JACK GUEZ / AFP
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Guinada à direita de Netanyahu aprofunda afastamento dos EUA

Após vitória do Likud, Casa Branca critica linguagem polarizadora do premiê, que criticou árabes e prometeu vetar Estado palestino

O Estado de S. Paulo

18 Março 2015 | 17h55

 TEL-AVIV - O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, prometeu ontem formar rapidamente uma coalizão de governo depois de o resultado oficial da eleição parlamentar israelense confirmar a vitória do Likud na votação de terça-feira. A vitória, construída com base numa radicalização do discurso nacionalista do premiê, irritou o governo americano, que criticou as declarações do líder sobre os árabes-israelenses e os palestinos. 

Na reta final da campanha, Netanyahu abandonou seu compromisso com a criação de um Estado palestino - adotado quando chegou ao cargo em 2009 - e prometeu ampliar a construção de assentamentos judaicos em Jerusalém Oriental, pretendida pelos palestinos para a futura capital de seu Estado. No dia da votação, ele disse que a votação “em manada” dos cidadãos árabes do país ameaçava o governo do Likud e exortou seus partidários a votar. 

O cenário mais provável da coalizão negociada por Netanyahu envolve o Likud, partidos ultranacionalistas de direita como o Casa Judaica e o Israel Beitenu e legendas religiosas, como o Shas e o Judaísmo Unido da Torá, além do centrista Kulanu, que mostra pouco interesse na questão palestina e é mais voltado para temas domésticos.

As promessas feitas aos eleitores da ultradireita na reta final do campanha podem acarretar graves consequências diplomáticas para Israel, em um momento em que Netanyahu já vinha se afastando do governo Barack Obama e de alguns países europeus favoráveis a um acordo de paz com os palestinos. Além disso, analistas acreditam que a radicalização do premiê pode levar os palestinos a perseguir a independência por um caminho unilateral.

Críticas. O governo americano mostrou irritação com a guinada à direita de Netanyahu. O porta-voz da Casa Branca Josh Earnest disse estar profundamente preocupado com a linguagem polarizadora do Likud. Segundo ele, os Estados Unidos terão de reavaliar as negociações de paz entre israelenses e palestinos. “Com base nos comentários dele, os Estados Unidos avaliarão uma posição com vistas no futuro”, disse Earnest. 

A porta-voz do Departamento de Estado Jen Psaki afirmou que o secretário John Kerry parabenizou Netanyahu pela vitória, mas disse que a conversa não foi calorosa, nem amistosa. “Muitas são coisas são ditas em campanhas eleitorais. Vamos esperar para ver como serão as políticas do novo governo”, disse. 

Uma das bases da campanha de Netanyahu foi a oposição ao acordo nuclear que vem sendo negociado entre Estados Unidos, as demais potências nucleares e o Irã. O premiê chegou a fazer um discurso no Congresso americano contra o plano de Obama, o que foi mal visto na Casa Branca.

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“Muitas são coisas são ditas em campanhas eleitorais. Vamos esperar para ver como serão as políticas do novo governo”
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Um dos principais assessores de Netanyahu, Dore Gold, disse estar confiante que o relacionamento com os Estados Unidos será reparado num futuro próximo. “Os Estados Unidos e Israel tem tido desacordos muito graves no passado recente, mas geralmente conseguem superar as diferenças”, afirmou. “Acredito que isso acontecerá novamente. Netanyahu sabe exatamente como lidar com essa relação de uma maneira positiva.”

Principal negociador palestino nas conversas que fracassaram no ano passado, o diplomata Saeb Erekat lamentou a vitória de Netanyahu. “É o sucesso da campanha que tem como base os assentamentos, o racismo, o apartheid e a negação dos direitos fundamentais do povo palestino”, disse Erekat.

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, disse por meio de nota que a UE está pronta para trabalhar com o próximo governo israelense em uma relação de interesse mútuo. Ela pediu também que o processo de paz seja relançado em breve. “Esperamos que a posição atual do governo israelense, de retomar as negociações, seja mantida”, declarou. / AP, REUTERS e NYT

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