AP Photo/Emilio Morenatti
AP Photo/Emilio Morenatti

Guerra na Ucrânia: Civis preparam trincheiras e fuzis para defender Kiev de ataque russo

Civis se unem a militares ucranianos e são treinados com fuzis e armas antitanque para defender cidade de possível invasão do Kremlin

Sudarsan Raghavan, Siobhán O'Grady, Whitney Shefte e Kostiantyn Khudov, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 16h00

KIEV - Ao longo de uma estrada que flui para o norte da capital da Ucrânia, ladeada por empresas e prédios de apartamentos altos, os combatentes ucranianos não estavam se arriscando. Os russos estavam a menos de uma hora de carro dali. Na noite de segunda-feira, a resistência ucraniana - uma mistura de soldados e voluntários - cavou trincheiras profundas e ergueu  barricadas com pneus de caminhão gigantes cobertos de areia. Em um amplo cruzamento, eles posicionaram várias metralhadoras, incluindo uma arma pesada Dushka da era soviética, foguetes antitanque de ombro e uma arma antiaérea com seus canos apontados para o céu, entre outros arsenais para conter um possível ataque.

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Um veículo blindado com um canhão estava coberto por uma lona de camuflagem verde. E do lado de fora de um prédio, eles estavam fazendo coquetéis molotov aos montes. "Vamos dar muitos presentes aos russos", prometeu Yurii Sirotiuk, 45, um jornalista local que virou gerrilheiro, com um fuzil AK-47 pendurado no ombro.

Aqui, as forças ucranianas ese preparavam para o pior cenário, aqui, impulsionadas pela profunda desconfiança dos russos e pelo desejo de proteger sua pátria. Esta rodovia que se estende pelo distrito de Obolon, ao norte da cidade, é uma das principais rotas pelas quais os russos poderiam atacar a capital e tomar o Palácio do Governo. 

A segunda linha de defesa da capital, como é chamada pelos ucranianos, permitiu a cidadãos comuns enfrentar a agressão russa. Mas também prenunciava um violento conflito urbano, com a perspectiva de lutas em cada rua e táticas de guerrilha e milhares de civis presos no fogo cruzado.

"Este é o caminho mais curto para Kiev", disse Oleg, de 53 anos, comandante das forças do exército ucraniano no cruzamento, que se recusou a dar seu sobrenome por razões de segurança. “Temos armas para defesa e, claro, para contra-atacar, inclusive as que recebemos dos Estados Unidos. Obrigado!"

Auxílio militar americano

Ele estava se referindo aos mísseis antitanque Javelin que chegaram recentemente como parte de um pacote de segurança de US$ 200 milhões enviado por Washington para reforçar a capacidade da Ucrânia de combater as forças militares superiores da Rússia. Os mísseis não eram visíveis no cruzamento.

Uma arma antiaérea foi encravada em uma posição militar ucraniana perto de prédios residenciais no distrito de Obolon, em Kiev. Escavadeiras cavavam mais trincheiras no chão. Combatentes armados camuflados ficaram de sentinela em um viaduto próximo.

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No início da invasão, os russos haviam entrado em Obolon, chegando a quase dez quilômetros do centro da cidade de Kiev. Mas as forças ucranianas os repeliram em combates ferozes que, em algumas áreas, deixaram tanques e veículos blindados russos queimados e destruídos, segundo autoridades de segurança ucranianas e relatos da mídia.

Oleg disse que os russos estavam posicionados na segunda-feira ao longo da rodovia logo depois de Vishorod, uma cidade satélite a cerca de 19 quilômetros do centro de Kiev. Comandantes militares ucranianos e funcionários do governo dizem que os russos enviaram sabotadores – infiltrados que entraram na capital para semear o caos.

Sabotadores russos infiltrados

O Reverendo Viktor Mileyko, pastor de uma igreja ortodoxa ucraniana nas proximidades, disse que testemunhou um confronto entre unidades de defesa ucranianas e homens que ele pensava serem agentes russos na frente de sua igreja no domingo. “Os pistoleiros dispararam contra os prédios de apartamentos”, disse ele, balançando a cabeça. O relato não pôde ser confirmado de forma independente. Mas ficou claro que as tensões e a ansiedade permaneceram altas ao longo da rodovia na segunda-feira.

Às 17h um sedã cinza parou em um posto de controle e um único tiro foi disparado. As forças de segurança prenderam um homem vestido de preto e o arrastaram para fora da rua e para uma área arborizada. “Nós capturamos alguém!” as tropas gritaram para Oleg. O comandante interrompeu uma entrevista com o Washington Post para ordenar que seus soldados ajudassem. Não ficou claro o que o homem tinha feito.

Do outro lado da rua estava o filho de 17 anos de Yurii Sirotiuk, Sviatoslav. Ele manuseia armas desde os 8 anos em um acampamento de escoteiros, disse ele, desde a revolução da Ucrânia em 2014, que derrubou o presidente apoiado pela Rússia, Viktor Yanukovych. Agora Sviatoslav está treinando outros recrutas em como usar uma arma. “A partir de 2014, eu sabia que teria que lutar em algum momento”, disse ele.

Baixo e forte, com uma pequena trança marrom pendurada no boné de inverno verde do exército, o estudante de arqueologia tirou uma folga da escola para se juntar ao pai nas Forças de Defesa territorial. Sua mãe, avó e irmão de 13 anos se refugiaram fora da cidade. Ele disse que vai lutar até que os russos sejam expulsos do país. “Não tenho nenhum medo em mim”, disse ele. “Quero lutar pela independência e liberdade da Ucrânia”.

 

Voluntários contra os russos

Quatro dias antes, Volodmir Nazrenko era um empresário, dirigindo uma empresa de informações e dados na capital. Agora, o homem de 30 anos estava escondido em uma base de operações recém-criada para as defesas territoriais de Kiev.

Segurando seu rifle nos degraus do acampamento improvisado, Nazrenko disse que lutou contra separatistas apoiados pela Rússia na região leste do Donbass. Agora ele estava encarregado de ajudar a treinar recrutas em táticas de defesa, ao mesmo tempo em que ajudava a rastrear os movimentos russos. “É muito provável que eles alvejem mais civis”, disse ele. “Meu trabalho é evitar isso.”

Outros voluntários entraram e saíram do prédio com armas. Do outro lado, outros estavam enchendo um carrinho de compras com garrafas de vidro. Atrás da base, uma equipe os transformava em coquetéis molotov.

Novos recrutas

Membros das unidades de defesa territorial da Ucrânia receberam instruções em uma de suas bases de comando. Novos recrutas fizeram fila para um líder que enrolou fita adesiva amarela em cada um de seus braços direitos – doutrinando-os oficialmente como aliados na luta contra os russos.“Glória à Ucrânia!” os recém-chegados gritaram em uníssono.

Eles incluíam Vitalii Belinski, 25, que se juntou aos esforços para fazer coquetéis molotov, enchendo garrafas com espuma plástica e combustível e colocando um pano no topo como fusível.

Belinski normalmente trabalha em publicidade. Ele tem alguma experiência em conflitos, mas disse que queria deixar os combates mais intensos para os soldados mais experientes. Ele oferecia seus serviços durante o dia, construindo barricadas e agora coquetéis molotov.

“Decidi que minha habilidade não é suficiente para defender o país com uma arma”, disse ele. “Quero ajudar sozinho como posso, então vim para cá.”

No porão da igreja de Mileiko, cerca de uma dúzia de civis – a maioria mulheres e meninas – estavam ao redor de uma longa mesa, enchendo bolsos de massa com batata e temperos para servir às tropas próximas. Eles cantaram canções folclóricas ucranianas, e riram.

Eles pressionaram cuidadosamente pilhas de massa em vareniki, um prato tradicional ucraniano. Maria Mileiko, 18, filha do pastor, disse esperar que a comida dê força às forças locais. É simples fazer o vareniki, muito recheados e fáceis de transportar, disse ela. Ela começou a cozinhar para as tropas na segunda-feira.

“Estamos ajudando nossos soldados, estamos ajudando nosso povo”, disse ela. “Na verdade, estamos cansados de ficar em casa e não fazer nada. Eu apenas sinto que alguém precisa de mim… que estou ajudando alguém.”

Se pudesse, disse ela, estaria na linha de frente ao lado deles. Mas seus pais recusaram. “Eles estão realmente com medo, eles estão com medo por eu ser uma garota e que seja muito perigoso para mim”, disse ela. “Eu realmente gostaria de poder fazer mais, mas agora eu faço o que posso. O que quer que meus pais me deixem.”

Civis em fuga

Muitos membros de sua congregação fugiram da cidade, assim como os moradores dos condomínios vizinhos. “Ontem à noite, fui à rua e as luzes estavam acesas apenas em 30% dos apartamentos”, disse ele.

Uma linha de veículos blindados com bandeiras ucranianas atravessou o cruzamento fortificado. Oleg olhou para o aglomerado de prédios residenciais, que abrigava milhares. “Todo mundo que queria ser retirado foi”, concluiu.

 

 

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