Noel Celis / AFP
Noel Celis / AFP

Guia para entender o regime comunista da China

Partido tem se mantido firme no poder há 70 anos; confira sua evolução ao longo do tempo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 08h33

PEQUIM - O Partido Comunista Chinês desafiou as probabilidades e tem se mantido firme no poder há 70 anos, adaptando-se a um mundo em constante mudança e sobrevivendo aos camaradas soviéticos. Confira a evolução dele ao longo do tempo.

Décadas turbulentas

Durante quase três décadas, a China manteve seu estilo próprio do governo: o maoísmo. Sob o regime do fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, o Estado assumiu o controle das indústrias e os estabelecimentos agrícolas e as granjas foram coletivizados.

O Grande Salto à Frente de 1958 - uma reorganização maciça do trabalho para impulsionar a produção agrícola e industrial - acabou matando de fome milhões de pessoas.

Mao lançou em 1966 a Revolução Cultural, um movimento que esmagou seus adversários políticos e também terminou em desastre, em razão dos excessos cometidos pela Guarda Vermelha em todo o país.

Abertura do país

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Dois anos depois da morte de Mao, o Partido Comunista abandonou o maoísmo e colocou em marcha, em 1978, sua política de "abertura e reforma" sob a liderança de Deng Xiaoping

A economia cresceu após uma série de medidas pró-mercado, que permitiram os investimentos externos e o capital privado.

O partido teve um "certo pragmatismo para reconhecer que a sobrevivência do regime depende do desempenho econômico e este requer uma interação com a economia mundial", afirma Sam Crane, professor especializado em política chinesa no Williams College dos Estados Unidos.

Milhões de pessoas saíram da pobreza e o país abriga atualmente centenas de bilionários e empresas gigantescas de internet, como Alibaba e Tencent.

Controle estrito

Neste "socialismo com características chinesas", é possível ver Ferraris nas ruas das grandes cidades e os mais abastados compram em lojas de luxo como Gucci. Mas uma coisa não mudou: o Partido Comunista mantém com firmeza as rédeas da economia.

O presidente chinês, Xi Jinping, deixou claro em uma exposição sobre o 70.º aniversário da fundação do regime que os históricos feitos do país "demonstram por completo que só o Partido Comunista pode liderar a China", segundo a agência oficial Xinhua.

"Células" do partido estão presentes nas companhias privadas e as empresas nas mãos do Estado permanecem como atores principais na economia. Até mesmo o bilionário fundador da Alibaba, Jack Ma, está entre os 90,6 milhões de membros do partido.

O que aconteceria se Karl Marx viajasse no tempo para ver a China de hoje? "Se Marx voltasse, acho que diria que isto não é 'socialista'. Isto quer dizer que a China não está se movendo na direção histórica do 'comunismo', mas se estabeleceu como um 'capitalismo de Estado', porém mais rígido com fortes elementos autoritários", explica Crane.

O pensamento de Mao e Xi

Outra diferença entre a época de Mao e os anos seguintes à sua morte foi o fim do poder unipessoal.

Deng apoiou um sistema de liderança "coletivo" e uma sucessão organizada para depois de sua morte, em 1997. Jiang Zemin foi presidente durante dois mandatos de cinco anos e seu sucessor, Hu Jintao, cumpriu com a nova tradição.

Mas Xi voltou aos velhos tempos para se tornar o líder mais poderoso desde Mao. Como este, Xi se beneficiou do culto à personalidade desenhado por veículos estatais.

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O fundador do país teve o "Pensamento Mao Tsé-tung". O atual líder consagrou na Constituição o "Pensamento Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era".

Mao teve seu "Pequeno Livro Vermelho". Xi tem sua versão do século 21, um aplicativo chamado "Study Xi, Strong Country" (Estude Xi e Fortaleça a Nação, em tradução livre), em seus ensinamentos.

Xi supervisou a linha dura contra a corrupção que castigou mais de 1,5 milhão de membros do partido, uma medida popular entre os cidadãos comuns, mas vista pelos analistas como uma possibilidade de expurgar rivais.

Ele poderia inclusive se perpetuar no poder se renovados os limites do mandato presidencial.

Partido de linha dura 

A abertura da economia não foi acompanhada de reformas políticas. A China tem mais um aniversário este ano, um que o partido garantiu que não será lembrado: o 30.º aniversário da brutal repressão do protesto pró-democracia na Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

O governo inclusive fechou o cerco sobre a sociedade sob o mandato de Xi, detendo ativistas, aumentando a censura na internet e se negando a libertar o dissidente e ganhador do prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo quando sofria de câncer.

Os opositores temem que as autoridades utilizem o desenvolvimento tecnológico da China, como o reconhecimento facial, para ainda vigiar mais os seus cidadãos.

Na região de Xinjiang, no noroeste do país, membros da etnia uigur sofreram o alto custo de enfrentar o governo. Os defensores dos direitos humanos suspeitam que o governo chinês tenha internado em acampamentos de "reeducação" cerca de um milhão de pessoas, principalmente desta minoria e da kazaja, ambas muçulmanas. / AFP

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