Guerra na Síria entra em seu sexto ano e miséria domina campos de refugiados

Imigrantes sofrem com a falta de dinheiro, emprego e perspectiva de futuro, e correm risco de serem explorados sexualmente ou terem suas crianças sendo levadas a trabalhos degradantes para garantir sobrevivência das famílias

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2016 | 16h44

GENEBRA – Refugiados, traumatizados e cada vez mais miseráveis. Um levantamento realizado pela ONU sobre a situação dos sírios vivendo nos países do Oriente Médio aponta para o fato de que, depois de seis anos de um conflito que já fez mais de 200 mil mortos, um número cada vez maior de pessoas vive abaixo da linha da pobreza. Enquanto isso, as doações internacionais não chegam e a ONU vê seus cofres vazios para resgatar os mais vulneráveis. 

Sem dinheiro, emprego ou futuro, os refugiados estão sob o risco de serem explorados sexualmente e com crianças sendo levadas a trabalhos degradantes para garantir a sobrevivência das famílias. 

No Líbano, 70% dos 1,1 milhão de refugiados vivem em situação de miséria. Em 2014, a taxa era de 50%. A dívida média das famílias passou de US$ 850,00 para mais de US$ 990,00; 52% dos refugiados no Líbano precisam de ajuda financeira. Mas apenas 17% deles receberam algum tipo de recursos.

O governo de Beirute identificou 20 mil famílias que, por conta de uma situação de desespero, precisavam ser ajudadas imediatamente. Mas apenas 72 delas receberam algum tipo de assistência.

Na Jordânia, a taxa de miseráveis chega a 90% dos refugiados sírios, com 67% das famílias endividadas. No Egito, são pelo menos mais 62 mil refugiados na pobreza extrema. No último mês, 8,5 mil famílias que deveriam receber ajuda financeira ficaram sem o aporte em razão de falta de recursos nos programas criados para ajudar os refugiados.

No total, os problemas orçamentários ainda deixaram pelo menos 179 mil famílias sem a bolsa mensal que recebem para poder sobreviver em toda a região. 

Com seis anos de conflito, famílias de classe média da Síria viram suas economias desaparecerem. Primeiro, em razão do pagamento a grupos de contrabandistas que garantiram a fuga dos refugiados para países vizinhos. Depois, para se manterem em locais onde nem o governo local e nem a ONU estavam em condições de ajuda. Encontrar emprego passou a ser uma missão quase impossível. 

Veja abaixo: Número de refugiados atinge recorde

Do lado da comunidade internacional, uma conferência de doadores chegou a levantar promessas de US$ 11 bilhões para ajudar os refugiados sírios, que chegam a quase 5 milhões de pessoas. Mas, nos cofres da ONU, apenas US$ 1,3 bilhão foram injetados. “Sem recursos, a pobreza vai aumentar”, declarou Leo Dobbs, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, lamentando que as promessas não se concretizaram em aportes reais. “Há o risco de que os mais vulneráveis fiquem ainda mais suscetíveis a serem cooptados por grupos criminosos”, alertou.

Em 2016, ajuda financeira foi dada para apenas 102 mil famílias, contra 25 mil que receberam algum apoio para moradia. Cerca de 5,6 mil refugiados ainda foram ajudados a encontrar trabalho, um número insignificante diante dos 5 milhões de sírios nessa situação.

Mais de 900 mil crianças estão sem escola. A ONU planejava construir 1.021 estabelecimentos de ensino na região. Mas diante da falta de recursos, apenas 65 delas foram erguidas. Aproximadamente 4,2 milhões de consultas médicas deveriam ocorrer em 2016. Mas, até agora, apenas 1 milhão foram realizadas. 

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