Guerra Fria é passado

Não retornamos a um mundo bipolar; a geopolítica de hoje é muito mais interessante

Thomas L. Friedman*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2014 | 02h02

Enquanto a Rússia rosna com indignação pela queda do seu aliado na Ucrânia - e continua a proteger um outro aliado, o assassino que governa a Síria -, surgem boatos de que estamos voltando à Guerra Fria e a equipe de Barack Obama não está disposta a defender os interesses dos EUA nem de seus amigos. Peço licença para discordar.

Não acho que a Guerra Fria esteja voltando: a geopolítica de hoje é bem mais interessante do que isso. Tampouco acho que a cautela do presidente Obama seja de todo equivocada.

A Guerra Fria foi um acontecimento único no qual se defrontaram duas ideologias globais, duas superpotências globais, cada uma dotada de arsenais nucleares de alcance global e com o respaldo de alianças consideráveis de ambos os lados. O mundo estava dividido em um tabuleiro vermelho e negro. Quem controlava cada quadrado era importante para a sensação de segurança, bem-estar e poderio de cada uma das partes. Era também um jogo de soma zero, em que todo ganho da União Soviética e seus aliados correspondia um prejuízo para a Otan - e vice-versa.

Aquele jogo acabou. Os EUA ganharam. O que temos hoje é a combinação de um jogo mais antigo e de um jogo mais novo. "A maior divisão geopolítica no mundo de hoje ocorre entre os países que querem que seus Estados sejam poderosos e os países que querem que seu povo prospere", afirma Michael Mandelbaum, professor de política externa na Universidade Johns Hopkins.

A primeira categoria compreenderia nações como Rússia, Irã e Coreia do Norte, cujos líderes estão preocupados em aumentar a própria autoridade, dignidade e influência, criando Estados poderosos. Como os dois primeiros têm petróleo e o último tem uma bomba que pode negociar por alimentos, seus líderes conseguem desafiar o sistema global e sobreviver, quando não prosperar - enquanto se dedicam ao velho e tradicional jogo da política de poder para dominar suas respectivas regiões.

A segunda categoria, a dos países preocupados em aumentar sua dignidade e influência por meio da prosperidade do seu povo, inclui todos os países do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), a União Europeia, o bloco de comércio do Mercosul, na América Latina, e a Associação da Nações do Sudeste Asiático (Asean), na Ásia.

Esses países estão cientes de que a principal tendência no mundo hoje não é uma nova Guerra Fria, mas a fusão da globalização com a revolução da tecnologia da informação. Eles pretendem criar as escolas certas, a infraestrutura, a largura de bandas de internet, os regimes comerciais, as aberturas para os investimentos e a gestão da economia corretas para que a maioria do seu povo tenha condições de prosperar em um mundo em que todo emprego da classe média exige maior capacitação e a possibilidade de inovar constantemente determinará seu padrão de vida. No entanto, agora, há também uma terceira categoria, cada vez mais importante, de países que não podem projetar poder nem chegar à prosperidade.

Eles constituem o mundo da "desordem". O poder e a prosperidade desses países desaparecem num abismo profundo porque eles se consomem em lutas internas em lugar de tentar responder a algumas indagações. Quem somos? Quais são nossas fronteiras? Quem é o dono de que oliveira? Entre esses países estão Síria, Líbia, Iraque, Sudão, Somália, Congo e outras regiões onde se travam intensos conflitos.

Polivalente. A Ucrânia abrange as três tendências. A revolução que se desenrola nesse país ocorreu porque o governo foi induzido pela Rússia a abandonar um acordo comercial com a União Europeia. Então, o que faremos? O mundo já sabe que as condições para uma intervenção americana no exterior terão de ser muito mais extremas. Na Guerra Fria, as decisões eram claras. Os EUA mostraram comedimento.

Os americanos deveriam ter aprendido algumas lições da recente experiência no Oriente Médio. Primeiro, o quão pouco conhecem as complexidades políticas e sociais daqueles países. Segundo, que podem - a um custo considerável - impedir que coisas ruins ocorram naqueles países, mas não podem, sozinhos, fazer com que coisas boas aconteçam. Por fim, que quando tentam fazer coisas boas acontecerem, correm o risco de assumir a responsabilidade da solução dos problemas dos outros. E essa responsabilidade só cabe a eles.

*Thomas L. Friedman é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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