Guiné proíbe reuniões 'subersivas' e anuncia luto nacional

Decisão foi tomada por líder militar após incidente envolvendo disparos de tropas contra multidão em estádio

Agência Estado e Associated Press,

30 de setembro de 2009 | 12h18

O líder militar da Guiné, o capitão Moussa "Dadis" Camara, proibiu todas as reuniões e manifestações no país e declarou dois dias de luto, com início nesta quarta-feira, 30, depois que tropas abriram fogo contra 50 mil manifestantes pró-democracia durante um evento num estádio no início desta semana.

 

O principal líder opositor afirmou hoje que sua facção não tem planos de realizar novos protestos. O grupo de direitos humanos Human Rights Watch disse que 157 pessoas foram mortas e que mais de 1.200 ficaram feridas, mas o governo admite apenas a morte de 57 e afirma que a maioria foi pisoteada.

 

As bandeiras estavam a meio mastro nas silenciosas ruas da capital na manhã desta quarta-feira. Lojas, escolas e postos de gasolina estavam fechados.

 

"Nossa prioridade é enterrar nossos mortos e cuidar dos feridos", disse o líder opositor Sidya Toure por telefone. "Não temos planos de fazer novas manifestações. Conacri é uma cidade muito pequena, as pessoas estão traumatizadas".

 

Toure, que já ocupou o cargo de primeiro-ministro, foi detido durante os protestos e liberado na terça-feira. Ele disse ter sofrido ferimentos na cabeça e que quando voltou para casa descobriu que ela havia sido saqueada. Sua casa também era utilizada como centro de operações dos partidos de oposição.

 

O capitão Moussa "Dadis" Camara fez um comunicado na televisão estatal na noite de terça-feira culpando a oposição por agir irresponsavelmente na manifestação de segunda-feira e pedindo uma investigação.

 

O protesto realizado no principal estádio de futebol da capital tornou-se sangrento quando a guarda presidencial de Camara abriu fogo contra a multidão de 50 mil pessoas, dispersando manifestantes em pânico e deixando para trás vários mortos. O político opositor Mutarr Diallo disse ter testemunhado soldados estuprarem mulheres com rifles.

 

"Foram os políticos opositores que levaram os filhos e filhas de outras pessoas para a morte, enquanto seus próprios filhos e filhas estão vivendo confortavelmente em outros lugares", disse Camara, referindo-se aos ricos guineanos que enviam seus filhos ao exterior para estudarem.

 

Ele disse que o governo vai indenizar as famílias dos mortos e dos feridos. Camara também advertiu líderes religiosos, políticos e os meios de comunicação para que não incitem a violência. "Eu conclamo os imãs, líderes políticos, grupos da a sociedade civil e os meios de comunicação em massa que evitem fazer ou dizer coisas que possam mergulhar este país na anarquia", disse ele.

 

Toure diz ter visto vários membros da junta militar da Guiné no estádio durante as manifestações, dentre elas o sobrinho de Camara e seu principal auxiliar. "Estas são as pessoas que são próximas a Dadis", disse ele.

 

Testemunhas disseram ao Human Rights Watch que forças de segurança despiram mulheres manifestantes e as estupraram nas ruas durante as manifestações de segunda-feira. O grupo de direitos humanos, citando relatos de testemunhas, disse que os soldados também feriram os manifestantes com facas e baionetas.

 

Quase ninguém tinha ouvido falar de Camara, um capitão de mais de 40 anos, até que ele quebrou a porta de vidro da televisão estatal no dia 23 de dezembro, após a morte do antigo líder Lansana Conte. Camara anunciou que a constituição estava suspensa e que o país estava sob o governo de uma junta militar.

 

Desde o golpe, as tensões aumentaram em meio a rumores de que Camara pode concorrer nas eleições presidenciais marcadas para 31 de janeiro. Camara indicou inicialmente que não participaria do pleito, mas recentemente disse que tem o direito de fazê-lo se decidir.

 

Desde que se tornou independente da França há meio século, a Guiné segue como um país miserável. Os 10 milhões de habitantes desta nação do oeste africano estão entre os mais pobres do mundo, mesmo vivendo em um solo rico em diamantes, ouro, ferro e metade das reservas mundiais de matérias-primas para a produção de alumínio.

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