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Guru indiano é condenado a prisão perpétua por estupro de adolescente

Asaram Bapu, de 77 anos, é acusado de ter agredido sexualmente uma jovem de 16 anos em 2013 com o pretexto de exorcizar espíritos malignos; defesa disse que recorrerá contra a sentença e qualificou os processos judiciais como uma 'conspiração política'

O Estado de S.Paulo

25 Abril 2018 | 07h58
Atualizado 25 Abril 2018 | 15h39

JODHPUR, ÍNDIA - A justiça indiana condenou nesta quarta-feira, 25, o influente guru Asaram Bapu à prisão perpétua pelo estupro de uma discípula adolescente em um contexto de segurança reforçada em vários pontos do país pelo temor de distúrbios.

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Asaram, um guru de 77 anos que dirige centenas de ashrams - centros de meditação e ensino hinduísta - dentro e fora da Índia, era acusado de ter agredido sexualmente uma jovem de 16 anos em 2013 em Rajastha, oeste da Índia, com o pretexto de exorcizar espíritos malignos.

“A sentença vem como um grande alívio”, disse Kiran Jha Thakur, que fundou a Kalpana, um grupo não governamental que ajudou a família da vítima a persistir no caso. “Isso acaba mostrando que mesmo que você seja um ‘Deus-homem’, se você comete um crime, nosso Judiciário pegará você”, disse Thakur.

"Asaram foi condenado à prisão perpétua, até sua morte", afirmou Rajendra Singh, um dos advogados do réu. A defesa de Asaram anunciou imediatamente a intenção de recorrer contra a sentença. Dois assistentes do líder religioso também foram condenados a 20 anos de prisão e outros dois inocentados.

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As condenações de personalidades do mundo político e espiritual são consideradas sensíveis na Índia, pois estas pessoas são seguidas por milhões de adeptos com grande devoção, o que provoca o temor de uma explosão de violência.

Por precaução, as autoridades anunciaram que várias regiões do país se encontravam em estado de alerta. Milhares de policiais foram mobilizados para evitar distúrbios por parte dos seguidores de Asaram. 

No ano passado, a condenação por estupro de outro famoso guru, Gurmeet Ram Rahim Singh, provocou distúrbios entre seus adeptos que terminaram com 38 mortos.

Chamado de "Babuji", Asaram sempre negou o estupro da adolescente e denunciou os processos judiciais como uma conspiração política. O guru prega a seus discípulos a renúncia aos desejos sexuais.

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Mas esta não é a única acusação que pesa contra ele: em outros processos, que ainda aguardam veredicto, o guru é acusado pelo estupro de outras duas meninas e pelo envolvimento no assassinato de dois estudantes em um de seus ashrams.

Pelo menos dois ex-colaboradores, que se voltaram contra o líder espiritual e se tornaram testemunhas importantes nos nas investigações, foram assassinados em 2014 e 2015.

Os discursos de Asaram, um mestre da ioga, atraíam grandes multidões. Apesar do abalo em sua imagem com os problemas na justiça, ele mantém uma grande base de discípulos no oeste da Índia - estimada em mais de 20 milhões de membros. Sua organização é avaliada em mais de US$ 750 milhões.

Assim como Asaram, outros poderosos gurus da Índia estão envolvidos em escândalos que misturam espiritualidade, dinheiro e poder.

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Muitos indianos consideram que os ensinamentos dos gurus abrem o caminho para um despertar espiritual. Mas para os críticos, estes líderes espirituais modernos não passam de charlatães que utilizam a religião para obter fama, poder e riqueza.

Pena de morte

Na semana passada, o governo indiano aprovou a pena de morte para estupradores de crianças depois da recente violação coletiva e assassinato de uma menina de 8 anos, um caso que abalou o país.

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Depois de uma reunião da Comunidade britânica, o primeiro-ministro Narendra Modin aprovou uma emenda à lei sobre violências sexuais que permite condenar à pena capital estupradores de crianças menores de 12 anos. Da mesma foram, as penas mínimas por estupro foram aumentadas.

Milhares de indianos se mobilizaram neste mês em todo o país depois que uma menina de uma tribo muçulmana nômade foi sequestrada por cinco dias, estuprada e assassinada por oito homens no Estado de Jammu e na Caxemira (norte).

Atualmente, a lei indiana prevê a pena de morte para os assassinatos mais atrozes e para atos terroristas, embora as execuções sejam raras. 

Cerca de 40.000 casos de estupro são denunciados por ano na Índia, segundo as estatísticas oficiais. Os observadores consideram que isso só representa a ponta do iceberg devido à intensa cultura do silêncio que prevalece sobre este tema na sociedade indiana. / AFP, EFE, REUTERS e AP

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