REUTERS/Carlo Allegri (07/03/2022)
REUTERS/Carlo Allegri (07/03/2022)

Guerra pode ter apontado a história para uma nova direção; leia análise

Guerra na Ucrânia não anula esforço de três presidentes dos EUA em mudar foco para China

Marc Fisher, editor e colunista do The Washington Post

08 de março de 2022 | 05h00

Guerras regionais com frequência têm vocação de espalhar caos para muito além dos campos de batalha; a guerra civil síria, por exemplo, envolveu similarmente os EUA, potências da Europa Ocidental e a Rússia. Mas a guerra na Ucrânia reestruturou quase instantaneamente a dinâmica global de poder, em parte por causa da ameaça nuclear de Vladimir Putin e em parte porque o mundo se tornou muito mais interconectado nos anos recentes - em termos de comércio, tecnologia, mídia e política.

A agressão de Putin colocou em alerta políticos americanos belicosos em relação à China. O líder da minoria na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, republicano na Califórnia, pediu que os EUA aumentem o apoio militar a Taiwan, para que a China não considere a guerra na Ucrânia um sinal de que agora é o momento de agir contra a nação insular.

Talvez a mais acentuada transformação tenha ocorrido na Alemanha, no centro da Europa. O país que iniciou duas guerras mundiais havia conseguido manter os pés firmemente fincados no Ocidente mesmo enquanto mantinha laços próximos com a Rússia. Simultaneamente, a Alemanha dependeu da aliança da Otan para se defender contra a Rússia enquanto foi altamente dependente do petróleo e do gás natural exportados pelos russos.

Agora, em uma súbita mudança ocasionada pela guerra na Ucrânia, Berlim decidiu fornecer armamento letal aos ucranianos, cortar as transações alemãs com bancos da Rússia, suspender a finalização de um gasoduto entre Rússia e Alemanha e elevar seu gasto em defesa a um montante sem precedentes.

Se a proximidade geográfica com o campo de batalha torna esta guerra mais assustadora para os europeus, a distância geográfica pode surtir o efeito oposto sobre as atitudes dos americanos em relação à guerra.

Mesmo uma guerra que reverbera mundialmente é incapaz de estabelecer pontes entre os divididos campos culturais e políticos do país, e ainda resta ver por quanto tempo a opinião pública - agora demonstrando grandes maiorias de americanos e, apoio a uma resposta firme dos EUA à agressão russa - permanecerá unificada. A guerra na Ucrânia não anula os esforços de pelo menos três presidentes americanos consecutivos em mudar o foco da política externa do país para China e Ásia.

Mesmo se o foco americano na Ucrânia se desvanecer com o tempo, o papel da Rússia na Europa e outras regiões não pode ser ignorado. E mesmo que os EUA não dependam da energia russa, grande parte da Europa depende./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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