Rodrigo Buendia / AFP
Rodrigo Buendia / AFP

Guia para entender a crise no Equador

País enfrenta a maior onda de protestos dos últimos 12 anos; entenda o que está acontecendo

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2019 | 10h22
Atualizado 08 de outubro de 2019 | 13h23

QUITO - O Equador enfrenta a maior onda de protestos no país dos últimos 12 anos. O clima de tensão é resultado das medidas econômicas adotadas pelo governo do presidente Lenín Moreno por orientação do Fundo Monetário Internacional (FMI), o que fez com que o líder transferisse a sede do governo de Quito para a cidade de Guayaquil.

Além disso, o porta-voz da presidência afirmou que Moreno está disposto a aceitar a mediação das Nações Unidas ou da Igreja Católica para resolver o impasse.

Veja abaixo a sequências de fatos que levaram à explosão social no país e à adoção do estado de exceção.

• Por que os indígenas estão protestando?

A capacidade de protesto dos setores indígenas é importante no Equador. Assim como os sindicatos, eles não estão convencidos da utilidade da eliminação dos subsídios e das reformas trabalhista e tributária de Moreno.

• Como a crise começou?

Moreno cancelou US$ 1,3 bilhão em subsídios ao diesel e à gasolina - que mantinham baixos os preços dos combustíveis - como parte do ajuste fiscal para ter acesso a US$ 4,209 bilhões de créditos com o FMI.  

Quito recorreu aos organismos internacionais diante de um severo déficit fiscal, falta de liquidez e uma dívida externa que subiu 47% no atual mandato presidencial. A dívida soma US$ 39,491 bilhões, o que corresponde a 36,2% do PIB.

Sem os subsídios, que nas últimas quatro décadas drenaram US$ 60 bilhões do Estado, os preços dos combustíveis subiram 123% no país. O galão (3,78 litros) do diesel passou de US$ 1,03 para US$ 2,30, e o da gasolina de US$ 1,85 para US$ 2,40.

• E os protestos?

Os sindicatos de taxistas e motoristas de ônibus reagiram à decisão. Eles convocaram uma greve (que acabou dias depois) e receberam o apoio de estudantes e opositores, o que deflagrou uma onda de protestos violentos no país

Manifestações desta magnitude no Equador não eram vistas desde 2007, quando a esquerda assumiu o poder com Rafael Correa, antecessor e antigo aliado de Moreno. "Os protestos foram contidos no governo Correa por medo de perseguição", disse o analista político Santiago Basabe.

Moreno decretou o estado de exceção, com o qual mobilizou os militares para tentar restabelecer a ordem.

• Como está a situação do país?

Entre 1996 e 2007, o país dolarizado e que depende do petróleo viveu a pior instabilidade política de sua história, com protestos sociais que derrubaram três presidentes, sendo que dois deles tentaram fazer ajustes econômicos.

Legisladores da oposição e manifestantes já exigem a saída de Moreno, que os acusa de "golpistas".

O choque com jovens e indígenas equatorianos mantém a pressão sobre o governo. Os distúrbios refletem uma sensação de alienação de muitos jovens já castigados pela crise econômica.

Os problemas derivam do alto endividamento público herdado do governo, entre 2007 e 2017, de Correa.

"No final o governo sairá fortalecido por fazer a coisa certa. Está em um bom caminho ao sanear a economia", avaliou o consultor Alberto Acosta Burneo.

Moreno quer reduzir o déficit fiscal, que em 2017 foi de US$ 5 bilhões, reduzir o tamanho do Estado e torná-lo mais eficiente, destacou Burneo. 

• Como Moreno tem lidado com a crise?

O presidente tem respondido com firmeza, afirmando que não cederá sobre o fim dos subsídios aos combustíveis e impondo o estado de exceção quando os protestos se tornaram caóticos.

O governo disse que deteve cerca de 350 pessoas por interromper o tráfego, interferir nos serviços públicos ou atacar a polícia.

Foram registrados saques e indícios de escassez de alimentos em alguns mercados do país, aumentando o problema para aqueles que mal sobrevivem.

O governo defende que a crise econômica causada pelos protestos nas ruas custam ao país US$ 70 milhões por dia, uma situação que provavelmente aumenta o descontentamento dos cidadãos.

• Moreno ainda é popular?

Eleito com as bandeiras da esquerda, Moreno governa com baixa popularidade e sem o controle do Legislativo, onde os governistas perderam a maioria após romperem com Correa.

"Posso voltar para casa amanhã e não vou nem despentear o cabelo", disse Moreno, para quem o distanciamento de Correa lhe valeu o apoio de alguns blocos no Parlamento, que deverão ser decisivos sobre as reformas trabalhista e tributária.

Apesar da estabilidade democrática não estar em risco, segundo o sociólogo Fernando Carrión, os "protestos fizeram ressurgir um tipo de mobilização de grande violência política". "As pessoas estão desesperadas com o que vai acontecer com a inflação, com a possível elevação dos preços dos produtos de primeira necessidade, e reagem contra esta situação."

• Moreno corre risco de ser deposto?

Apesar da incerteza política e dos crescentes rumores sobre o presidente, alguns analistas acreditam que não há um risco imediato de Moreno ser deposto ou obrigado a renunciar. 

A oposição se divide entre os que querem fugir do legado de Correa e os ferrenhos defensores do ex-presidente, cujo mandato foi marcado por acusações de corrupção.

• Há algum precedente para a crise atual?

O país andino já lidou com situações similares que desafiaram sua estabilidade no passado. A última vez foi em 2005, quando o então presidente Lucio Gutiérrez, um militar aposentado, renunciou após vários dias de protestos - que também contaram com a participação de setores indígenas.

O Exército aprovou sua renúncia depois uma crescente oposição a algumas de suas medidas, como a destituição de juízes importantes.

Gutiérrez, que foi acusado de tendências autoritárias, se viu sucedido por seu vice-presidente, Alfredo Palacio. Mais tarde, ao disputar as eleições, Gutiérrez foi derrotado por Correa. / AFP e AP

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