Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Guerra na Síria: ‘Vi dezenas de corpos na cela' 

Noura al-Jizawi foi presa por criticar regime de Bashar Assad

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 05h00

Quando foi capturada pelo regime de Bashar Assad e levada para uma prisão comandada pela inteligência militar perto de Damasco, Noura Al-Jizawi só conseguia pensar que não sairia com vida. “Vi dezenas de corpos, tanto na minha cela como nos corredores das prisões onde eu estava, nas salas e gente gritando de dor”, relatou ao Estado a ativista que, após um período sob proteção estrangeira, voltou a falar sobre as torturas que sofreu desde que foi presa, em 2012. 

“Decidi, com outras mulheres, que tínhamos de registrar onde estávamos, pelo menos para que, no futuro, quando alguém liberasse o país do regime de Assad, descobrissem essas câmaras de tortura e quem passou por ali”, disse.  “Escrevíamos nossos nomes na parede com nossas unhas.”

Noura disse que, por seis meses, ninguém de sua família soube para onde ela tinha sido levada. “Eu também não sabia mais onde estava. Era levada de uma cela a outra de forma constante”, afirmou. Meses depois, sua irmã encontrou seu nome. Depois de ser detida, ela foi coincidentemente levada para uma cela por onde Noura passou. “Minha irmã desabou a chorar quando viu meu nome escrito na parede. Ela também não sabia se eu estava viva ou não.” 

De acordo com os documentos da Comissão de Inquérito dos Crimes da Síria, a ofensiva do regime contra mulheres e crianças é uma das provas de crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos por Assad.

Noura diz que nunca lhe explicaram o motivo de sua prisão, mas ela acredita que sua participação em uma passeata que levou os serviços de segurança a suspeitar de suas intenções. Segundo ela, a prisão de mulheres tem outro objetivo. “As mulheres são presas em muitos casos para pressionar áreas rebeldes a se entregar”, disse. “Centenas de mulheres foram torturadas diante dos maridos para forçá-los a confessar ou revelar dados de pessoas procuradas.”

As mulheres não enfrentam apenas a tortura do regime de Assad. “Centenas e centenas de mulheres estão sendo detidas por grupos terroristas e por milícias operando em todos os lados”, afirmou Noura, que acredita ter sido solta em razão da pressão internacional. Seu desaparecimento, na época, passou a ser usado no Oriente Médio como uma prova da arbitrariedade de Assad. “Eu seria um peso maior morta do que viva. E isso me salvou”, disse. 

 

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