Guerras de Israel e seus intervalos

Para garantir a pausa, Netanyahu deve apresentar uma iniciativa, ou a legitimidade do país estará em risco

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Durante a maior parte do seu conflito, líderes árabes e israelenses tenderam a oscilar entre apenas duas visões de mundo absolutas: Sou fraco; como posso fazer concessões? Sou forte; por que deveria fazer concessões? Ultimamente, Israel parece ter adotado a segunda destas posições.

Para Israel, a época atual é a melhor e a pior possível. Do ponto de vista global, a campanha para deslegitimar Israel nunca foi mais virulenta, enquanto do ponto de vista local, as praias e restaurantes de Tel-Aviv nunca se mostraram mais lotadas - e cada vez mais os atentados suicidas e foguetes disparados de Gaza parecem ser apenas uma memória distante.

Percebendo este contraste, Ari Shavit, colunista do jornal israelense Haaretz, relatou que em Israel o número de milionários "aumentou 43% entre 2008 e 2009, totalizando 8.419 milionários no país. ... A vida aqui nunca foi tão boa para uma elite tão rica, enquanto o país caminha na beira do abismo".

Mas a sensação de segurança que Israel encontrou teve um custo altíssimo - e não pode ser considerada estável.

Permita-me explicar. A história das relações entre árabes e israelenses desde 1948 pode ser resumida numa frase: "Guerra, intervalo, guerra, intervalo, guerra, intervalo, guerra, intervalo, guerra, intervalo..." A diferença entre Israel, os árabes e os palestinos está no quanto os israelenses foram mais produtivos durante estes intervalos.

Atualmente, Israel vive um novo intervalo porque venceu nos últimos tempos três guerras breves - e então encontrou uma grata surpresa. A primeira guerra foi travada para desmantelar o regime de Yasser Arafat. A segunda foi iniciada pelo Hezbollah no Líbano. A terceira guerra pôs fim aos mísseis disparados pelo Hamas a partir de Gaza.

Essas três guerras distinguem-se pelo uso que Israel fez daquilo que chamo de regra nenhuma. Israel viu-se enfrentando inimigos em Gaza e no Líbano armados com foguetes, mas instalados entre os civis, e Israel escolheu ir atrás deles sem se deixar dissuadir pela perspectiva de um alto número de baixas entre os civis.

A brutalidade da retaliação israelense garantiu o intervalo no conflito com o Hezbollah e o Hamas, e as baixas civis e as imagens mostradas pela TV envolveram o país em acusações de crimes de guerra perante a ONU.

Isso é importante: nos primeiros 30 anos de sua existência - de 1948 a 1973 -, Israel forçou tais intervalos ao travar guerras convencionais contra exércitos convencionais de Estados-nação. Mas agora que os principais inimigos de Israel são atores não-estatais que disparam foguetes enquanto se escondem entre escolas, o custo desses intervalos aumentou substancialmente.

Isso agora inclui o potencial indiciamento de generais e líderes políticos israelenses em tribunais da ONU, acusados de crimes de guerra, e a corrosão das relações com democracias.

É por isso que é vital para Israel usar o seu momento de força, esse intervalo, para fazer exatamente o que o ministro da Defesa Ehud Barak sugeriu ao gabinete outro dia - apresentar uma "iniciativa política ousada e afirmativa" para fazer avançar o processo de paz com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

Se o premiê Binyamin Netanyahu deixasse o cargo amanhã, seu governo, assim como na primeira vez que assumiu a liderança, não seria merecedor de uma nota de rodapé na história de Israel. É verdade que Netanyahu fez um discurso no qual aceitou relutantemente a proposta de dois Estados, mas com o objetivo de tirar Barack Obama de suas costas. A ideia não era fazer com que os palestinos o aceitassem.

Em resumo: Israel precisa garantir a continuidade deste intervalo por meio da diplomacia, o que significa que Netanyahu precisa apresentar alguma iniciativa. Pois, no caso de outra guerra - nas quais o governo israelense seria obrigado a matar um número ainda maior de civis -, a legitimidade de Israel correrá um risco gravíssimo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA E ANALISTA POLÍTICOD

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