Guerra étnica oculta interesse por riqueza

Ex-camaradas de luta pela libertação do Sudão do Sul estão agora em lados opostos

ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL / JUBA, SUDÃO DO SUL, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h08

Eerie Susp e Kuota Ruach têm 22 anos, o tempo da velha guerra entre o norte muçulmano e o sul cristão que resultou na divisão do Sudão em dois países. A linha religiosa forjada esconde interesses poderosos em recursos como o petróleo da fronteira.

Eles não se lembram de quando pegaram em armas pela primeira vez - Ruach recorda-se apenas de se perguntar, de pequeno, quando se tornaria mais alto do que o cano da Kalashnikov que apoiava no chão para medir o próprio crescimento. Por duas décadas, Susp e Ruach estiveram do mesmo lado, em combates para proteger seu território e tribos dos ataques do norte ou fugindo de um campo de refugiados para outro.

O Sudão do Sul ganhou a independência em 9 de julho de 2011. À meia-noite daquele dia, os sinos das igrejas badalaram por uma hora. Ouvia-se fogos, buzinas, tambores, cantoria.

Pouco depois, Susp voltou do refúgio no Quênia para a terra natal, com esperança de obter educação e emprego no novo país, celebrado pela comunidade internacional com o envio de bilhões de dólares. Com ele, mais de 2,3 milhões de refugiados voltaram para casa. Ruach alistou-se no Exército. "Eu queria defender o meu país", ele diz, agora abatido, mostrando as balas alojadas na mão e no joelho após um confronto ocorrido há um mês, já com o tom de voz sem nenhum sinal da empolgação de 2011.

Quase três anos depois da independência, Ruach e Susp agora se veem em lados opostos de uma nova guerra, a frente de batalha redefinida por linhas étnicas - Eerie é da etnia dinka, do presidente Salva Kiir; Ruach é da minoria nuer, do ex-vice-presidente Riek Machar, demitido do cargo em julho por Kirr, o que ajudou a aumentar a tensão entre os dois principais grupos étnicos.

Em 15 de dezembro, pouco após uma reunião entre Kiir e Machar, tiros foram ouvidos na sede da guarda presidencial, em Juba. Os guardas envolveram-se numa briga após o presidente ter supostamente ordenado o desarmamento dos soldados da etnia nuer - embora alguns aleguem que tudo começou com uma discussão por atrasos de salários. No dia seguinte, Kiir mandou prender 11 políticos ligados a Machar e acusou o opositor de planejar um golpe. Machar diz que Kiir busca consolidar o poder nas mãos da tribo dinka, descumprindo promessas de um governo democrático.

Conflitos seguiram-se em áreas como Gudele, Manga e Ghaeda, bairros predominantemente nuer na periferia de Juba, onde soldados leais a Salva Kiir foram acusados de promover uma limpeza étnica. Em três dias, 500 pessoas foram mortas. O conflito se alastrou para uma guerra civil de larga escala. Machar passou à clandestinidade e assumiu a liderança dos rebeldes, que avançaram para o norte e tomaram o controle de regiões como Bor, capital de Jonglei, o maior Estado do país, e Bentiu, no Estado de Unity, redutos históricos das tribos nuer. Em março, eles tomaram a estratégica capital petrolífera do Alto do Nilo, Malakal, na fronteira com o Sudão. Em três meses, dezenas - se não centenas de milhares - foram mortos, deixando um rastro de corpos ao longo do Rio Nilo.

A escalada da violência pegou de surpresa a comunidade internacional, mas a hostilidade histórica entre as tribos dinka e nuer, a militarização de um país nascido de uma guerra sangrenta, traumatizado e apinhado de armas e relatos de testemunhas e vítimas ajudam a compreender como a barbárie se espalhou rapidamente.

Ruach estava em uma base de Bor, quando recebeu o telefonema de um primo: "Nossa família... foi toda massacrada". Segundo ele, dois de seus irmãos, o tio e dois primos foram vítimas de um massacre ocorrido na cidade de Gudele, vilarejo pobre na periferia de Juba. "Em retaliação ao massacre de nossos irmãos, todo o contingente nuer decidiu desertar", disse Ruach. Rebeldes tomaram de assalto Bor, que se tornou uma cidade fantasma. Vilas foram saqueadas, o gado roubado, pessoas que não puderam fugir foram queimadas vivas. "O governo usou força aérea, nós nos escondemos nos arbustos, mas quando os aviões deixaram a área, invadimos por terra e matamos todos os soldados que tinham ficado para trás. Nós vencemos porque quase 100% da população em Bor é nuer e uniu-se a nós. Outras tribos desertam e se uniram aos nuer, muitos se sentem oprimidos pelo governo de Kiir."

Susp vivia com a família, em um vilarejo chamado Anyidi. Foi quando os dois jovens se viram pela primeira vez em lados opostos da guerra. Ele desenterrou sua Kalashnikov para proteger a família. Pergunto como conseguiu a arma tão rapidamente. "Armas são tão comuns para as crianças no Sudão do Sul quanto lápis e canetas em outras partes, nós crescemos entre armas", diz.

Susp fala no ritmo dos jovens, mas tem a maturidade de um velho. "Se tive de atirar em alguém? Por que não? Quando você tem de sobreviver, não há escolhas a fazer." Ele resistiu por seis dias, protegendo a família com seu fuzil.

Susp decidiu fugir com a família. Em Pariak, ainda no Estado de Jonglei, viu-se no meio do fogo cruzado. "Havia muitos deles (rebeldes). Eu sabia que não conseguiria resistir, então fugi para o mato. Só o que eu pensava era: meu Deus, como eu vou proteger sozinho a minha família aqui? Era a única coisa que eu tinha em mente: se conseguiria viver ou morreria", disse. "Propriedades foram tomadas, casas incendiadas, corpos carbonizados." Tiros foram trocados, mas o Exército de Salva Kiir retomou o controle. Foi nesse embate que Ruach levou o tiro na perna e na mão - ele foi colocado por rebeldes em um caminhão e levado de volta a Bor, de onde a ONU o transferiu para um hospital militar em Juba. "Eu estava quase morrendo", diz. Susp conseguiu escapar, atravessou o Rio Nilo e se refugiou com o restante da família em Uganda - seu pai, soldado do Exército leal a Kiir, ficou para lutar.

"Esse mesmo homem atacou quando eu nasci", diz Susp. Em 1992, Machar desertou do Exército para a Libertação do Sudão do Sul e, com o apoio do presidente do então unificado Sudão, Omar Hassan al-Bashir, a quem interessava a desestabilização do sul, promoveu ataques contra comunidades dinka, no que ficou conhecido como o massacre de Bor. Marchar e Kiir voltaram a se unir pela independência do sul, mas o país permanece profundamente dividido entre as linhas étnicas.

O temor é de que o mesmo se repita agora, o que poderia levar a um conflito regional em um território já instável. Bashir quer de volta o controle das áreas produtoras de petróleo que perdeu com a separação do sul - algumas dessas áreas agora sob controle dos rebeldes.

Uganda, maior parceiro comercial do Sul, enviou tropas ao país - elas defendem o aeroporto em Juba e da estrada entre os países, alguns foram deslocados para reforçar tropas de Kiir em Malakal. Outros vizinhos como Etiópia e Quênia têm interesses no país. E há a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana, mergulhados em guerras sangrentas, que podem cruzar a fronteira para um Sudão do Sul instável.

Tudo o que sabemos sobre:
Sudão do Sul

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.