Sergey Bobok / AFP
Sergey Bobok / AFP

Na Ucrânia, Kharkiv tornou-se alvo de Putin por abrigar indústria militar; leia análise

Fogo russo tenta neutralizar as fábricas do Grupo Malyshev, principal complexo da indústria ucraniana de equipamentos de Defesa

Roberto Godoy*, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 05h00

Em tempos de paz, a estrada é bonita. As quatro faixas de asfalto que ligam Kharkiv a Plekhaniuska abrigam canteiros de kalina, flor-símbolo da Ucrânia. Agora, as árvores abrigam monstros. Feitos de aço, pesando 44 toneladas, eles lançam fogo sobre a segunda cidade do país desde o segundo dia da invasão russa. Usam a rodovia para chegar ao conjunto do Grupo Malyshev, principal complexo da indústria ucraniana de equipamentos de Defesa.

A missão dos monstros, os tanques russos T-72B3M, é destruir a capacidade instalada de produção. Até a segunda-feira, 6, estavam sendo bem sucedidos. Cada um deles leva um canhão de 125 milímetros capaz de disparar vários tipos de granadas e mais duas metralhadoras, uma 7.62mm, outra 12.7mm. Alguns são equipados com mísseis.

Na semana passada, um deles reduziu a escombros o prédio onde trabalhava o engenheiro de computação Kavo Kovic. Ele viveu no Brasil, no interior do Paraná. Refugiado há três dias “em um lugar da Europa”, quer chegar ao Marrocos. Vai trabalhar com o cunhado. No edifício funcionava um centro de processamento de dados.

Kavo viu toda a operação de dentro de um abrigo. O tanque apareceu de repente, o motor rugindo alto e fazendo muita fumaça. Disparou uma vez. Depois, mais três. E foi embora, comboiado por dois blindados de apoio. Para ele, nem precisava tanto, já que todas as construções estavam comprometidas e só havia sobrado pedra e entulho.

Para a tripulação do T-72B3M foi um trabalho fácil. O tanque de 10,5 metros é feito com duas camadas metálicas. A externa é de aço reforçado, processado 300 vezes. A interna é mais leve, temperada. A torre das armas e todas as superfícies mais sensíveis são cobertas com blindagem reativa – pequenas caixas de explosivos que detonam ao serem atingidas, jogando o choque no sentido contrario.

Neutralizar as fábricas Malyshev faz todo sentido. O grupo tem em catálogo de produtos eletrônicos de emprego em combate, de foguetes e mísseis, passando por munições e armas leves. Ou mesmo tanques pesados, como o formidável T-80 e um programa de modernização do antigo modelo T-64. A Malyshev tem 120 anos e já teve 60 mil empregados, durante a 2.ª Guerra. Ficou um pouco menor na Guerra Fria. Em 2021, tinha 5 mil técnicos.

*É JORNALISTA

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