Rodrigo Garrido / Reuters
Rodrigo Garrido / Reuters

Guia para entender os confrontos no Chile

Depois de dizer que país 'estava em guerra’ diante das manifestações violentas, presidente Sebastián Piñera acabou com o toque de recolher e anunciou pacote de medidas sociais para diminuir insatisfação social

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 12h10
Atualizado 25 de outubro de 2019 | 14h23

Em apenas alguns dias de manifestações, o Chile viveu episódios de violência que não eram vistos desde que a democracia retornou ao país, após o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Ao menos 19 pessoas morreram, mais de 2 mil foram presas e o próprio presidente, Sebastián Piñera, declarou que o país estava “em guerra”. Veja abaixo o que está acontecendo.

• Como os protestos começaram?

As manifestações foram convocadas inicialmente pelas redes sociais em razão do aumento do preço das passagens de metrô em Santiago. O valor passaria de 800 pesos para 830 pesos (cerca de R$ 4,80). Tamanho reajuste não era visto no país desde 2010. O governo justificou a medida pela alta do preço do petróleo e do dólar, além da modernização do sistema de transporte. Mas os movimentos acabaram sendo ampliados pelo descontentamento da população com questões como saúde, educação, moradia e aposentadorias.

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• Por que o governo decretou estado de emergência?

Com o anúncio da medida de Piñera, diversos protestos tomaram conta de Santiago. As manifestações evoluíram para episódios de violência, incluindo ataques a estações de metrô, saques a lojas e incêndios. A situação levou o presidente a decretar estado de emergência. Inicialmente, ele contemplou apenas as províncias de Santiago e Chacabuco, e as cidades de Puente Alto e San Bernardo. Mas depois foi ampliado para as áreas de Valparaíso, no centro do país, e a província de Concepción, no sul.

• Diante do caos, o que fez Piñera?

Mesmo sob estado de emergência, novos confrontos foram registrados no sábado, 19, entre manifestante e a polícia do Chile, e militares e tanques do Exército foram enviados às ruas da capital para tentar conter a situação. Os movimentos também ocorreram em outras regiões, como Valparaíso e Viña del Mar. Diante da situação, Piñera anunciou a suspensão do aumento das passagens de metrô em Santiago, onde ainda decretou toque de recolher.

• Há mortes?

Mesmo com o decreto de Piñera, os protestos continuaram pelo país. Um supermercado e uma loja de roupas foram saqueados e incendiados. Na ocasião, sete pessoas morreram. Um dos sobreviventes teve 75% do corpo queimado. No dia seguinte, o ministro do Interior, Andrés Chadwick, informou que o número havia subido para 11 mortos, sendo que 10 pessoas morreram queimadas e uma foi baleada por militares.

Mais tarde, um homem que participava de um saque foi atropelado por um veículo das forças armadas ao tentar fugir do local em Talcahuano, disse o chefe do estado de emergência em Concepción, 500 km ao sul de Santiago. Nesta terça-feira, 22, as autoridades informaram que mais duas pessoas morreram baleadas nas cidades de La Serena e Coquimbo. Além disso, outro corpo foi encontrado perto de Curicó - não há detalhes sobre o caso, mas a Promotoria regional acredita que a vítima morreu baleada por um membro do Exército.

Segundo Chadwick, houve 70 “incidentes sérios de violência” somente no domingo, incluindo saques a 40 supermercados e outros pontos comerciais.

• A violência cessou?

Os confrontos voltaram a ocorrer em vários pontos de Santiago e as autoridades decretaram toque de recolher, em meio ao estado de emergência. Até o momento, 1.462 pessoas foram detidas nas manifestações. O centro da capital se tornou um cenário de destruição: semáforos no chão, ônibus queimados, lojas saqueadas e destroços nas ruas.

• Como está a situação nos aeroportos?

No domingo, milhares de pessoas ficaram presas no aeroporto de Santiago após as companhias aéreas anunciarem atrasos e cancelamentos. Os corredores do principal terminal aéreo chileno foram transformados em dormitórios. Sem comida ou água e sem poder sair do local em razão do toque de recolher e da falta de transportes, os passageiros esperavam pacientemente para ver se os itinerários seriam alterados.

• "Fora, militares"

No dia 21, as manifestações recomeçaram aos gritos de "Fora, militares". Quase todas as escolas e universidades da capital suspenderam as aulas. O transporte público seguiu ainda bastante alterado. Longas filas se formaram em postos de gasolina e supermercados.

Piñera convocou uma reunião para o dia seguinte com os partidos políticos, para tentar alcançar um "pacto social".

• Medidas sociais sem efeito

No dia 22, apesar do pedido de "perdão" do presidente e do anúncio de um pacote de medidas sociais – aumento das pensões mais baixas, congelamento das tarifas de eletricidade –, a insatisfação social não diminui. Os principais sindicatos e movimentos sociais do país convocaram uma greve geral.

• Greve geral

No dia 23, primeiro dia de greve, as manifestações continuaram em várias cidades do Chile. Milhares de pessoas ocupam as ruas de Santiago, exigindo o fim das medidas de exceção e que "os militares voltem para o quartel". A multidão também exige respostas para a pior crise social do país em 30 anos.

O movimento é acompanhado pelos poderosos sindicatos das minas de cobre – o país é o principal produtor mundial desta commodity –, do pessoal da saúde e do setor portuário. O governo apelou à reserva militar para apoiar os 20.000 homens já mobilizados nas ruas.

• Fim do toque de recolher

No dia 24, as greves e manifestações continuaram. Piñera anuncia um plano para encerrar o toque de recolher e pôr fim ao estado de emergência.

Desde o início do movimento, 19 pessoas morreram, incluindo uma criança de 4 anos, e 584 ficaram feridas, como resultado dos distúrbios que também levaram a centenas de detenções, de acordo com relatório do Instituto Nacional de Direitos Humanos (NHRI).  / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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