Nikolay DOYCHINOV / AFP
Nikolay DOYCHINOV / AFP

Guerra na Ucrânia provoca onda de migração mais rápida da Europa em 30 anos

Ao menos 1 milhão de pessoas, a maioria mulheres e crianças, fugiu do país nos dias após a invasão russa

Patrick Kingsley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 08h55

A guerra na Ucrânia desencadeou a migração em massa mais rápida na Europa em pelo menos três décadas, provocando comparações com as guerras dos Bálcãs na década de 1990 e oferecendo ecos do vasto deslocamento populacional ocorrido após a Segunda Guerra Mundial.

Um milhão de refugiados fugiu da Ucrânia, a maioria mulheres e crianças, para países vizinhos, a oeste, nos primeiros dias da invasão pela Rússia, segundo a agência de refugiados das Nações Unidas, que reuniu estatísticas registradas pelas autoridades nacionais de imigração.

“Em apenas sete dias, vimos o êxodo de um milhão de refugiados da Ucrânia para países vizinhos”, tuitou o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, nesta quinta-feira, 3.  “Para milhões de outros, dentro da Ucrânia, é hora das armas caírem para que a assistência humanitária possa alcançar e salvar vidas”, acrescentou.

E esse número não inclui os deslocados na Ucrânia, ou os que fugiram ou receberam ordens de viajar para a Rússia.

Em menos de uma semana, a fuga de ucranianos é pelo menos dez vezes maior que o recorde de pessoas que entraram na Europa durante a crise migratória de 2015, em uma semana, e soma quase o dobro do número de refugiados registrado pela ONU nos primeiros 11 dias da guerra de Kosovo, em 1999.

O movimento histórico de pessoas para o oeste causou filas de até 24 horas nos postos de controle ao longo das fronteiras da Ucrânia com a Polônia, Moldova, Hungria, Eslováquia e Romênia, e provocou uma vasta resposta humanitária por parte de governos e civis. 

Os refugiados foram abrigados em escolas adaptadas, bem como em apartamentos particulares, acampamentos improvisados, centros de conferência, vinícolas de luxo e até mesmo na casa de um legislador moldavo.

"Não sabemos para onde estamos indo", disse Anna Rogachova, 34, uma dona de casa de Odessa, cidade ucraniana no mar Negro, minutos depois de cruzar para Moldova com sua filha de 8 anos na manhã de terça-feira, 1º. "E não sabemos quando voltaremos."

"Deixe o mundo saber", disse Rogachova, apontando para uma mala multicolorida na parte de trás de seu carro. "Deixamos tudo. Colocamos todas as nossas vidas nesta única sacola." Então, quando a neve começou a cair, ela começou a chorar.

Alguns refugiados acreditam que a guerra terminará em breve, permitindo que retornem rapidamente. Rogachova não tinha tanta certeza.

Um deslocamento que demorasse anos apresentaria desafios de longo prazo para a Ucrânia, que enfrentaria uma fuga de cérebros de proporções raras, e para os países anfitriões onde os recursos são limitados e o sentimento anti-imigrante é forte. 

Mas pode significar oportunidades; países do Leste Europeu, como Modova, que sofreram despovoamento durante décadas, podem de repente se verem impulsionados por uma grande população imigrante qualificada.

Autoridades da ONU disseram que a guerra pode produzir até 4 milhões de refugiados. Se a luta se prolongar e os ucranianos continuarem a migrar no ritmo atual, essa pode ser uma estimativa conservadora, disse Philipp Ther, professor de história da Europa Central na Universidade de Viena. "Isso estaria na escala da situação do pós-guerra", disse Ther em entrevista por telefone.

Um grande número de civis em movimento pode restringir a capacidade de manobra dos militares ucranianos, assim como enormes fluxos de refugiados atrapalharam os exércitos no final da Segunda Guerra Mundial, disse ele.

A extensão da migração nesta semana foi tamanha que bloqueios secundários ocorreram em cruzamentos muito além das fronteiras da Ucrânia, inclusive entre Moldova e Romênia, 110 km a oeste da Ucrânia, enquanto alguns ucranianos tentavam chegar a amigos e familiares baseados na Europa Central e além.

De certa forma, a crise não foi surpresa. Em Moldova, o governo planejava há meses um influxo repentino, disse a ministra do Interior, Ana Revenco, em entrevista por telefone. Mas a escala da crise foi chocante: na noite de segunda-feira, 28, 70 mil pessoas —mais que o dobro das projeções do governo— tinham entrado em Moldova, país de apenas 2,6 milhões de habitantes e um dos mais pobres da Europa.

Os fluxos incluem quase nenhum homem entre 18 e 60 anos, que são impedidos pelo governo de Kiev de deixar a Ucrânia, a menos que tenham uma condição médica que restrinja sua capacidade de lutar.

"Em termos de intensidade", disse Revenco, "provavelmente era algo para o qual ninguém estava preparado."

Perdidas nas grandes narrativas estavam as pequenas e tristes histórias dos indivíduos. Muitos ficaram em choque —não apenas pela guerra em si, mas também pela rapidez com que foram arrancados de sua vida normal.

Quando a guerra estourou na quinta-feira, 24, Rogachova tinha acabado de voltar de uma competição de patinação artística em Kharkiv, onde sua filha Maria, 8, ficou em primeiro lugar.

Uma estudante do ensino médio de 17 anos acabara de comemorar seu aniversário em Odessa. Um cantor de 34 anos tinha acabado de voltar da Rússia para a Ucrânia, descartando os rumores sobre guerra. Na manhã de terça, os três estavam sob a neve em Moldova, sem saber quando ou se retornariam.

A cantora, Julia Kondratieva, planejava avançar mais para oeste, temendo que a guerra se espalhasse para Moldova. "Não é uma boa ideia ficar", ela disse. "Talvez haja luta aqui."

Partindo com tanta pressa, muitos esqueceram ou abandonaram seus pertences mais valiosos. Além de roupas, comida e documentos essenciais, Rogachova havia embalado apenas os patins de sua filha.

Como é comum no início das migrações em massa, os primeiros a chegar eram muitas vezes os que têm dinheiro e meios para se mover rapidamente. Na passagem de fronteira de Palanca, e, na terça-feira, 1º, os carros que saíam da Ucrânia incluíam 4x4 e sedãs de fabricação alemã. Em uma vinícola e resort nas proximidades, a maioria dos hóspedes era de ucranianos, esperando para ver se a guerra diminuiria antes de decidir se continuariam em fuga.

Mas também havia muitos sem essas opções. Atravessando a fronteira coberta de neve, havia mães empurrando carrinhos, uma estudante segurando seus livros, uma mulher carregando um saco de papel higiênico e outra com um cachorrinho.

Alguns decidiram partir apenas algumas horas antes, após um aumento nos ataques aéreos em torno de Odessa, antes tranquila. Na noite anterior à partida para Moldova, Rogachova se reuniu com sua filha, Maria, e sua mãe, Viktoria Tkatchenko —todas falantes nativas do idioma russo. "Nunca, jamais esqueça que você é ucraniana", disse Tkatchenko à neta. "Falaremos ucraniano em casa", a criança havia prometido. Mas agora não estava claro onde era a casa.

Rogachova e sua filha estavam indo para a Alemanha para ficar com amigos de amigos. Sua mãe estava indo para Chisinau, capital de Moldova, para ficar com uma tia. E de pé, na neve, Rogachova estava novamente chorando.

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