando dificulta o esforço de Lapid. Os críticos de Netanyahu têm agora mais razões para querer vê-lo partir. Mas, ao mesmo tempo, afirmam analistas, a violência enfatizou as diferenças entre os partidos de oposição. E o impulso inicial para negociar uma coalizão foi reduzido pela violência. “Fica muito difícil negociar enquanto foguetes estão sendo disparados e o prazo para formar coalizão se aproxima”, afirmou Reuven Hazan, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Negociações que já seriam complicadas ficaram ainda mais complicadas, o que favorece Netanyahu.”

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O fator árabe

Um dos elementos-chave para uma coalizão anti-Netanyahu está nas mãos de Mansour Abbas, líder de um pequeno partido árabe conhecido como Ra’am. Os principais partidos que governaram o país sempre evitaram depender de votos árabes no Parlamento, particularmente em razão do foco nas questões de segurança. E legisladores árabes nunca quiseram participar de governos e ter de compartilhar responsabilidade pelas ações militares de Israel.

Abbas planejava mudar isso. Após negociações com Netanyahu fracassarem, ele se inclinou para uma cooperação com Lapid. Mas, quando as tensões religiosas e nacionalistas explodiram, ele suspendeu as negociações. Muitos analistas acreditam que a escalada de violência cria novos obstáculos para o envolvimento de Abbas na coalizão. O apoio dele a um governo que inclui israelenses de direita seria difícil de engolir para sua base eleitoral. “Se as ideologias opostas já deixavam muitos com um pé atrás nas negociações, agora eles estão com os dois pés atrás”, afirmou Hazan.

A crise pode ajudar Netanyahu a conquistar o apoio de opositores que prometeram não integrar um governo liderado por ele, afirmou Mitchell Barak, analista com base em Jerusalém. “Netanyahu está exatamente onde quer estar, no meio de uma grande crise que faz as pessoas não quererem mudar o premiê nem o ministro da Defesa”, afirmou Barak. “Partido e políticos não querem ser cobrados por nenhuma promessa de campanha em razão dessa situação.”

Um aliado inesperado

Um dos principais rivais do premiê, Benny Gantz, ministro da Defesa, supervisiona a campanha militar em Gaza em coordenação com Netanyahu. Alguns analistas especulam que essa crise pode ajudá-lo a persuadir Gantz a ficar do seu lado e mantê-lo no poder. Sob o acordo de coalizão que ambos alcançaram, no ano passado, Gantz assumiria como primeiro-ministro em novembro. Esse pacto ruiu em razão de uma crise de orçamento, que provocou as eleições de março. 

“Eles têm de coordenar juntos uma guerra, quando não conseguem nem manter um acordo de coalizão”, disse Dahlia Scheindlin, analista de Tel-Aviv. Ela acrescentou, porém, que “quanto mais próximos da guerra total, mais fácil fica argumentar que não é possível mudar o governo”./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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