Guerrilha desafia arsenal de Assad

Helicópteros comprados para conflitos mais sofisticados sofrem com desgaste e táticas dos combatentes rebeldes

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h03

O Exército sírio está cada vez mais dependente de um equipamento militar inadequado para um prolongado conflito civil contra seu próprio povo. Analistas militares dizem que a Síria enfrenta problemas para manter em funcionamento seu armamento mais sofisticado, que exige mais manutenção.

O desgaste deve se tornar cada vez mais agudo. O governo depende de helicópteros artilhados, uma vez que explosivos improvisados dos rebeldes destruíram estradas usadas por comboios de suprimentos e veículos blindados.

Os analistas dizem que a frota síria de helicópteros de ataque Mi-25 Hind-D, que eram 36 quando o conflito teve início, não será suficiente para conter os rebeldes conforme o número de frentes de combate aumenta: de Alepo a Idlib, no norte, até os subúrbios de Damasco, no sul, passando por Hama e Homs, no centro do país.

Técnicos de manutenção têm lutado para manter as aeronaves voando numa campanha intensa, no forte calor e no ambiente arenoso associado a uma guerra no verão do deserto. Estimativas dão conta de que o governo pode mobilizar apenas metade da frota numa dada situação, e alguns helicópteros tiveram de doar peças sobressalentes, enquanto os suprimentos militares de Bashar Assad dependem da Rússia.

"O Exército vai começar a se esfacelar", disse Jeffrey White, ex-analista da Agência de Informações de Defesa, que agora estuda a Síria para o Instituto de Washington de Política Externa para o Oriente Médio. "A organização não vai ruir de uma vez, mas partes das Forças Armadas serão imobilizadas."

De acordo com o analista, o Exército sírio teve quase 1.100 soldados mortos em julho, e seu efetivo foi reduzido ainda mais pelas deserções de soldados e oficiais.

Suspeita-se da lealdade de muitos comandantes e de unidades. Além disso, meses de combates contínuos estão, sem dúvida, prejudicando muito os tanques e as aeronaves de um Exército que, de acordo com ele, "nunca foi conhecido pelos cuidados com a manutenção".

Reação. A deserção de soldados do governo sírio e o desvio de armamento são também problemas cada vez maiores. Rebeldes em Alepo afirmam ter sob seu controle um total de 14 tanques T-72 e T-55, além de muitas armas de fogo indireto, incluindo peças de artilharia e granadas de morteiros.

"Os tanques são pilotados por nossos membros, que são especialistas em dirigir tanques, pois era o que faziam antes de terem desertado", disse Bashir al-Haji, comandante do Exército Livre da Síria em Alepo.

"Os tanques e as peças de artilharia são importantes na nossa luta, pois nos permitem bombardear o regime de longe." As armas mais potentes nas mãos dos rebeldes e o desgaste dos helicópteros podem ajudar a explicar por que o Exército sírio começou recentemente a usar jatos L-39 em Alepo e nos arredores, a zona urbana mais populosa da Síria.

Outra explicação para o aparecimento de jatos "é o fato de o Exército sírio estar lutando por Alepo sem ter peças de artilharia suficientes", disse Joseph Holliday, ex-funcionário do serviço americano de informações, que cobre o conflito para o Instituto do Estudo da Guerra, de Washington.

Aos olhos de quem a observa, a frota de helicópteros do governo impõe uma presença importante. Fáceis de manobrar e capazes de transportar diferentes tipos de munição, incluindo bombas de queda livre, os helicópteros permitem que o Exército de Assad percorra os ares sobre a zona rural síria, buscando alvos que estejam além do alcance imediato das forças terrestres.

Estratégia. Os comandantes rebeldes costumam dizer que o armamento do qual eles mais precisam são as baterias antiaéreas, capazes de neutralizar aeronaves do governo e helicópteros, em especial.

No entanto, ainda que os rebeldes não tenham mísseis, é quase certo que tais aeronaves serão vistas com uma frequência cada vez menor, dizem especialistas em armamentos que acompanham o conflito na Síria. Um representante do governo americano disse que, em um dado dia, Assad teria à disposição menos de 20 dos 36 helicópteros da frota.

Muitos vídeos mostraram grupos de combatentes portando aquilo que parece ser um número cada vez maior de metralhadoras de 12,7mm, de 14,5mm e de 23mm - calibres que podem ser letais para os helicópteros, mostrando o risco corrido pelas forças de Assad. As próprias armas do ditador vêm sendo cada vez mais empregadas contra as forças que o garantem no poder. / NYT

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