Guerra no Iraque termina sem um saldo conclusivo

EUA depuseram um ditador e instauraram uma democracia rudimentar no país, mas o resultado veio com grande sacrifício humano e econômico e parece frágil e incompleto

Peter Baker / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2010 | 00h00

No momento em que as últimas unidades de combate americanas deixavam o Iraque, câmeras de TV captaram a exultação de um soldado finalmente a caminho de casa. "Vencemos!", ele gritava. "Acabou! América, nós trouxemos a democracia para o Iraque!" O que naturalmente suscita uma pergunta intrigante e provocativa: Vencemos?

Após sete anos, depois de todo sangue derramado, de todas as bombas e conflitos sectários, de todo terror e tormento, será que os Estados Unidos realmente venceram a guerra no Iraque? O soldado estava certo no sentido de que os EUA depuseram um ditador e trouxeram a democracia ao Iraque - uma democracia rudimentar, ainda em processo, e tão disfuncional que ainda precisa formar um governo quase seis meses após uma eleição, mas ainda assim uma democracia. E, com toda certeza, parece mais uma vitória do que parecia apenas três anos atrás, nas profundezas da devastação antes do reforço das tropas americanas e do levante sunita contra a Al-Qaeda no Iraque.

Mas não esperem marinheiros beijando enfermeiras na Times Square ou paradas com papel picado nas ruas de Washington. Seja qual for o progresso alcançado, ele veio com grande sacrifício e parece, no mínimo, frágil e incompleto. Obama descreve seu objetivo como "encerramento responsável desta guerra".

"Nós nem ganhamos nem perdemos", disse Lee H. Hamilton, o ex-congressista democrata de Indiana que foi copresidente do Grupo de Estudo do Iraque que em 2006 recomendou a retirada quase total das tropas de combate americanas até 2008.

"O melhor que pode ser dito é que, a um custo enorme, nós lhes demos a chance de criar um país estável." Fazer uma avaliação final seria prematuro. Mesmo depois de hoje, quando Obama declarar o fim da missão de combate dos EUA, ainda haverá quase 50 mil soldados para dar consultoria e assistência aos iraquianos e realizar operações de contraterrorismo antes de deixar o país no fim de 2011. Uma série de ataques na semana passada demonstrou que os radicais ainda podem causar danos, ainda que não tantos quanto antes.

Mesmo assim, o papel americano na guerra persiste há algum tempo com soldados estacionados principalmente fora das cidades durante o último ano e enfrentando cada vez menos combates diretos enquanto forças iraquiana assumem a frente. Até sexta-feira, 46 membros das forças militares americanas haviam morrido no Iraque em 2010, segundo o site icasualties.org, uma fração dos 904 que morreram no auge da violência em 2007.

A situação estava tão ruim naquela época que até o presidente George W. Bush reconheceu: "Não estamos vencendo, não estamos perdendo." O senador Harry Reid, de Nevada, líder da maioria democrata, foi além, declarando: "Esta guerra está perdida."

Ao deixar a presidência, o otimismo de Bush havia voltado e ele declarou que as forças iraquianas eram cada vez mais capazes de "vencer a luta". Hoje, Reid não retira sua avaliação, mas dá crédito aos soldados. "O senador Reid acredita que nossas tropas de combate fizeram um grande trabalho", disse seu porta-voz, Jim Manley. "Mas ele e muitos outros acreditavam em 2007, e ainda acreditam, que o desfecho final da guerra não será decidido pelas tropas de combate americanas. O futuro do Iraque será decidido pelo povo iraquiano."

James M. Dubik, um general da reserva do Exército que comandou o treinamento de tropas iraquianas, disse que as questões-chave são agora a construção da governança e da economia. "A diminuição dos combates não significa que a guerra acabou", disse. "A guerra acaba, no meu ponto de vista, não quando os confrontos tenham terminado, mas quando os acordos diplomáticos, econômicos e de segurança acertados são aplicados."

E para os que sofreram perdas profundas, como os parentes dos 4.400 americanos ou os muito mais iraquianos que morreram, a noção de vitória ou derrota pode parecer remota. "Bem, antes de tudo, minha família perdeu muito", disse Cindy Sheehan, que se tornou possivelmente a mais famosa ativista antiguerra do país depois que seu filho morreu no Iraque. "Tivemos um de nossos membros queridos, Casey, assassinado pelo império americano no Iraque." No seu entendimento, "os únicos vencedores foram as empresas Halliburton, KBR, CACI, Xe, Unocal, BP, Standard Oil, Boeing" e outras corporações que lucraram com a guerra.

Muitos americanos continuam inseguros sobre a guerra no Iraque. Numa pesquisa CBS News da semana passada, 57% dos americanos disseram que a guerra ia bem, comparados com 22% que achavam o mesmo em julho de 2007. Entre os que acreditam nisso agora, 26% deram mais crédito ao governo Bush, que ordenou o reforço das tropas em 2007, 20% deram crédito à administração Obama, que ordenou a retirada de mais de 90 mil soldados, e 33 % deram crédito a ambos. Mas 59% disseram que os EUA não fizeram a coisa certa ao entrar em guerra no Iraque e 72% disseram que a guerra não valeu a perda de vidas, a mais alta porcentagem desde a invasão, em março de 2003.

As repercussões geopolíticas maiores da guerra ainda estão em curso. Ela drenou a credibilidade americana, principalmente depois que as informações da inteligência sobre armas de destruição em massa mostraram-se falsas e após o escândalo dos abusos na prisão de Abu Ghraib.

Muitos argumentam que o Irã ficou fortalecido em consequência da guerra, o que lhe permitiu estender sua influência ao Iraque, onde os xiitas e não os sunitas dominam agora a vida política. E embora a violência tenha diminuído, ela não desapareceu. A diferença é que o governo a considera abaixo de um limiar em que pode ser manejada pelos iraquianos sem colocar em risco o Estado iraquiano.

Um dos que desde o início viram claramente o que ocorreria no Iraque foi o coronel Alan Baldwin, comandante de inteligência dos Marines no Iraque durante a invasão. Alguns dias antes do início da guerra, ele se reuniu com alguns repórteres e, extraoficialmente, previu que a invasão americana levaria ao que chamou de uma "guerra civil contínua".

Atualmente reformado, ele disse que insistir na guerra durante os momentos mais duros e evitar a derrota impediu um desfecho ainda pior. "Nós vencemos por não perder e continuamos vencendo ao continuarmos engajados", disse ele. "Nós perdemos de algumas maneiras, também, ao não fazê-lo com perfeição. Mas ainda estamos lá." Sobre sua previsão de sete anos atrás, ele disse: "Abrimos uma caixa de Pandora. Muitas coisas ruins estavam saindo dali. Mas, agora também há coisas boas ali. É um espanto termos tido a paciência de chegar aonde chegamos hoje." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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