Henry Romero/Reuters
Henry Romero/Reuters

Gustavo Petro constrói novas alianças e ameaça as antigas; leia artigo 

Petro mostrou que é capaz de mudar de valores políticos com facilidade, se isso for necessário para conquistar o poder

Mariana Palau / Americas Quarterly , O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2022 | 05h00

Quando Gustavo Petro passou para o segundo turno da eleição presidencial de 2018, movimentos sociais progressistas que haviam trabalhado em sua campanha, Colômbia Humana, testemunharam a ressonância e o poder de suas plataformas. Feministas participaram integralmente da campanha, com Ángela María Robledo, defensora de políticas de igualdade de gênero respeitada, como candidata à vice.

A plataforma de Petro era a única que promovia prioridades progressistas, como eliminar impostos sobre a venda de produtos de higiene feminina, apoio à comunidade LGBTQ e diminuição da dependência de petróleo e gás da Colômbia. Petro acabou perdendo, mas seus 8 milhões de votos o posicionaram como o mais proeminente político de esquerda do país.

Acelere a fita para 2022. Petro, economista de formação, concorre à presidência pela terceira vez. Seu partido, o Colômbia Humana, faz parte de um novo movimento político, o Pacto Histórico. Petro, sem dúvidas, vencerá a primária de março e enfrentará candidatos de centro e de direita na eleição presidencial colombiana, em maio. 

A diferença é que, desta vez, muitos acreditam que Petro não pode mais afirmar que representa eleitores socialmente progressistas. Ele os abandonou ao tentar expandir sua base eleitoral de 2018, construindo alianças com políticos mais tradicionais.

Suas novas alianças incluem figuras como Roy Barreras e Armando Benedetti, que já foram aliados do ex-presidente Álvaro Uribe, a nêmesis de Petro à direita; e o ex-presidente Juan Manuel Santos, que também é visto como parte da elite que os progressistas com frequência rejeitam. Petro também está flertando com Luis Pérez, ex-governador do Departamento de Antioquia e autor de um livro que glorifica Uribe. Em novembro, Petro recebeu o apoio de Alfredo Saade, líder cristão antiaborto, que vocifera contra a homossexualidade e é contrário à legalização da maconha.

Traição

Essas novas alianças são um tapa na cara de milhares de progressistas a quem Petro deve seu sucesso, mas ele parece ver algum sentido matemático nessa mudança. Saade afirma ter nas mãos 1 milhão de fiéis eleitores cristãos. Pérez poderia ajudar a melhorar o desempenho de Petro em Antioquia, onde ele sempre perdeu para os uribistas, como são chamados os apoiadores de Uribe. 

Realmente é difícil ver como Petro seria capaz de ampliar sua base eleitoral sem novas alianças. O apoio dele a Hugo Chávez e um tumultuado mandato como prefeito de Bogotá, entre 2012 e 2015, criaram um “teto eleitoral” que, de alguma maneira, precisa ser ultrapassado.

Ainda assim, seu novo estilo de fazer política está alienando setores que já lhe foram fiéis, mais notadamente as feministas. Muitas se tornaram suas mais ferozes críticas. Sara Tufano, ex-aliada que é, ela mesma, uma estrela em ascensão entre as progressistas feministas da Colômbia, afirmou ao popular programa de rádio colombiano Mañanas Blu, com Camila Zuluaga, que Petro é autoritário e “idolatrado como um Messias”. Juana Afanador, que trabalhou com Petro quando ele foi prefeito de Bogotá, lhe disse publicamente que os direitos das mulheres, direito ao aborto e direitos LGBTQ são inegociáveis para um movimento progressista.

Não foi a primeira vez que Petro irritou aliadas feministas. No fim de 2018, ele decidiu por conta própria que seu partido daria apoio a Holman Morris, um leal amigo que havia sido acusado de cometer abusos contra três mulheres, na disputa pela prefeitura de Bogotá. Petro escanteou as feministas que condenaram sua decisão, incluindo Robledo, sua ex-companheira de chapa, que na época foi alvo de provocação por parte dos devotos de Petro nas redes sociais. 

Volta atrás

Petro tem tentado dividir as feministas na base do “nós contra eles”, alegando que o movimento é controlado pelas elites urbanas e prometendo direcionar a causa para ajudar mulheres pobres da zona rural. Ele declarou recentemente que não é mais a favor da escolha das mulheres sobre abortos, mas, em vez disso, de uma política de “aborto-zero”; sua ideia é de uma sociedade utópica, em que educação e oportunidades sejam suficientes para evitar gestações indesejadas.

Muita gente se questiona na Colômbia se o oportunismo de Petro alienará um número significativo de eleitores progressistas que votaram nele no passado. Por agora, isso parece improvável, já que não está claro se haverá alguma outra opção de voto para essas pessoas. A única alternativa a Petro que resta aos progressistas é a aliança de centro-esquerda, a Coalizão da Esperança. Seus pré-candidatos à presidência, porém, são todos homens brancos, de classe alta, que, segundo pesquisas, não contam com muita simpatia dos colombianos de classes média e baixa. 

Entre os pré-candidatos da Coalizão da Esperança estão Sergio Fajardo, matemático e ex-governador que já concorreu à presidência, e Alejandro Gaviria, ex-ministro da Saúde e diretor da Universidade dos Andes, de Bogotá. A Coalizão organizará uma primária no início de 2022 para indicar seu candidato.

As expectativas atuais favorecem Petro. Pesquisas indicam que 42% dos colombianos votariam nele, mas é cedo para cantar vitória. A Coalizão da Esperança está tentando desesperadamente atrair progressistas e colombianos insatisfeitos. 

Ingrid Betancourt, ex-presidenciável que foi mantida refém por seis anos pelas Farc, tornou-se uma mediadora confiável encarregada de unir os políticos de centro. Ela pediu a Francia Márquez, uma ativista ambiental de renome internacional e a única feminista influente que ainda permanece no Pacto Histórico, para abandonar Petro e se unir ao centro. 

Petro deu a Márquez uma poderosa razão para aceitar a oferta de Betancourt em dezembro, quando quebrou a promessa de incluir aliados de Márquez na lista de candidatos ao Parlamento pelo Pacto Histórico nas eleições deste ano. Se Márquez decidir deixar o Pacto Histórico, Petro poderá perder o único vínculo que ainda mantém com os eleitores progressistas, especialmente com as feministas.

No entanto, se o centro continuar fracassando em atrair progressistas e os milhões de colombianos que se sentem excluídos pelos anos de crescimento econômico desigual, o país terá seu primeiro presidente de esquerda radical; a direita tem pouca chance de vencer, graças à extrema impopularidade do presidente Iván Duque. 

Metamorfose

Petro é um protecionista que flerta com ideias como controles de preços, expropriações de imóveis e pressão para o banco central emprestar dinheiro para o governo, uma combinação que pode ser catastrófica para a frágil economia da Colômbia. 

Mas ele já mostrou que é capaz de mudar de valores políticos com facilidade, se isso for necessário para conquistar a presidência. Na verdade, surpreendente seria ele se metamorfosear em um progressista renascido conforme a disputa apertar./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

 

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