Henry Nicholls / Reuters
Manifestantes anti-Brexit levantam bandeiras em frente ao Parlamento britânico Henry Nicholls / Reuters

Guia para entender as eleições no Reino Unido

Com visões muito diferentes sobre o futuro do Reino Unido e várias legendas menores também desempenhando papéis decisivos, saiba mais sobre esse processo eleitoral britânico

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2019 | 06h00
Atualizado 12 de dezembro de 2019 | 09h03

LONDRES - Pela segunda vez desde que aprovaram em plebiscito a saída da União Europeia, e com o país ainda dividido com o resultado, os britânicos voltarão às urnas nesta quinta-feira, 12. Com o futuro do status britânico na Europa ainda indefinido após anos de disputas, o Brexit ocupa o topo da agenda, com o primeiro-ministro Boris Johnson pedindo na campanha que ele seja finalmente concluído.

No entanto, o líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, tem colocado as preocupações com a saúde no centro de seu discurso se projetando como o defensor do reverenciado Sistema de Saúde britânico. Com visões muito diferentes sobre o futuro do Reino Unido e várias legendas menores também desempenhando papeis decisivos, saiba mais sobre esse processo eleitoral britânico:

Como funciona a votação?

Eleitores escolherão um representante de seu distrito no Parlamento. No total, 650 deputados - um de cada distrito - serão escolhidos para ocupar um lugar na Câmara dos Comuns. Qualquer cidadão britânico, da Commonwealth ou da Irlanda, maior de 18 anos, vivendo em território britânico, pode se registrar para votar (o prazo se encerrou no dia 26 de novembro). As eleições são realizadas a cada quatro ou cinco anos, mas o Parlamento antecipá-las - esta será a terceira eleição desde 2015. As sessões de votação serão abertas às 7 horas (4 horas em Brasília) e fechadas às 22 horas (19 horas em Brasília), com os resultados de pesquisas de boca de urna divulgados quase que imediatamente depois. A contagem dos votos é manual.

Como é escolhido o primeiro-ministro?

Se um partido ganhar mais da metade das cadeiras, formará governo e seu líder se tornará o primeiro-ministro. Por décadas, esses governos majoritários foram o resultado mais comum. Só que isso aconteceu apenas uma vez nas três últimas eleições. Nesse caso, o maior partido tem a primeira chance de reunir maioria parlamentar e formar uma coalizão, o que pode ser feito com um ou mais partidos menores. Ou pode-se formar um governo minoritário e buscar um acordo mais flexível para apoio de partidos menores em votações críticas. Quando os resultados são conhecidos - e um partido sai vencedor - o líder visita o Palácio de Buckingham para pedir permissão à rainha para formar um novo governo e se tornar primeiro-ministro.

Como é a distribuição dos votos?

Os britânicos não votam diretamente no primeiro-ministro, mas em um deputado para representar seu distrito. Nos sistemas proporcionais usados em vários países europeus, os assentos são distribuídos de acordo com a parcela que cada partido recebe no voto geral. Nas eleições britânicas, cada distrito elege um deputado. Por isso, os votos para um partido em todo o país não se traduzen necessariamente em cadeiras: o que importa é distritos um partido conquista. 

Para Entender

As eleições no Reino Unido e o Brexit

Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

O que aconteceu da última vez?

Quando a primeira-ministra, Theresa May, antecipou as eleições, em 2017, as pesquisas deram a seu Partido Conservador uma vantagem de 20 pontos porcentuais sobre a oposição trabalhista. May decidiu expandir a estreita maioria parlamentar que seu partido havia conquistado em 2015, para garantir uma saída tranquila da União Europeia. Mas as coisas não saíram como planejadas. Ela sofreu um revés humilhante e passou a ter de confiar nos 10 votos do Partido Unionista Democrático para manter o controle de um governo minoritário. O Partido Trabalhista viu seu apoio crescer, conquistando 32 cadeiras, impulsionadas por um aumento na participação dos jovens.

O que pode acontecer desta vez?

O Partido Conservador lidera as pesquisas nacionais e parece ter um apoio consolidado. Na terça-feira, o instituto YouGov indicou que os conservadores estavam caminhando para obter uma maioria de 28 cadeiras. Analistas, porém, alertam que as previsões são arriscadas: 11 cadeiras foram decididas por menos de 100 votos na última eleição e outras dezenas por algumas centenas de votos. Uma pequena mudança pode virar a eleição.

O que o voto tático?

Na votação tática, as pessoas votam para um candidato que normalmente não apoiariam para impedir a vitória de outro candidato. Esse foi um dos principais tópicos de discussão na campanha eleitoral, porque o sistema britânico é um quebra-cabeça para os eleitores que veem o Brexit como a questão mais importante. Aqueles que defendem a UE estão divididos. Grupos pró-permanência tentaram unir os eleitores em torno de candidatos pró-Europa em cada distrito eleitoral. Já os eleitores pró-Brexit parecem ter se unido em torno dos conservadores. O partido mais radical do Brexit decidiu não se candidatar em muitos locais para evitar dividir os votos. 

 

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    Líderes impopulares disputam eleição decisiva para futuro do Reino Unido

    Conservador Boris Johnson e trabalhista Jeremy Corbyn têm alta rejeição entre eleitores; entre as decisões que deverão ser tomadas, estão o Brexit, onda separatista da Escócia e projeto de unificação irlandês

    Redação, O Estado de S.Paulo

    12 de dezembro de 2019 | 05h00

    LONDRES - Os britânicos elegem nesta quinta-feira, 12, o premiê que definirá os termos de saída do Reino Unido da União Europeia. A escolha está entre dois líderes impopulares que ocupam os extremos do espectro político: o atual primeiro-ministro conservador, Boris Johnson, e o trabalhista Jeremy Corbyn. O vencedor terá pela frente o desafio de conter a onda separatista na Escócia e evitar que a Irlanda do Norte se renda ao projeto de unificação irlandês.

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    Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

    Corbyn é um ex-sindicalista, septuagenário, que culpa a União Europeia pelas desigualdades sociais e promete combater medidas de austeridade com políticas distributivas radicais. Defensor da causa palestina, não consegue se livrar da aura antissemita criada dentro do Partido Trabalhista. De acordo com pesquisa do instituto YouGov, publicada na semana passada, apenas 22% dos britânicos aprovam sua atuação como líder da oposição – 69% desaprovam.

    Já o atual premiê é um falastrão. Conhecido por contar mentiras de vários calibres, ele foi demitido do jornal The Times por ter inventado uma citação em um artigo sobre o rei Eduardo II. Durante a campanha pelo Brexit, em 2016, ele circulou pelo país com um ônibus que trazia pintada a afirmação de que o Reino Unido enviava à UE 350 milhões de libras (quase R$ 2 bilhões) por semana – mesmo após o governo britânico ter negado a cifra. 

    Mesmo assim, Johnson é favorito na eleição de hoje, ainda que não seja um político admirado. Segundo a mesma sondagem do YouGov, 38% dos britânicos aprovam o premiê, enquanto 51% desaprovam. Mas, diante do confronto direto, o conservador leva vantagem sobre Corbyn, que ganha a competição de impopularidade.

    Segundo a média de pesquisas compiladas pela BBC, o Partido Conservador, de Johnson, terá cerca de 43% dos votos. Os trabalhistas, chefiados por Corbyn, ficariam com aproximadamente 33%. Os liberal-democratas aparecem em um distante terceiro lugar, com 13%.

    Apesar da variação dos números, Johnson esteve à frente em todas as pesquisas, desde o início da campanha. Da mesma forma, as últimas sondagens mostram que a vantagem do premiê vem diminuindo. O maior problema, no entanto, é traduzir a vantagem de votos em número de deputados, já que a eleição britânica é indireta, decidida no Parlamento.

    Na prática, são 650 pequenas eleições em cada um dos distritos eleitorais, de onde saem os deputados eleitos para a Câmara dos Comuns. Isso explica a estimativa de que Johnson obtenha entre 311 e 367 cadeiras, o que poderia dar ao Partido Conservador a maioria – mesmo conquistando menos da metade dos votos. 

    Desafios

    Além de conduzir o país pela turbulência do Brexit, o próximo premiê enfrentará ainda o desafio de manter o Reino Unido intacto. O Brexit foi aprovado em plebiscito por 52% a 48%, em 2016. Na Escócia, porém, o resultado foi outro: 62% votaram para permanecer na UE e apenas 38% optaram por sair. Os escoceses, portanto, teriam de deixar o bloco contra sua vontade, o que aumentou as chances de um novo referendo sobre a independência.

    Em 2014, os escoceses realizaram um plebiscito sobre o assunto. Os políticos ingleses e o governo de Londres mergulharam na campanha contra a independência, argumentando que, com a separação, a Escócia deixaria também a UE e não seria economicamente viável. 

    No fim, a maioria dos escoceses aceitou a alegação e preferiu manter a união britânica – 55% a 45%. Por isso, dois anos depois, quando os ingleses votaram em favor do Brexit, muitos na Escócia se sentiram enganados e passaram a defender um novo plebiscito. 

    Nicola Sturgeon, primeira-ministra e líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP), que deve eleger hoje mais de 50 deputados, vem insistindo que uma nova votação seja marcada em 2020 – uma catástrofe econômica, causada pelo Brexit, poderia mudar facilmente o resultado. “A independência é a única forma de evitar que Londres imponha uma política aos escoceses”, disse. 

    Outro problema é a Irlanda do Norte. Após 30 anos de violência entre católicos e protestantes, que deixou mais de 3 mil mortos, o território foi finalmente pacificado pelo Acordo de Sexta-Feira Santa, de 1998, pelo qual os britânicos concordaram em desmontar os postos de checagem na fronteira. 

    Sob as regras do mercado comum europeu, as economias das duas Irlandas se tornaram dependentes e integradas. Hoje, ninguém mais aceita a volta da fronteira física entre os dois territórios, o que significa, na prática, uma Irlanda unificada. 

    Para a nova geração, que não viveu o período turbulento entre 1968 e 1998, a divisão já não faz tanto sentido. Em setembro, uma pesquisa do instituto Deltapoll apontou que 52% dos norte-irlandeses – a maioria jovens – apoiam a unificação, enquanto 39% ainda querem ser parte do Reino Unido. / CÉLIA FROUFE, COM AGÊNCIAS

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    The Economist: O pesadelo britânico antes do Natal

    Dividido pelo Brexit, Reino Unido enfrenta eleição com candidatos ruins e que deve separar o país ainda mais

    The Economist, O Estado de S.Paulo

    12 de dezembro de 2019 | 07h00

    Os eleitores britânicos foram convocados para comparecer às urnas – e as opções apresentadas a eles são cada vez piores. Trabalhistas e conservadores, que já foram partidos de centro-esquerda e de direita, distanciaram-se cada vez mais nas últimas três eleições. Nesta semana, os eleitores enfrentam sua escolha mais difícil até agora, entre o conservador Boris Johnson, que promete um Brexit duro, e o trabalhista Jeremy Corbyn, que planeja “reescrever as regras da economia” ao longo de linhas socialistas. 

    Johnson dirige o novo governo mais impopular já registrado. Corbyn é o líder mais impopular da oposição. Na sexta-feira, os britânicos acordarão tendo um desses horrores no comando. Nas últimas eleições, lamentávamos a tendência ao extremismo. Os manifestos de hoje vão muito além. 

    Em 2017, os trabalhistas estavam à esquerda das principais correntes europeias. Hoje, eles tomariam 10% do patrimônio das grandes empresas, para ser mantido em fundos que são pagos principalmente para o Tesouro, e não para os trabalhadores que deveriam ser os beneficiários. 

    Eles defendem a introdução gradual de uma semana de quatro dias, supostamente sem perda de pagamento. A lista de indústrias a serem nacionalizadas só cresce. As patentes de medicamentos poderão ser forçosamente licenciadas. O projeto de lei para um rápido aumento nos gastos recairia sobre os ricos e as empresas, cujo ônus tributário passaria do mais baixo no G-7 para o mais elevado. É uma tentativa de lidar com os problemas do século 21 recorrendo a políticas que fracassaram no século 20.

    Corbyn também nada fez para atenuar as preocupações com sua visão mais ampla de mundo. Crítico da política externa do Ocidente e simpatizante dos ditadores do Irã e da Venezuela, ele culpou a Otan pela invasão russa da Ucrânia, em 2014.

    No ano passado, sugeriu que amostras de um agente nervoso usado para envenenar um ex-espião russo em Salisbury deveriam ser enviadas a Moscou, para que Vladimir Putin pudesse ver se eram dele. Sob um tal premiê, o Reino Unido não poderia confiar em informações recebidas da inteligência americana. 

    Corbyn também não lidou com o antissemitismo que se enraizou no trabalhismo. Alguns dos que optaram por permanecer na UE podem engolir isso como o preço de um segundo referendo sobre o Brexit, que Corbyn finalmente prometeu. Há muito defendemos esse voto. Mas os planos de Corbyn e suas opiniões falidas significam que The Economist não pode apoiar os trabalhistas.

    Os conservadores também ficaram mais temerosos desde 2017. Johnson livrou-se do acordo do Brexit negociado por Theresa May e fechou um pior ainda. O público está tão cansado de todo o fiasco que sua promessa de “conseguir cumprir o Brexit” ganha votos. Mas ele não faria isso. Depois que o Reino Unido deixar a UE, no início de 2020, começaria o trabalho duro de negociar um acordo comercial. Johnson promete fazer isso até o final de 2020 ou sair sem nenhum.

    Portanto, a ideia de nenhum acordo ainda está sobre a mesa – e é uma verdadeira perspectiva, já que conseguir um acordo em menos de um ano parece difícil. As melhores estimativas sugerem que sair sem acordo tornaria as rendas médias 8% menores do que teriam sido após dez anos.

    O Brexit não é o único problema de Johnson. Ele expurgou os conservadores moderados e acelerou a mudança de um partido econômica e socialmente liberal para um economicamente intervencionista e culturalmente conservador. Em busca de assentos para a classe trabalhadora, que votou pela saída da UE no norte da Inglaterra, ele propôs auxílio estatal extra, compras governamentais e um plano superficial de impostos e gastos que não fazem sentido. 

    Para Entender

    As eleições no Reino Unido e o Brexit

    Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

    Além disso, ele absorveu a lição fatal da campanha do Brexit: que não há punição por mentir ou violar as regras. Ele prometeu não suspender o Parlamento, depois o fez; prometeu não estender as negociações do Brexit, então o fez. Essa atitude reprovável corrói a confiança na democracia. Como Corbyn, ele tornou normal o preconceito, ao exibir o seu e fracassando em investigá-lo no seu partido (os dois são considerados racistas por 30% dos eleitores). Por todas essas razões, The Economist não pode apoiar os conservadores.

    Isso deixa uma baixa expectativa para os liberal-democratas. Eles também se tornaram mais radicais desde que os apoiamos, em 2017. Sob um novo líder, Jo Swinson, eles foram além da ideia de um segundo referendo para uma promessa irresponsável de reverter o Brexit unilateralmente. Foi um tiro que saiu pela culatra.

    Mas sua abordagem econômica – um aumento moderado nos gastos, pago por aumentos amplos na base dos impostos – é a mais sensata dos principais partidos e é a única a ser honesta quanto ao custo de uma sociedade em fase de envelhecimento. Quanto à mudança climática e política social, eles encontram o melhor equilíbrio entre ambição e realismo. Eles são a única opção para quem rejeita tanto o Brexit duro dos conservadores e os planos de uma esquerda rígida dos trabalhistas.

    Mas eles não vão ganhar. Então, por que apoiá-los? A razão prática é conter quem quer que acabe no governo. Os eleitores temem que o apoio aos liberal-democratas seja jogado nas mãos de Corbyn, mas nosso modelo sugere que os votos e os assentos seriam distribuídos de maneira equilibrada por ambas as partes. Corbyn está se preparando para governar com o Partido Nacional Escocês, que apoiaria a maior parte de seu programa em troca de outro referendo sobre independência. Ter mais liberal-democratas colocaria seus planos em cheque. 

    Da mesma forma, eles controlariam Johnson. Alguns conservadores se apegam à esperança de que, se ele vencer por uma grande maioria, abandonará o ato populista e redescobrirá seus instintos liberais. Estão iludidos. O oposto é verdadeiro: quanto mais significativa a maioria dos conservadores, mais drástica será a transformação do partido.

    A razão de princípios morais mais elevados é que os liberais estão mais próximos do liberalismo em que The Economist foi fundada. Uma forte demonstração dos liberais sinalizaria aos eleitores que favorecem mercados abertos e uma sociedade liberal que o centro está vivo. Não há resultado bom para esse pesadelo de eleição. Mas, se o centro se mantiver, ainda há esperança para o Reino Unido. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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    Reino Unido tem campanha com elementos modernos e tradicionais

    Sem cartazes e outdoors pelas cidades, partidos recorrem a cartas e todo tipo de material impresso enviados aos eleitores; por outro lado, no mundo digital, propagandas são direcionadas por algoritmos

    Célia Froufe, Correspondente / Londres

    11 de dezembro de 2019 | 17h36

    LONDRES - Um turista mais desatento que chegue a Londres na vésperas da eleição pode até não se dar conta de que os eleitores vão às urnas em breve. Não há cartazes pelas cidades, outdoors e os poucos pontos de panfletagem se resumem a saídas de escolas, supermercados e igrejas.

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    As eleições no Reino Unido e o Brexit

    Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

    Os britânicos costumam ser discretos em suas votações, que, no entanto, não saem dos jornais e TV. Em 2017, o mesmo ambiente foi verificado quando a então primeira-ministra, Theresa May, também antecipou as eleições gerais para tentar ganhar musculatura para negociar o Brexit, mas acabou perdendo a maioria do Parlamento.

    O curioso é que o forte das campanhas se dá em duas frentes totalmente opostas: na modernidade da propaganda direcionada pelas redes sociais por meio de algoritmos e do tradicional correio britânico, um dos orgulhos do país. 

    Quem mora no Reino Unido não é obrigado a votar, mas corre o risco de pagar multa se não se inscrever em sua região como apto para tal. Os eleitores recebem nas portas vazadas para postagens de suas casas todo tipo de material eleitoral. São papéis e mais papéis, que na maior parte dos casos vai parar no lixo.

    Para além da questão ecológica, a maior preocupação reside na outra ponta da campanha, a mais moderna. Estão ainda muito latentes as denúncias contra a Cambridge Analytica, empresa de análise de dados suspeita de manipular informações e que trabalhou para grupos pró-Brexit na campanha do plebiscito de 2016. 

    Brittany Kaiser, ex-diretora de desenvolvimento de negócios da empresa, disse que a corrente Leave.EU usou conjuntos de dados criados pela Cambridge Analytica para direcionar eleitores com mensagens políticas online para potencialmente influenciar a opinião pública. A empresa esteve no centro de um escândalo mundial sobre a captura ilegal de informações digitais de milhões de usuários do Facebook sem o consentimento deles e como esses dados foram potencialmente usados para publicidade política direcionada.

    Há sempre um temor de que isso possa acontecer novamente em terras britânicas e, recentemente, os sites e computadores do Partido Trabalhista, da oposição ao governo, foram hackeados, inspirando ainda mais cuidado sobre o caso.

    Do lado do Partido Conservador, a sofisticação da campanha eletrônica tem um mentor, Dominic Cummings. Figura de bastidores pouco conhecida dos britânicos até pouco tempo atrás, o conselheiro especial do primeiro-ministro Boris Johnson, é tido como "a ideia" por trás do Brexit. 

    Até acesso irrestrito ao Palácio de Westminster ele conquistou, apesar do enfrentamento, em vão, de alguns deputados. Se atribui ao todo poderoso conselheiro também a estratégia de suspender o Parlamento por cinco semanas no meio do semestre, assim como a de tirar líderes do Partido Conservador de seus cargos e a própria antecipação das eleições.

    Até o slogan da campanha do premiê "Get Brexit done" (Vamos entregar o Brexit, em tradução livre) tem sido atribuída ao seu guru. 

    Para o professor de política europeia e relações exteriores do King's College, Anand Menon, a frase tem um toque poderoso e é fácil de ser memorizada. "Mais do que isso, cumpre dois propósitos eleitorais óbvios: evita discussões políticas sobre o que 'entregar o Brexit' pode realmente envolver. E, mais praticamente, fornece uma frase que pode ser memorizada e repetida ad nauseum em anúncios online", analisou.

    Essa segmentação de eleitores do Reino Unido nas mídias sociais antes da votação do Brexit faz parte de um modelo que passou a ser usado amplamente por grupos políticos em todo o mundo ocidental. As gigantes de tecnologia prometem ser mais duras com esses acessos agora.

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    No Reino Unido, resultado será conhecido numa sexta-feira 13

    Eleições gerais foram antecipadas por Boris Johnson na tentativa de renovar o Parlamento e conseguir votos para aprovar o Brexit

    Celia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

    11 de dezembro de 2019 | 17h15

    LONDRES - Os britânicos vão às urnas nesta quinta-feira, 12, mas o resultado da eleição deverá ser conhecido na madrugada de sexta-feira, 13, uma data que os mais supersticiosos enxergam como um mau presságio do que está por vir para o Reino Unido.

    As eleições gerais foram antecipadas pelo primeiro-ministro Boris Johnson, que é apontado como o preferido até o momento, o que leva o pleito a ocorrer durante o inverno e a poucos dias do Natal. Esta é justamente uma das preocupações dos Trabalhistas, que costumam contar com os votos dos mais jovens e temem a baixa presença nas urnas.

    Está muito marcado entre os que não gostariam de uma separação do Reino Unido da União Europeia (UE), o chamado Brexit, a abstenção justamente dessa ala do eleitorado, que não acreditava que o divórcio poderia ser a escolha da maioria do país em junho de 2016. Com isso, o resultado do plebiscito pela retirada foi definido por uma margem pequena, de quase 52% contra pouco mais de 48%.

    Desde que a campanha teve início, a reportagem do Estadão/Broadcast perguntou a alguns eleitores de diferentes idades e de vários pontos da Inglaterra suas intenções de voto. Nas conversas informais, a maioria disse que não gostaria de ver Johnson continuando a morar em Downing Street, local da residência oficial do primeiro-ministro britânico.

    A questão, segundo muitos deles, é que a opção da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, tampouco agrada. E, na dúvida, é melhor não mexer em time que, de certa forma, está ganhando. Resumidamente, os eleitores poderão escolher nesse pleito se querem um Brexit a partir de janeiro ou voltarem a ser consultados sobre o divórcio com a União Europeia.

    BoJo, como é chamado pela imprensa local, promete entregar o divórcio até o fim do mês que vem (“get Brexit done”). Já caso o principal líder da oposição vença, a população sabe que a novela da separação tende a se estender ainda mais porque há a possibilidade de um novo plebiscito e, mesmo que alguns não desejem no fundo se separar da União Europeia, o fato é que a população local está farta das incertezas pelas quais passa nos últimos três anos e meio. É nisso que se fiou a campanha dos conservadores.

    Para a cientista política especializada em política europeia e comportamento eleitoral da London School of Economics, Sara Hobolt, a falta de uma posição mais firme de Corbyn tem sido a responsável pelo seu baixo desempenho. "Em termos políticos, um líder tem que assumir uma posição", afirmou.

    Para Entender

    As eleições no Reino Unido e o Brexit

    Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

    Essa indefinição tem levado regiões inteiras, que historicamente votam nos trabalhistas, a indicarem que estão dispostas a mudar de lado no pleito atual. No Twitter, o cientista político Matthew Goodwin resumiu a migração de votos que deve ser vista no dia 12: "O que quer que aconteça na quinta-feira, os conservadores estão caminhando para um de seus resultados mais fortes entre a classe trabalhadora desde os dias de Thatcher".

    A novela continua

    Mesmo que a escolha por manter Johnson no cargo possa significar alguma celeridade maior no processo, o Brexit não sairá tão cedo do noticiário local e nem das suspensões de decisões cruciais para o país, sobre investimentos e transferência de empresas para outras capitais europeias.

    Isso porque é preciso todo um trabalho de negociação entre as partes, mais uma vez do zero, para ver como se darão as relações comerciais com o bloco. Bruxelas já alertou que se o Reino Unido começar a sair das regras financeiras, por exemplo, a sua indústria local, que é hoje o centro europeu, perderá imediatamente o direito de negociar com clientes e instituições além do Canal da Mancha.

    O premiê disse que vai aproveitar o prazo de um ano que terá para negociar com o bloco para formar novas parcerias com outros países. Os trabalhistas calculam que, mesmo com os Estados Unidos, um aliado de longa data do Reino Unido, um acordo comercial dificilmente seria colocado em prática em menos de sete anos. Hoje, ele apresentou um discurso mais radical. Pediu votos para que o poder seja devolvido para que o Reino Unido possa "rasgar o livro de regras da UE e escrever um novo para nós".

    A busca pela identidade local e soberania é uma arma poderosa. Neste últimos anos, foram vários os sustos dos britânicos. Houve quem estocasse alimentos com medo de não haver abastecimento por causa do Brexit, por exemplo. O Eurostar, trem que liga Londres a Paris, também já passou por dias de caos, quando funcionários da alfândega francesa decidiram fazer uma operação padrão simulando como seria o processo após o divórcio.

    O que os dois principais partidos têm mostrado nesta reta final de campanha é um aumento do radicalismo. A expectativa é que, passada a conquista dos votos, seja qual for o vencedor, o governo seja menos extremista.

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    The Economist: A verdade é a primeira vítima nas eleições do Reino Unido

    Um surto de mentiras propagadas nos círculos políticos vem corroendo a democracia e as chances de eleger alguém que não diz a verdade aumentam

    The Economist, O Estado de S.Paulo

    11 de dezembro de 2019 | 08h00

    Winston Churchill afirmou certa vez que “a verdade em tempo de guerra é tão preciosa que deveria sempre ser acompanhada de uma escolta de mentiras”. Se essa eleição britânica, que ocorre amanhã, é guiada por alguma coisa são as mentiras tão preciosas que precisam ser acompanhadas por uma escolta de novas mentiras.

    Esta eleição repousa na desonestidade: grandes e pequenas mentiras, meias verdades e pseudofatos, distorções, dissimulação e desinformação e embustes digitais em escala industrial. A população está tão desiludida com o processo político que, quando uma pessoa perguntou a Boris Johnson, durante um debate pela TV, se ele valoriza a verdade, o público deu gargalhadas. Johnson é o favorito nesta eleição e deve vencer por uma margem substancial.

    Um jogo popular nos círculos políticos é debater que partido é o mais mentiroso. A resposta é que os tories (conservadores) são provavelmente os piores e os liberal-democratas os menos ruins, embora tenham o hábito preocupante de produzir notícias falsas em jornais locais. Mas o fato é que os dois principais candidatos transformaram a desinformação em uma arte.

    Ambos começam com grandes mentiras – os tories afirmando que conseguirão um Brexit rápido e indolor, e os trabalhistas prometendo que seus gigantescos planos de gastos serão financiados por um punhado de bilionários (que enriqueceram roubando dos pobres). Eles então reforçam essas grandes mentiras com outras pequenas, com os tories afirmando que estão construindo 40 novos hospitais e os trabalhistas insistindo que seus rivais planejam privatizar o serviço de saúde.

    Naturalmente, grandes e pequenas mentiras sempre fizeram parte da política. Anthony Eden contou uma mentira descarada na Câmara dos Comuns em 1956, ao afirmar que Reino Unido e França não entraram em conluio com Israel na invasão do Canal de Suez. Edward Heath plantou as sementes dos atuais problemas do Reino Unido em 1972, quando insistiu que a entrada do país no Mercado Comum não envolveria nenhuma perda de soberania.

    Mas agora há alguma coisa nova acontecendo nesta eleição e não somente em termos do número escabroso de mentiras. Esta é uma campanha da pós-verdade. Os partidos se comportam como se a verdade não tivesse a mínima importância e não se consideram mentirosos. Eles continuam a repetir os mesmos argumentos mentirosos mesmo os que se revelaram falsos. E eles se acusam de disseminar fake news, ao mesmo tempo que as propagam.

    Por que o Reino Unido atravessou a porta da pós-verdade? Parte da culpa é da nova tecnologia. Os exemplos mais atrozes de distorção ocorrem online. Durante o debate de um líder, o Partido Conservador renomeou sua conta no Twitter para Factcheckuk e a usou para produzir e enviar mensagens partidárias disfarçadas de avaliações independentes.

    A internet mudou as regras do jogo político, enfraquecendo o poder dos guardiães da velha mídia (que são regidos pela ética profissional e normas eleitorais) e abrindo o campo de batalha para fanáticos e vigaristas. E permitiu às campanhas tecerem narrativas diferentes para os eleitores pelo país. 

    Parte da culpa é dos dois principais candidatos. Jeremy Corbyn é imune à verdade porque está dominado pela ideologia global sobre os males do capitalismo e do imperialismo e as maravilhas do socialismo e do poder popular. Boris Johnson é indiferente à verdade porque está tomado pela ambição. Ele foi duas vezes demitido por mentir – uma vez pelo Times por causa de uma citação forjada e uma vez por seu partido envolvendo um caso – no entanto, ele chegou ao topo.

    Ele está tão preocupado em ser chamado à responsabilidade por suas várias afirmações que (até agora em contraste com outros líderes do partido) se esquivou de uma entrevista com Andrew Neil, o abalizado entrevistador da BBC. E sua escapada deu uma reviravolta sinistra no caso do seu principal assessor, Dominic Cummings, um ideólogo maquiavélico que propagou a mentira de que o Brexit geraria US$ 460 milhões por semana para o serviço nacional de saúde.

    Tribalismo

    Mas há também uma força mais profunda atuando: o triunfo do tribalismo político. Na era de David Cameron e Tony Blair a política tinha a ver em primeiro lugar com política. Os políticos discutiam em que medida a abertura econômica estimularia o crescimento, ou, depois do colapso financeiro, que nível de austeridade manteria os mercados calmos. Organizações como o Departamento Nacional de Estatísticas se manifestavam com autoridade. Hoje a discussão é mais sobre tribalismo, tanto quanto economia.

    Os tories usam o Brexit para conquistar eleitores, ao passo que os trabalhistas reafirmam sua identidade como partido da classe operária. Os especialistas perderam muito da sua credibilidade entre a população em grande parte porque são vistos em primeiro lugar como membros de uma tribo (a elite cosmopolita de Londres) e não como comentaristas objetivos.

    Mesmo antes de esta eleição começar seu trabalho corrosivo, somente 40% dos eleitores pesquisados pelo Reuters Institute for the Study of Journalism disseram confiar nas notícias. Essa porcentagem é bem menor entre os membros da classe trabalhadora e os eleitores que apoiam o Brexit.

    A combinação dessa epidemia de mentiras e o clima de desconfiança é nociva. Distorce o processo de seleção. E quanto mais eleitores acharem que todos os políticos são mentirosos maior a probabilidade de escolherem um mentiroso para representá-los. Boris Johnson é o político ideal para uma era da pós-verdade, pois ninguém espera que ele vá manter sua palavra. Ele existe num mundo do nós contra eles, um mundo de emoção e não de razão, um mundo em que alegrar as pessoas é mais importante do que deixá-las deprimidas com fatos.

    A democracia liberal depende de pessoas fazendo algo extraordinário, ou seja, escolhendo um grupo de pessoas que representam seus interesses e opiniões no Parlamento. Sem o elemento aglutinador da confiança e da verdade, esse processo extraordinário cedo ou tarde se deteriorará. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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    Três cenários possíveis para as eleições no Reino Unido

    O futuro do Brexit está nas mãos do resultado das eleições, assim como a questão da fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte e a proposta de separatismo da Escócia

    Redação, O Estado de S.Paulo

    12 de dezembro de 2019 | 09h00

    LONDRES - O primeiro-ministro conservador do Reino UnidoBoris Johnson, espera conquistar com as eleições gerais desta quinta-feira, 12, uma maioria no Parlamento que lhe permitirá governar sozinho. Mas sua vantagem nas pesquisas caiu consideravelmente antes de uma votação descrita como incerta.

    Veja os cenários possíveis para o futuro dos britânicos e o andamento do Brexit:

    Para Entender

    As eleições no Reino Unido e o Brexit

    Votação será decisiva para consolidar a saída britânica da União Europeia

    Clara vitória de Johnson: a caminho do Brexit

    Os conservadores conquistam uma maioria absoluta - 326 cadeiras em teoria, um pouco menos na prática - para Boris Johnson, que concentrou sua campanha na promessa de tirar o Reino Unido da União Europeia

    O Parlamento lança antes do Natal o processo de ratificação do acordo do Brexit que negociou com Bruxelas para uma aprovação final em janeiro, permitindo uma saída em 31 de janeiro, após três adiamentos.

    O acordo de retirada estabelece as condições para o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia após 47 anos de casamento tumultuado, em termos de direitos dos cidadãos e cumprimento de compromissos financeiros. Também introduz um período de transição até o final de 2020, prorrogável, e trata o problema da fronteira entre a província britânica da Irlanda do Norte e a República da Irlanda, membro da UE.

    Mas a saga não vai parar por aí. Londres terá até 31 de dezembro de 2020 para negociar seu futuro relacionamento com seu vizinho europeu. Um prazo que parece impossível, pois esse tipo de negociação geralmente leva anos.

    Trabalhistas lideram o Parlamento, mas sem maioria

    Boris Johnson tenta permanecer no comando de um governo minoritário. Ele precisará encontrar aliados para isso, o que promete ser difícil.

    Como demonstrado nos últimos meses, governar com aliados pode levar a bloqueios e reduzir as chances de adoção do Brexit, ressuscitando o temido cenário de um divórcio sem acordo. 

    Após a saída, isso complicaria as difíceis negociações comerciais que se aproximam com a UE.

    Em 2017, Theresa May teve que se associar ao pequeno partido unionista da Irlanda do Norte DUP, que tinha 10 deputados ultraconservadores em Westminster.

    Essa aliança surgiu devido à recusa do DUP em apoiar os acordos de divórcio negociados por Theresa May e Boris Johnson.

    O DUP se opõe às disposições para impedir o retorno de uma fronteira entre a província britânica e a República da Irlanda, membro da UE, após 20 anos de paz que encerrou décadas de violência.

    Trabalhistas assumem o poder

    Se uma maioria absoluta parece fora do alcance do trabalhista Jeremy Corbyn, o líder da oposição conseguiria o cargo de primeiro-ministro se formar uma aliança com os independentistas do Partido Nacional Escocês (SNP na sigla em inglês), contrários ao Brexit.

    Mas, enfrentaria a vontade do SNP de realizar um referendo sobre a independência da Escócia, seis anos depois de uma votação vencida pelo "não".

    A personalidade de Jeremy Corbyn, de esquerda e acusado de permitir o florescimento do antissemitismo em seu partido, torna uma aliança com os eurofóbicos do partido liberal-democrata muito hipotética.

    Se chegar ao poder, o Partido Trabalhista prometeu renegociar o acordo concluído por Boris Johnson e submetê-lo dentro de seis meses após a chegada ao poder a um novo referendo, com outra opção de permanecer na UE.

    Nesta campanha, Corbyn anunciou que permaneceria "neutro" para curar as fraturas de um país dividido por três anos de crise política. Muitos membros da liderança do partido anunciaram que lutariam pela retenção na União Europeia. / AFP

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