Guerra tira ano-novo e visitantes de Belém

Berço do cristianismo é afetado por conflito a 100 km, na Faixa de Gaza

Gustavo Chacra, BELÉM, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

As festas de ano-novo de Belém foram canceladas neste ano. Os moradores da cidade palestina, conhecida por ser o lugar onde teria nascido Jesus Cristo, não acham certo celebrar a passagem de ano enquanto outros palestinos morrem na Faixa de Gaza. Alguns moradores com quem o Estado conversou culpam tanto o Hamas quanto Israel pelas mortes. Considerada uma cidade moderada pela grande quantidade de cristãos, Belém depende do turismo para sobreviver e teme que os negócios sejam afetados pelo conflito em Gaza, como ocorreu durante a primeira intifada, no fim dos anos 80, e a segunda, a partir de 2000. A sorte, segundo Adnam Bandak, um cristão que vende suvenires religiosos, é que o confronto desta vez aconteceu após o Natal, que, juntamente com a Páscoa, responde pela maior parte do turismo na região. "Os estrangeiros confundem a Faixa de Gaza com a Cisjordânia (onde se localiza Belém) e acabam decidindo adiar a visita para a Terra Santa em época de instabilidade", disse Bandak, referindo-se a Israel e às áreas palestinas. "Quem está aqui é porque não teve tempo de cancelar a viagem." Mesmo com o clima chuvoso de ontem, havia movimento na Praça da Manjedoura, ainda decorada com enfeites natalinos. Turistas de diversos países faziam fila para entrar na Igreja da Natividade. Padres circulavam em meio a guias de turismo e um dos principais restaurantes da cidade estava com suas mesas cheias.Chegar à cidade não é mais tão complicado como na época da intifada. Um motorista israelense dirigiu o carro com este repórter por um caminho alternativo via Beit Jala, cidade de maioria cristã. Ao contrário de 2004, quando era necessário apresentar o passaporte e responder a perguntas em um posto de controle israelense, desta vez não houve nem a necessidade de falar com soldados. No meio do caminho, um motorista palestino já estava à espera e só foi preciso trocar de veículo. "Não sei se esta facilidade vai durar muitos dias com a crise em Gaza", afirmou o motorista.Cansados do conflito palestino-israelense, os moradores de Belém querem apenas que a cidade possa ser "normal". "Não é certo que seja tão difícil para um palestino sair daqui e ir para Jerusalém. Somos da mesma terra", disse o comerciante que se identificou apenas como Bassam. Os palestinos precisam de autorização para entrar em Israel. "A culpa é do Hamas e de Israel. Os radicais controlam os dois lados e quem sofre é a população", afirmou Bassam. FARTOS DO CONFLITOEm Belém, fotos de mártires não são tão comuns como em outros lugares da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. "O que adiantou a primeira intifada? E a segunda? Agora querem a terceira. O resultado é que Israel vai nos destruir novamente", disse Bandak, o comerciante cristão, mostrando o muro erguido pelos israelenses. "Nos anos 80, era só pegar o carro e dirigir até Jerusalém", completou.Belém é a única das grandes cidades palestinas que ainda é majoritariamente cristã. No entanto, os cristãos estão cada vez mais deixando a cidade, migrando para países como Chile, Honduras e El Salvador, onde tradicionalmente existem grandes comunidades palestinas. Os Estados Unidos e países escandinavos também são algumas das opções dos que estão partindo. Muitos palestinos também possuem o passaporte jordaniano.

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