'Guerra na Síria ajudou a reagrupar grupos jihadistas'

Para deputado iraquiano, reconstrução do Iraque passa por tornar o país independente de potências regionais

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h06

Com uma receita anual de US$ 30 bilhões em petróleo e um crescimento econômico de 10% ao ano, o Iraque volta a exercer influência econômica e política no mundo árabe. Todo iraquiano sabe que estará melhor vivendo em um país independente do que sob influência do Irã, da Arábia Saudita ou da Turquia. O país poderá se tornar a "Suíça" da região, explorando as identificações étnicas e religiosas de cada grupo com essas potências regionais.

Essa visão otimista é do presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento iraquiano, Humam Hamoudi, deputado pelo partido xiita Supremo Comando Islâmico (SCI), que apoia o governo. A caminho de uma reunião de parlamentares em Quito, Hamoudi, presidente da comissão que redigiu a Constituição, concedeu entrevista exclusiva ao Estado.

Até aqui, as milícias xiitas, embora mantenham suas armas, estão quietas diante dos ataques dos grupos sunitas. Até quando será possível contê-las?

Não são sunitas, mas terroristas. Não temos problemas entre xiitas e sunitas, mas entre grupos sunitas e parte do governo. O clero xiita e partidos do governo, incluindo o SCI, têm apoiado reivindicações dos sunitas, de reintegração às Forças Armadas e de empregos no setor público. O problema é como incluir o maior número possível de grupos étnicos e religiosos no governo. Só temos democracia há um ano e dois meses, a partir da retirada americana. Saímos de décadas de ditadura sangrenta. É natural que tenhamos cometido erros: na prisão indiscriminada de muitas pessoas no combate ao terrorismo; na nomeação de cargos públicos; na escolha de juízes.

Os senhores reconhecem que a desbaathificação (exclusão de membros do Partido Baath, de Saddam Hussein, do setor público), imposta por Paul Bremer (primeiro administrador americano do Iraque) foi um erro?

Isso mesmo. Duas comissões foram criadas para devolver as propriedades deles e reinserir funcionários públicos que tinham sido demitidos. Outras coisas precisam de mudanças na Constituição, que o Parlamento está preparando.

Essa nova onda de violência foi desencadeada pela condenação à morte (em setembro) do vice-presidente (sunita) Tareq Hashemi (acusado de comandar ataques contra xiitas). Foi um erro esse processo contra ele?

Não tem nada a ver. O processo teve início em dezembro de 2011 e esses ataques começaram agora. Nos protestos pacíficos na província de Anbar, os manifestantes deixam claro que aceitam a situação política iraquiana, respeitam a Constituição, mas querem reformas pontuais que podemos promover. Prova de que o terrorismo não é sunita foi que os sunitas combateram a Al-Qaeda em Anbar.

O Líbano tem uma forma de acomodação de cristãos, sunitas e xiitas. O Iraque caminhava para isso, com um primeiro-ministro xiita, um presidente curdo e o vice-presidente sunita. É possível obter isso de novo?

Já temos isso: o presidente do Parlamento é sunita. Precisamos definir se, a partir dos diretores-gerais das estatais, do segundo e terceiro escalões, vamos distribuir os cargos por critérios étnicos e religiosos ou técnicos. Mas queremos que todos participem, para que não haja injustiças contra um grupo ou outro.

A Al-Qaeda tinha sido neutralizada com o movimento Despertar, aliança entre os EUA e líderes locais sunitas. Por que ela conseguiu reagrupar-se?

Por causa do conflito na Síria. Derrotada no Iraque, ela foi para a Síria. O levante na Síria recebe muita ajuda logística e financeira da Arábia Saudita, Catar, Turquia e países europeus. Como são de origem iraquiana, alguns voltaram para o Iraque, agora que têm esse apoio.

Arábia Saudita, Irã e Turquia disputam influência sobre o Iraque, que não quer ser cliente deles, e tenta elevar-se a potência regional. Como o conflito sírio impacta na estratégia iraquiana?

Hoje, a principal preocupação desses três países não é o Iraque, mas a Síria. Diferentemente do Líbano, da Síria, do Paquistão, etc., no Iraque há integração entre xiitas e sunitas, por casamentos. A Constituição prevê a repartição igualitária da riqueza do petróleo entre todas as províncias. Todo iraquiano sabe que vivendo no Iraque tem futuro muito melhor do que como instrumento da política externa de outros países.

O primeiro-ministro Nuri Maliki teve uma ligação com o Irã. Ele procurou alçar-se à condição de líder nacional, não apenas xiita. Mas a Arábia Saudita não correspondeu a suas tentativas de aproximação. Como desmarcar-se mais do Irã e da identidade xiita?

O Iraque tem uma composição peculiar. Não há um grupo com maioria absoluta. Os xiitas têm entre 55% e 60%. Mas dentre eles há curdos, turcomanos. Os sunitas, que são na maioria árabes, somam 40% a 45%. O Iraque já experimentou alinhamentos com a Arábia Saudita e com o Irã. Isso só resultou em guerras e destruição. Cada grupo tem de aproveitar seu bom relacionamento com os países da região, para exercer o papel da Suíça e trazer paz para toda a região. Temos relações estratégicas com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, com o Irã. Tivemos (em maio) uma reunião em Bagdá entre o Irã e o Grupo 5+1 (EUA, Rússia, Inglaterra, França, China e Alemanha). Nos últimos dez anos, tivemos taxas de crescimento fantásticas, acima de 10% ao ano. Teremos nos próximos anos US$ 30 bilhões de receitas anuais. O Iraque voltou a exercer influência econômica e política no mundo árabe.

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