Guerra no Iraque é catástrofe para a União Européia

É uma Europa contundida, meio rachada, à beira de uma crise de nervos, que se reúne, numa conferência de cúpula , amanhã e depois. Na hora de fazer as contas, o balanço do pesadelo diplomático destas últimas semanas é uma catástrofe. Uma coisa da qual ninguém se pode vangloriar.Com certeza, um homem como Jacques Chirac ganhou uma "estatura" que lhe fazia uma falta cruel. Ele está no ponto máximo de sua popularidade na França, onde tanto a "direita" quanto a "esquerda" o aclamam unanimemente. Mas, por trás desta fachada brilhante e feliz, a França sente o mesmo espanto que todos os outros países europeus: a União Européia dos Quinze é hoje semelhante a uma velha porcelana em cacos.A coisa é tão evidente que os diplomatas insistiram para que a reunião de cúpula dos "Quinze" durasse pouquíssimo tempo, fosse apenas um encontro-relâmpago. Eles estão angustiados com a idéia de que Tony Blair e Jacques Chirac possam manter uma áspera discussão: Blair lançando unicamente sobre Chirac a responsabilidade pela enorme derrota diplomática e política que ele acaba de sofrer, e Chirac, mais glorioso do que nunca e extremamente exaltado, corra o risco de responder de forma ríspida ao líder inglês.Mas, na realidade, a disputa entre França e Inglaterra (Chirac/Blair) é apenas uma minúscula parte dos estragos que a União Européia acaba de sofrer. A União é uma "desunião". A Europa está cortada em duas: de um lado, França, Alemanha, Bélgica, Áustria, Grécia, Suécia... De outro, Inglaterra, Espanha, Portugal.Entre os dois campos, os prudentes: a Itália, de Berlusconi, inicialmente pró-americana, recuou depois das manifestações monumentais contra a guerra em Roma ou em Milão.E depois, em direção ao leste, todos os países que devem entrar na União Européia em 2004, os ex-"satélites" da União Soviética - Polônia, etc. Estes países optaram em massa pelo campo norte-americano.Fascinados pelo modelo americano, por sua opulência econômica, por sua cultura, esses Estados que sofreram durante muito tempo sob a influência soviética, estão impacientes para se integrarem à sociedade liberal e rica dos Estados Unidos. Muito claramente, entre os Estados Unidos e a União Européia, eles escolheram os Estados Unidos. Aos seus olhos, a União Européia é apenas uma passarela para o Ocidente, mas o objetivo supremo é a América.Nestas semanas de crise, estes países encontraram um protetor e um líder poderoso no próprio seio da União Européia, na pessoa de Tony Blair. De forma muito estranha, verificamos no decorrer desta crise, a exatidão das profecias do general De Gaulle: em sua época, De Gaulle se opôs asperamente à entrada da Inglaterra na União Européia. Ele estava convencido de que a Inglaterra estaria sempre às ordens dos Estados Unidos e de que Londres teria apenas um objetivo: dissolver a União Européia e transformar o espaço europeu numa "vasta zona de livre comércio", na qual os Estados Unidos entrariam plenamente.Isso é mais ou menos o que acontece hoje em dia, com uma circunstância agravante: nas antigas "democracias populares" que se preparam para entrar na UE, a Inglaterra conta agora com "suplentes". E assim, antes mesmo de começar, a guerra do Iraque tem este efeito perverso: abalar a União Européia. O noticiário até 18/3/2003Veja o especial :

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