AP Photo/Evan Vucci
AP Photo/Evan Vucci

Guia para entender a polêmica entre Trump, a família Biden e a Ucrânia

Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 11h06

WASHINGTON - Depois de admitir no fim de semana que pediu para o novo governo da Ucrânia investigar Joe Biden - um dos principais democratas na corrida presidencial de 2020 - o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta mudar o foco da mais recente polêmica que o envolve na política americana.

Para isso, tanto o republicano quanto seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, e outros aliados passaram a divulgar que o verdadeiro problema nesta história seria uma possível atividade corrupta envolvendo Hunter Biden, filho do político democrata.

Para Entender

Filho de Joe Biden muda rumos de eleição americana

Ao acusar Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia dados sobre negócios de seu filho, democrata precisará explicar tema incômodo
 

Leia abaixo tudo o que sabemos e o que não sabemos sobre o envolvimento do ex-vice-presidente e de seu filho na Ucrânia.

- O que levou à atual polêmica?

Na semana passada, a imprensa americana divulgou que um funcionário de inteligência do governo fez uma denúncia anônima sobre Trump. Essa fonte reportou a seus superiores que o presidente teria discutido detalhes sigilosos com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski

Segundo o Wall Street Journal, Trump pediu oito vezes a Zelenski no telefonema que os ucranianos investigassem a atuação do filho de Biden na diretoria de uma empresa de gás e ajudassem Giuliani na investigação sobre supostas irregularidades de Hunter Biden na companhia. 

Trump disse que não houve nada de inapropriado no telefonema, mas admitiu ter citado Biden nas conversas.

- Como ela pode afetar Trump?

Após a denúncia anônima do funcionário da inteligência dos EUA, o Conselho Nacional de Inteligência deveria ter notificado a Câmara, controlada pelos democratas, e o Senado, controlado pelos republicanos, sobre o caso, o que não ocorreu. 

Parlamentares de oposição dizem que o diretor interino do conselho, Joseph Maguire, se recusou a compartilhar detalhes da suposta transgressão para proteger Trump. Maguire será ouvido pela Comissão de Inteligência da Câmara nesta semana.

Além disso, democratas já estavam investigando esse telefonema para determinar se Trump e Giuliani estavam ou não pressionando o governo ucraniano a ajudar na campanha republicana de 2020.

- Joe Biden fez alguma coisa errada?

A questão é saber se Biden usou seu cargo de vice-presidente dos EUA (exercido entre 2009 e 2017) para ajudar uma empresa ucraniana do setor energético para qual seu filho trabalhou ao pressionar pela demissão de um promotor - cujo gabinete supervisionou uma investigação sobre o oligarca que era dono da empresa.

De acordo com reportagem do New York Times, não há evidencias de que o ex-presidente americano tenha tentado ajudar intencionalmente seu filho Hunter ao se posicionar a favor da demissão do promotor.

Na verdade, ex-assessores de Biden disseram que ele nunca fez nada para impedir outros esforços de investigação contra o oligarca Mykola Zlochevski - incluindo ações de outros funcionários do governo Obama para que os EUA apoiassem as investigações criminais das autoridades ucranianas e britânicas, e possivelmente uma investigação nos EUA, contra a empresa de energia Burisma Holdings e seu proprietário por possível lavagem de dinheiro e abuso de função.

- Quais são as evidências citadas por Trump?

O presidente americano tem sido vago sobre os detalhes de suas alegações, com exceção de um ponto: ele e seus aliados alegam que Biden ameaçou reter cerca de US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos dos Estados Unidos se os líderes da Ucrânia não demitissem o promotor. 

No fim de semana, a campanha de Trump divulgou vídeos de Biden relembrando a ameaça contra a Ucrânia: "Eu disse: 'estamos indo embora em seis horas'.

"Se o promotor não for demitido, vocês não receberão o dinheiro", afirmou Biden durante um evento de 2018 patrocinado pelo Conselho de Relações Exteriores.

O procurador-geral da Ucrânia, Viktor Shokin, foi retirado do cargo pelo Parlamento ucraniano. Sua demissão fora solicitada não apenas por Biden e outros membros do governo Obama, mas por outros governos ocidentais e credores internacionais. 

Isso porque Shokin foi repetidamente acusado de ignorar casos de corrupção em seu escritório e entre a elite política ucraniana e foi criticado por não tornar públicos esses casos.

- Hunter Biden fez alguma coisa errada?

Hunter Biden não foi acusado de irregularidades relacionadas ao seu trabalho para Burisma, que pagou até US$ 50mil por mês em alguns meses por seu serviço no conselho de administração.

Ele disse em comunicado este ano que nunca discutiu seu trabalho para a Burisma com seu pai.

Mas ele foi criticado por grupos de fiscalização de governos nos EUA e na Ucrânia pelo que caracterizam como a percepção de um conflito de interesses e por permitir o uso do nome de sua família para melhorar a reputação da Burisma e de Zlochevski.

Desde 2012, Zlochevskyienfrenta uma longa lista de acusações de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, incluindo a supervisão de concessões de lucrativas licenças de gás para suas empresas enquanto era chefe do Ministério ucraniano de Ecologia e Recursos Naturais sob o governo do ex-presidente Viktor Yanukovych, alinhado com a Rússia.

Quando Hunter Biden ingressou no conselho da Burisma, ele não tinha experiência na Ucrânia. Ele tem um histórico profissional que inclui vários cargos que se cruzam com a carreira política do pai.

Quando Joe Biden representou Delaware no Senado, Hunter trabalhou para uma empresa emissora de cartão de crédito no Estado. Ele também trabalhou no Departamento de Comércio no governo do presidente Bill Clinton e como lobista de várias universidades, associações e empresas.

- O esforço de Joe Biden contra o promotor ajudaram a Burisma?

Os aliados de Zlochevski ficaram aliviados com a demissão de Shokin, cujo afastamento foi apoiado pelo então vice-presidente americano, segundo pessoas com conhecimento sobre o caso ouvidas pelo NYT.

Shokin não investigava profundamente Zlochevski ou a Burisma. Mas os aliados do oligarca dizem que o promotor ameaça levar o caso mais a sério para pedir subornos a Zlochevski e sua equipe.

Shokin foi substituído por um promotor chamado Yuri Lutsenko, a quem o ex-vice-presidente Joe Biden se referiu como "alguém que era íntegro na época".

Os representantes de Zlochevski também ficaram satisfeitos com a escolha, concluindo que poderiam trabalhar com Lutsenko para resolver as questões legais envolvendo o oligarca, disseram fontes.

Apesar de Lutsenko inicialmente adotar uma linha dura contra a Burisma, a empresa anunciou dez meses depois de o promotor assumir o cargo que a investigação contra ela havia sido encerrada completamente e que não havia mais alegações criminais pendentes contra Zlochevski e suas empresas.

O oligarca, que havia fugido do país em meio a investigações de promotores anteriores, foi removido por um tribunal ucraniano da "lista de procurados" e retornou ao país.

Este ano, no entanto, o gabinete de Lutsenko decidiu reiniciar a investigação sobre Zlochevski. O NYT informou que o promotor havia se comunicado com o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que se tornou uma das principais vozes na acusação de corrupção contra os Biden. 

Aliados do ex-vice-presidente dos EUA e de Zlochevski acusam Lutsenko e Giuliani de tentar politizar uma questão já resolvida. O novo governo da Ucrânia substituiu Lutsenko no mês passado. / NYT e W. POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.