Há 20 anos, Argentina invadia as Malvinas

O dia 1.º de abril - por causa de sua relação com o dia da mentira - nunca é um bom dia para ser lembrado como uma data histórica de respeito. Mas foi no fim da noite desse dia, em 1982, que começou a invasão argentina às Ilhas Malvinas, ou Falklands para os ingleses. A sanguinolenta Junta Militar - que desde 1976 havia assassinado 30.000 pessoas, entre elas opositores do regime, crianças e velhos - comandava o país na época e era encabeçada pelo general Leopoldo Galtieri. Para o registro histórico, no entanto, o dia 2 de abril é o que vale.Nessa data, ao raiar do sol, os comandos argentinos que haviam desembarcado perto de Port Stanley atacaram a aldeia, invadindo suas ruas e tomando por surpresa a casa do governador britânico das ilhas. No dia da invasão, morreu um argentino. Até o fim da guerra, morreriam 649. A imensa maioria dos argentinos havia ouvido desde criança: "As Malvinas são argentinas." A frase era repetida à exaustão nas escolas primárias, secundárias e nas universidades.A vida dura nas ilhas, a desolação da paisagem e a falta de riquezas naturais não eram levadas em conta. O que importava era que eram apresentadas como um símbolo da "argentinidade", uma reivindicação que poderia unir os diversos - e muitas vezes antagônicos - setores da sociedade argentina.A invasão de Galtieri começou dias antes com um incidente ocorrido em um arquipélago vizinho, as Ilhas Geórgias, em posse dos ingleses, e que também são reivindicadas pela Argentina. O incidente nessas ilhas começou entre soldados britânicos e um grupo de operários argentinos que trabalhavam para uma empresa de Constantino Davidoff, um polêmico empresário argentino de intensos vínculos com a ditadura.O argumento inicial da Junta Militar foi que era necessária uma intervenção para proteger seus cidadãos. Diversos ex-integrantes do governo militar, historiadores e veteranos da guerra alegam hoje que a intenção de Galtieri era ocupar as Ilhas Malvinas e negociar depois. Além disso, a Junta Militar considerava que os Estados Unidos, que haviam apoiado a ditadura argentina desde 1976, não deixariam na mão o regime virulentamente anticomunista.A América Latina entrou em polvorosa. Choveram declarações de apoio à ditadura argentina, provenientes dos mais variados lugares. Da Cuba do comunista Fidel Castro até ditaduras de direita, como o Paraguai do general Alfredo Stroessner. Em toda a região, brasileiros, equatorianos, mexicanos e homens de outras nacionalidades foram aos consulados argentinos nesses países para apresentarem-se como voluntários.Enquanto isso, dentro das fronteiras argentinas, tudo o que fosse britânico corria o risco de ser atacado. A comunidade britânica na Argentina, que na época era de 100.000 pessoas, teve de fazer declarações de profundo "argentinismo", para evitar problemas.Silvina Epstein, hoje professora primária, na época da guerra estava no segundo grau. Ela contou ao Grupo Estado como sua professora de inglês, temendo ser vaiada, começou a aula comentando diversas frases do escritor irlandês Bernard Shaw, nas quais ridicularizava os ingleses. A aula foi salva porque os alunos viram que outros povos que "detestavam" os britânicos, como eles, também falavam inglês.Dois dias antes da invasão, 40.000 pessoas haviam ido à Praça de Maio, na frente da Casa Rosada, a sede do governo, para pedir o fim da ditadura. Os sindicatos voltavam a se mobilizar e a população dava sinais claros de que estava cansada da grave crise econômica que a ditadura havia causado no país. No dia seguinte à invasão, 60.000 pessoas davam vivas e hurras a Galtieri no mesmo lugar.O país entrava em histeria coletiva. Os sindicalistas que haviam protestado contra a ditadura, agora declaravam total apoio. Os políticos da oposição celebravam a invasão. Naquele momento ocorreu aquilo que era inesperado para os argentinos. O governo de Margaret Thatcher decidiu recuperar as ilhas, com o envio de uma frota de dimensões não vistas desde a 2ª Guerra Mundial. Porta-aviões e submarinos nucleares foram enviados ao Atlântico Sul.As tropas britânicas chegaram em maio e rapidamente expulsaram os argentinos. No dia 14 de maio, o comandante britânico recebeu do governador argentino das ilhas, o general Luciano Benjamín Menéndez - um famoso repressor e torturador nos anos precedentes da ditadura - o papel com sua assinatura, concordando com a rendição incondicional. Até a véspera, os argentinos eram informados pela mídia de que estavam vencendo a guerra. No dia da rendição, o sonho argentino de recuperar as Malvinas ruiu como um castelo de areia.A frustração levou milhares de pessoas de novo à Praça de Maio desta vez para gritar, enfurecida: "Galtieri, seu bêbado, você matou os rapazes." Assim terminava a única guerra que a Argentina travou no século 20.

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