Guerra psicológica e de espionagem já começou

Enquanto um gigantesco movimento antiguerra ganha força em todo o mundo e as diplomacias da França, da China e da Rússia resistem à proposta dos Estados Unidos e da Inglaterra de iniciar o debate no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma nova resolução autorizando o uso da força para desarmar o regime de Saddam Hussein, em mais de um sentido a guerra contra o Iraque já começou. De acordo com relatos apresentados nos últimos dias pelas grandes redes de televisão e pelos jornais dos EUA, há duas semanas forças norte-americanas bombardeiam quase que diariamente posições da defesa antiáerea iraquiana em vários pontos do país, próximos e distantes daa zonas de exclusão de vôo estabelecidas no norte e no sul, depois da Guerra do Golfo (1991). Paralelamente, pequenos grupos de agentes da CIA e soldados de forças especiais já fazem incursões na região desértica do oeste do Iraque, onde o governo norte-americano acredita que Saddam Hussein escondeu mísseis Scud capazes de atingir Israel e a Jordânia com algum tipo de arma química. Durante a Guerra do Golfo, o Iraque lançou mais de uma dúzia de Scuds com bombas convencionais contra Israel e posições norte-americanas na Arábia Saudita. Segundo a rede CBS, os comandos norte-americanos entram no Iraque de helicóptero, durante a noite e, dependendo da missão, ficam mais de um dia em tarefas de reconhecimento que incluem a escolha de locais para futuras bases de operação e a instalação de equipamentos que lhes permitam continuar a monitorar possíveis movimentos de forças iraquianas depois que retornam às suas bases em países vizinhos, e na crescente frota norte-americana ancorada no Golfo Pérsico. Além disso, boinas verdes à paisana e oficiais da CIA vindos da Turquia já operam quase que abertamente a partir de pequenas bases instaladas no norte do Iraque, território que é parte do país, mas está sob o controle dos curdos que habitam a região. Nos últimos dias, a CBS e a NBC mostraram imagens tomadas à distância de movimentos na região de norte-americanos de roupa esporte, óculos escuros e boné. Está também em curso uma grande operação de guerra psicológica. Uma parte supersecreta da operação tem como alvo o alto comando militar iraquiano. Os norte-americanos fazem chamadas diárias aos telefones celulares dos generais iraquianos e mandam-lhes mensagens eletrônicas em suas contas particulares na Internet, conclamando-os a se rebelarem contra Saddam Hussein e salvar seu país. As mensagens têm também o objetivo de alimentar a insegurança, a desconfiança mútua e o medo entre os oficiais iraquianos, insinuando que eles poderão ter um fim parecido com o de Slobodan Milosevic, o ex-ditador da Sérvia, se não cooperarem. A parte pública da operação de guerra psicológica tem como objetivo preparar e agitar a população iraquiana para o fim do regime de Saddam, e, em breve, o início dos bombardeios e a chegada dos soldados americanos. De acordo com a CBS e a ABC, o plano norte-americano prevê o início da ofensiva na primeira quinzena de março. Este cronograma é consistente com a informação de fontes oficiais, publicada hoje por The Washington Post, segundo a qual o presidente George W. Bush não tomará uma decisão final sobre a guerra antes de duas semanas, o tempo que as forças norte-americanas necessitam para completar o transporte de soldados e equipamentos para o Golfo e concluir os preparativos para a invasão. Isso deixa mais algum tempo para a diplomacia e uma solução negociada, que, embora remota, continua a ser possível se Saddam Hussein for derrubado ou aceitar oferta de exílio. Segundo a CBS, o ataque começará com o lançamento de trezentos a quatrocentos mísseis por dia contra alvos em todo o Iraque, nos primeiros dois ou três dias da guerra. O bombardeio é uma evolução da doutrina Powell, que prevê o uso de força avassaladora.Desenvolvida pelo atual secretário de Estado, Colin Powell, quando ele era comandante do Estado-Maior conjunto, na administração chefiada pelo pai do atual presidente norte-americano, a doutrina foi refinada na National Defense University e rebatizada de "shock and awe", ou seja, "chocar e pasmar". Ela é uma parte central dos planos dos estrategistas do Pentágono de desfechar um ataque fulminante, que provoque um rápido colapso do regime iraquiano e permita a Bush dar a ordem de cessar-fogo e declarar a vitória em um par de semanas. O Pentágono não se pronuncia sobre o número de civis iraquianos que poderá morrer no ataque, a não ser para dizer que os planos da guerra foram traçados com a preocupação, entre outras, de minimizar as baixas na população. Por ora, a operação de guerra psicológica consiste em lançar diariamente milhões de panfletos sobre as cidades iraquianas com três tipos de mensagens à população: alertar que o regime de Saddam cairá em breve; pedir que os civis mantenham distância de instalações e pessoal militar; e fornecer as freqüências de rádio nas quais podem escutar programas produzidos pelas forças americanas que já cercam o Iraque com mais de 170.000 soldados, centenas de tanques e aviões e dezenas de navios armados com mísseis.

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