AP/Serhii Nuzhnenko - 01/03/22
AP/Serhii Nuzhnenko - 01/03/22

Nova fase da guerra na Ucrânia é mais imprevisível e perigosa que a inicial; leia a análise

Combates na Ucrânia estão se intensificando, não abrandando, enquanto a retórica entre a Rússia e o Ocidente atinge níveis de agressividade que não eram vistos desde o auge da Guerra Fria

Adam Taylor, The Washington Post

02 de março de 2022 | 05h00

O estágio inicial da guerra na Ucrânia desmentiu expectativas. A invasão militar russa fracassou em objetivos cruciais, contrariando previsões de uma derrota da Ucrânia. E então, após anos evitando confrontações diretas com Moscou, os países ocidentais passaram a punir diretamente o presidente russo, Vladimir Putin, e seus aliados com sanções econômicas verdadeiramente devastadoras, ao mesmo tempo em que fornecem armas abertamente para a Ucrânia.

Mas depois de cinco dias de combates, há pouca indicação de que este conflito terminará proximamente. Em vez disso, o conflito parece estar se movendo para outra fase, mais imprevisível e perigosa do que a inicial. Os combates na Ucrânia estão se intensificando, não abrandando, enquanto a retórica entre a Rússia e o Ocidente atinge níveis de agressividade que não eram vistos desde o auge da Guerra Fria. 

Mesmo que negociações de paz tenham se iniciado na segunda-feira, não há sinais de que o ciclo de escalada arrefecerá. Em meio a uma pressão global sem precedentes,  Putin está dobrando sua aposta numa postura defensiva que contrapõe a Rússia em relação a quase todos os países do mundo. Ele intensificou os níveis de violência no leste da Ucrânia atacando a cidade de Kharkiv, suspeita-se, com bombas de fragmentação, nos mesmo momento em que colocou o arsenal nuclear do país em alerta. 

Essa recusa em recuar é um lembrete de uma agora infame história que Putin contou certa vez sobre encurralar um rato no canto de uma escada externa do complexo habitacional soviético onde ele cresceu em Leningrado. “Ele não tinha para onde correr. Então, se debateu e avançou contra mim. Fiquei surpreso e assustado. Era o rato, agora, que me perseguia”, relembrou o líder russo num livro de entrevistas publicado originalmente em 2000. 

Tratou-se de uma experiência formativa para o futuro líder; uma “rápida e duradoura lição sobre o significado da palavra encurralado”, conforme explicou Putin. 

Mas quem está encurralado agora? Por séculos, a Rússia tem sido o brigão arrogante da região, dominando seus vizinhos com tamanho e ambição. Em discursos e comentários anteriores à invasão à Ucrânia, Putin desdenhou do país, qualificando-o como uma “parte inalienável da história, da cultura e do espaço espiritual (da Rússia)”. 

Mais ainda que no papel as diferenças entre as capacidades militares entre Rússia e Ucrânia sejam imensas, a tentativa inicial de Moscou de invadir seu vizinho menor foi atrapalhada. Entre o fracasso em garantir superioridade aérea sobre a minúscula Aeronáutica ucraniana e notáveis problemas logísticos que deixaram os tanques russos sem combustível, os estágios iniciais do conflito humilharam as forças russas. 

“Na verdade, a Rússia está mostrando ao mundo que não é tão forte como pensávamos que ela fosse”, afirmou aos meus colegas neste fim de semana John Spencer, veterano do Exército que coordena o departamento de estudos sobre guerra urbana do Instituto de Guerra Moderna da Academia Militar dos EUA.  

E ainda assim, em vez de recuar, a Rússia poderá simplesmente responder com mais animosidade. Em Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, autoridades locais afirmaram na segunda-feira que bombardeios pesados atingiram áreas residenciais. O uso de bombas de fragmentação, um tipo de explosivo conhecido por seu impacto indiscriminado, foi relatado. Há relatos de dezenas de feridos.   

Especialistas alertam que qualquer suposta pretensão da Rússia estar buscando evitar mortes de civis pode agora ter caído por terra — Kharkiv poderia agora ser submetida ao tipo de devastação que a Rússia impingiu a Grozny, durante a 2.ª Guerra da Chechênia, ou a Alepo, da guerra síria. Uma graduada autoridade de defesa dos EUA disse a repórteres na segunda-feira que os russos pareciam estar tentando cercar Kiev e outras cidades, potencialmente apelando para táticas de sitiamento.

Na arena internacional, é a Rússia que está sitiada. O governo russo foi submetido a níveis de isolamento internacional piores do que os da Guerra Fria. Sanções do Ocidente sobre o banco central, o Ministério das Finanças e o fundo soberano da Rússia extirparam grande parte da economia russa do sistema financeiro internacional, ocasionando um acentuado declínio do valor do rublo e longas filas em caixas eletrônicos no país. 

Putin, seu ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e muitas outras autoridades da Rússia, assim como oligarcas do país, já foram sancionados individualmente por governos ocidentais.

Países do Ocidente, mesmo os tradicionalmente neutros, estão fornecendo armas à Ucrânia ou banindo o tráfego de aviões russos em seu espaço aéreo. O isolamento vai além de medidas de governos: celebridades, empresas privadas e organizações esportivas estão entre os que cortaram publicamente os laços com a Rússia em resposta à invasão à Ucrânia. 

No mínimo, haverá danos colaterais para os russos. A súbita turbulência econômica na Rússia surtirá impacto sobre milhões de cidadãos comuns, que mostraram pouco interesse na guerra na Ucrânia. Menos favoravelmente, mirar os ativos no Ocidente dos oligarcas russos poderia apenas aproximá-los de Putin. Ambos os cenários poderiam surtir impactos em cadeia também sobre não russos, incluindo preços mais altos de petróleo e gás natural.   

Algumas autoridades de países da Otan chegaram muito perto de recomendar um conflito aberto contra a Rússia. A ministra britânica de Exterior, Liz Truss, disse apoiar o direito dos ucranianos de defender seu país, descrevendo sua resistência como uma luta pela liberdade “não apenas para a Ucrânia, mas para toda a Europa”; enquanto o general aposentado Philip Breedlove, ex-comandante da Otan, conclamou a aliança a estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia. 

Mas como isso acabaria? No domingo, Putin colocou suas forças nucleares em alerta. A decisão foi resultado de “declarações agressivas” e sanções do Ocidente, afirmou o presidente russo. O Kremlin, que possui o maior arsenal atômico do mundo, não faz uma afirmação similar pelo menos desde 1991, afirmaram analistas. 

Poucos acreditam que estejamos à beira de um conflito nuclear. Mas até mesmo uma possibilidade mínima de que a Rússia use uma pequena arma nuclear “tática" contra a Ucrânia inquieta alguns analistas. “O uso de uma ou mais armas nucleares táticas seria uma tentativa imperdível para Putin romper a união do Ocidente e testar a determinação de alguns países da Otan”, escreveu a especialista em não proliferação Francesca Giovannini no Boletim dos Cientistas Atômicos.

Uma maneira primordial para evitar mais conflito é a diplomacia, como as negociações da segunda-feira entre ucranianos e russos em Belarus. A esperança é que uma saída seja encontrada rapidamente, o que permitiria ao Ocidente levantar sanções e outras restrições à Rússia antes que causem estrago demais.  

Mas até agora, o presidente russo tem se recusado a ceder em relação às suas principais demandas, que incluem o reconhecimento da Crimeia como território russo por parte do governo ucraniano, “desmilitarização e desnazificação” da Ucrânia e neutralidade formal do país. Mesmo que Putin esteja encurralado, pode ser que ele não recue. /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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