'Guerra síria é boa para Putin porque põe petróleo em alta'

Dissidente afirma que não volta a Moscou por temer perseguição e reclama de 'status de democrata' dado a presidente russo

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2013 | 02h04

Garry Kasparov, ex-campeão de xadrez e um dos maiores inimigos do presidente russo, Vladimir Putin, afirma que está sendo obrigado a se exilar para não ser preso em Moscou. Ao receber ontem um prêmio por seu ativismo em defesa da democracia, em Genebra, ele alertou que o governo está forçando uma série de opositores a deixar a Rússia - há uma semana, o economista e opositor Sergei Guriev anunciou sua fuga para a França. Outros líderes, como Alexei Navalny e Sergei Udaltsov, respondem a processos iniciados pelo governo.

Kasparov diz ter passado cinco dias em uma prisão, em 2007, por manifestar contra o governo. Há um ano, voltou a ser preso por dar apoio ao grupo de rock Pussy Riot. Em abril, abandonou a chefia do partido que havia criado, o Solidariedade, aumentando as especulações de que ele deixaria a Rússia. Ontem, em entrevista a um grupo de jornalistas, ele confirmou que não pretende voltar ao país.

Qual a situação do sr. na Rússia após ter sido detido e estar marcado como um opositor?

Até fevereiro, eu ia e vinha de Moscou com certa regularidade. Mas passei a ser investigado e tenho sérias suspeitas de que, se voltar, não poderei mais sair do país. Por enquanto, vou evitar retornar à Rússia. Eu estaria sendo investigado por participar de protestos políticos.

Existe democracia na Rússia?

A Rússia caminhava para isso nos anos 90, ainda que de forma frágil. Mas isso tudo acabou. Estamos prestes a ver a coroação de uma ditadura pessoal. Hoje, a lista de violações de direitos humanos na Rússia é enorme. Há anos que não digo "bom dia" quando acordo em Moscou. Não há bom dia hoje na Rússia. Caminhamos para uma ditadura individualista e estamos vendo os primeiros processos políticos desde Stalin. A Rússia é ainda vista por potências como um país democrático. Isso é uma grande ilusão. Tecnicamente, temos eleições. Mas isso não deve ser confundido com a realidade e a capacidade da população de influenciar na formação de governos.

Como o sr. definiria o governo de Putin?

Há uma constelação de estrelas fascistas em seu governo. A comparação com Mussolini seria até mesmo aceitável. O Estado italiano, nos anos 20 e 30, não usava repressão massiva. Ainda assim, acredito que não podemos descrever o que existe em Moscou com analogias. Há elementos de Mussolini, mas também elementos de feudalismo, com chefes locais jurando lealdade ao imperador. Há também componentes das juntas (militares) latino-americanas. Mas o mais preciso seria uma comparação mesmo com a máfia. Putin pede lealdade em troca de 100% de proteção. Ele precisa de lealdade total para se manter no poder. O regime tem uma natureza criminosa. Ele seria o capo dos capos. Ao contrário de ditadores no passado, ele não usa tanques. Ele usa bancos para influenciar. Ele e seus aliados têm dinheiro em todo o mundo. Como Putin mesmo diz: não existem ex-agentes da KGB. E isso ele está mostrando com muita habilidade. Agora, vale lembrar que, dentro da KGB, ele era quem espionava seus próprios colegas na Alemanha Oriental. Esse é Putin.

Porque é tão difícil para os líderes na Europa entenderem a mentalidade de Putin?

Não é difícil. Eles entendem. Os europeus sabem disso tudo. Mas não podem dizer que sabem. Ha 75 anos, a Europa buscava formas de frear Adolf Hitler. Ainda assim, usava outras palavras quando falava sobre ele, anos antes da 2ª Guerra. As pessoas não querem assumir riscos. É mais fácil vender a história de que está tudo sob controle. Líderes no mundo democrático têm dificuldades em questionar o status quo. E Putin sabe disso. Hoje, a Europa fala de casos de violações na Rússia dizendo que são casos de política doméstica do país e garantindo que não vai se intrometer. Falaram a mesma coisa nos anos 30, na Alemanha. É conveniente. Se eles reconhecerem isso publicamente, precisarão agir e isso seria um grande problema, até mesmo para suas próprias empresas. Putin usa tudo isso em seu favor. Não peço que o Ocidente retire Putin do poder. Mas pelo menos que não lhe dê credenciais de um democrata. Ninguém diz que a China é uma democracia. Mas Putin é recebido como alguém que faz parte da família das democracias. Dessa forma, quando nós, na Rússia, protestamos, escutamos do governo: "Como é que esses radicais nos chamam de ditadura se as democracias nos abraçam?". Por isso, defendo que chamemos as coisas como elas são.

Como o sr. avalia a influência de Putin no conflito na Síria e sua relação com Bashar Assad?

Putin sempre busca líderes parecidos com ele. Temos de pensar que ele só quer ficar no poder. Ele pode ser um dos mais ricos do mundo, mas só sobrevive dentro do Kremlin. Tudo que ele faz é calculado: me aliar a alguém me mantém ou não no poder? Ele precisa de dinheiro para comprar seus aliados e a lealdade das pessoas. Dinheiro, no caso da Rússia, vem de petróleo e gás e, portanto, criar uma situação que mantenha o preço alto é seu objetivo. A guerra síria é boa para Putin porque mantém o preço do petróleo em alta. Ele não apenas apoia alguém que é de sua linha de ditadores, mas também é favorecido com a alta no preço do petróleo.

Em 2014, a Rússia receberá os Jogos Olímpicos em Sochi. O sr. não teme um ataque terrorista na cidade, principalmente de chechenos?

Chechenos? Hoje, eles só atacam em Boston. Vamos ser claros: sempre que Putin foi ameaçado, apareceu misteriosamente um ataque terrorista. Não estou afirmando nada, mas é um padrão. Falando em Sochi, trata-se do maior exemplo da corrupção do regime. A Rússia vai sediar os Jogos em um resort subtropical. Se pegarmos o mapa da Rússia, é difícil encontrar um lugar que não tenha neve no inverno. Putin achou um dos poucos e vai levar para lá os Jogos Olímpicos mais caros da história.

Quanto tempo Putin pode permanecer no poder?

É um jogo que não tem duração previsível. Agora, digo que ditadores podem também cair por pressão de sua população. Se ele acha que isso não pode ocorrer na Rússia, está errado.

De que forma sua atividade como campeão de xadrez e o fato de ser uma personalidade internacional o ajudam na pressão que sofre em Moscou?

O xadrez não ajuda em nada. No xadrez, você tem regras fixas e resultados incertos. Na política russa, você tem regras variadas e um resultado fixo, que é sempre a vitória de Putin. O que eu aprendi do xadrez é que você precisa ser sempre objetivo para analisar uma situação. É o que faço em relação a Putin e à política russa.

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