EFE/Arquivo
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Guerra secreta dos americanos contra Teerã é improdutiva

Israelenses temem que, à medida que o Irã se sinta mais isolado pelas sanções, possa ver a bomba como a única maneira de recuperar sua influência no Oriente Médio

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h03

Análise: David E. Sanger / NYT

O trânsito em Teerã não é fácil, mas está pior, hoje em dia, para os cientistas da Universidade Shahid Beheshti. Há um ano, um deles, Majid Shahriari, estava preso no engarrafamento quando uma motocicleta emparelhou com seu carro e grudou um ímã na sua porta. A explosão, segundos depois, matou o cientista e feriu a mulher.

 

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Do outro lado da cidade, 20 minutos depois, um ataque idêntico quase matou Fereydoon Abbasi, cientista nuclear e ex-membro da Guarda Revolucionária. Por causa de seu treinamento militar, ele percebeu a ação, empurrou a mulher para fora e saltou antes que o carro explodisse.

Além da insegurança das ruas, um estudo recente estima que o vírus de computador Stuxnet retardou o progresso nuclear do Irã em até dois anos. Agora, ele retomou seu curso, mas não há razão para acreditar que os ataques acabaram.

Na Casa Branca, dizem que o complô iraniano para matar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA era apenas a ponta do iceberg. Muitos acreditam que a morte de um diplomata saudita no Paquistão, no início do ano, foi assassinato. Há ainda outras evidências de conspirações da Brigada Al-Quds, elite militar iraniana. Boa parte disso lembra os tempos da Guerra Fria, quando americanos e soviéticos conspiravam uns contra os outros. O Irã, porém, não é uma superpotência e há razões para nos perguntarmos se essa guerra está só retardando o inevitável: a bomba nuclear iraniana.

Por razões compreensíveis, essa é uma questão que ninguém nos EUA responderá publicamente. Admitir que o Irã pode obtê-la é admitir o fracasso. Tanto George W. Bush como Obama garantiram que jamais permitiriam que o país adquirisse armas nucleares. Os israelenses afirmam que se o Irã chegar perto demais, pode atacar suas instalações atômicas. Para muitos membros do governo de Israel, o Irã é uma "ameaça existencial".

Os israelenses temem que, à medida que o Irã se sinta mais isolado pelas sanções, possa ver a bomba como a única maneira de recuperar sua influência no Oriente Médio. O destino de Muamar Kadafi pode acelerar esse impulso. "A Europa teria intervindo na Líbia se Kadafi possuísse armas nucleares?", questionou o ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, na semana passada. Para outros, a ameaça iraniana lembra 1949, quando os soviéticos testaram sua primeira bomba atômica.

No Pentágono, há muito trabalho - não admitido - sobre planos de contenção ao Irã. O grande entrave dessas estratégias é que elas são inúteis se Teerã repassar uma bomba para algum grupo terrorista. No início de seu mandato, Obama ficou chocado ao descobrir que se uma bomba atômica explodisse em alguma cidade americana, em Riad ou Tel-Aviv, demoraria semanas para identificar sua origem e, mesmo assim, com chances de a investigação ser inconclusiva, a ponto de o presidente não poder ordenar uma retaliação.

A relação com o Irã pode se agravar ainda mais esta semana, quando a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) emitir o que pode ser um de seus relatórios mais severos sobre o Irã. O mais provável é que a agência chegue perto de acusá-lo de ter um programa nuclear com fins militares. Boa parte do trabalho nas instalações atômicas iranianas, segundo a AIEA, é feito por cientistas que trabalham em grandes universidades do país. Entre eles está Abbasi.

Ninguém espera que as revelações da ONU provoquem novas ações contra o Irã. Chineses e russos são contra. Embora os EUA tenham tentado estrangular Teerã economicamente, a única medida capaz de impedir os iranianos seria proibir suas exportações de petróleo. No entanto, ninguém quer arriscar uma medida que faça o preço do barril disparar e provocar um confronto no Golfo Pérsico.

A despeito das ameaças, Washington diz que um ataque militar não vale o risco. Os israelenses, porém, afirmam que podem não ter escolha. O problema é que a campanha de assassinatos, ataques virtuais e sabotagem até atrapalharia o programa nuclear iraniano, mas não muito. A campanha intimida os cientistas, mas, agora, o elemento surpresa não existe mais e os iranianos estão enterrando suas usinas mais fundo e enriquecendo mais urânio.

Quando Obama tomou posse, o Irã tinha combustível suficiente para produzir uma única bomba. Hoje, pelo inventário da AIEA, ele pode fabricar quatro. E, como a Brigada Al-Quds já mostrou, sabotagem e assassinato é um jogo de via dupla que pode causar um confronto no momento em que os EUA estão exauridos por outros dois. 

 

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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