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Manuel Noriega passou de informante dos americanos a ditador do Panamá AP

Há 30 anos, os Estados Unidos invadiam o Panamá

Na primeira grande ocupação americana no pós-Guerra Fria, governo de George H. W. Bush agia sob críticas de que não era duro o suficiente contra o tráfico de drogas

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 06h00

Durante a Guerra Fria, o grande inimigo americano era o comunismo. Manuel Noriega era um importante informante da CIA que contava a Washington a quantas andava a influência dessa ideologia na América Central, especialmente na fechada Cuba. 

Mas no fim dos anos 80, após a queda do Muro de Berlim, não era mais o comunismo o que preocupava o então presidente George H. W. Bush, cada vez mais pressionado a fazer algo contra o tráfico de drogas. 

Em 1989, casos de morte e agressão a militares americanos e seus parentes no Panamá alçaram Noriega, que a essa altura comandava o país com mão de ferro e mantinha fortes vínculos com os principais chefes dos cartéis de drogas da região, à posição de inimigo número 1 dos EUA em se tratando de drogas. 

O ataque a militares americanos no Panamá deu o motivo e, na manhã daquela quarta-feira, 20 de dezembro de 1989, 24 mil soldados americanos desembarcaram nesse pequeno país, que na época tinha menos de 2,5 milhões de habitantes. A chamada Operation Just Cause (Operação Justa Causa, em tradução livre) tinha o objetivo de tirar Noriega do poder. 

Os EUA conduziam assim sua primeira grande invasão desde a Guerra do Vietnã. “Essa campanha foi o marco zero da ideia de que os EUA militarizaram a guerra às drogas na América Central”, afirmou ao Estado Russell Crandall, ex-diretor principal de Hemisfério Ocidental no Departamento de Defesa americano e autor de Gunboat Democracy: U.S. Interventions in the Dominican Republic, Grenada, and Panama (Democracia com canhões: intervenções dos EUA na República Dominicana, Granada e Panamá, em tradução livre).

Como destaca Crandall em seu livro, um dos aspectos implícitos da invasão ao Panamá era que a administração Bush queria que a campanha fosse vista como uma vitória na “guerra às drogas”.

“O Panamá tem sido usado como um santuário, um lugar de férias, um centro bancário para traficantes, um lugar para ir quando a temperatura sobe. Acredito que é improvável que o Panamá seja usado dessa maneira no futuro novamente”, declarou na época William J. Bennett, o ‘czar antidrogas’ do governo Bush.

A panamenha Associação das Famílias dos Mortos de 20 de Dezembro fala em 2 mil civis mortos, enquanto os EUA, em 100. De acordo com a ONU, o número de mortos foi de 500. 

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Perfil: Manuel Noriega, de informante da CIA a ditador

Ligação do militar panamenho com cartéis de drogas o tornou um forte inimigo do então presidente americano George H. W. Bush, que era criticado por pegar muito leve com a guerra às drogas

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 05h20

Como um colaborador na folha de pagamento da CIA se tornou um ditador inimigo do governo americano? "Essa é uma longa e triste história", afirmou ao Estado Russell Crandall, ex-diretor principal de Hemisfério Ocidental no Departamento de Defesa americano.

"Manuel Noriega foi útil durante a Guerra Fria como uma fonte de inteligência em Cuba, especialmente. Mas suas ligações com cartéis de drogas o tornou um forte inimigo para o presidente George H.W. Bush, que era criticado por pegar muito leve com a guerra às drogas."

Durante seu período de colaboração com a CIA no início dos anos 70, agiu como um facilitador para fazer chegar forças pró-americanas a El Salvador e Nicarágua. Usando essas informações, Noriega manipulou seus superiores panamenhos e americanos. Sua forma de agir lhe rendeu apelidos pouco carinhosos como “coronel de aluguel” e “prostituta do Caribe”. 

Dois anos após o líder da Revolução Panamenha Omar Torrijos morrer em um acidente de avião, sob circunstâncias consideradas suspeitas, em 1981, Noriega passou a atuar como o líder de fato do país. Nessa época, ele já colaborava com Pablo Escobar, chefe do cartel de Medellín, e o ajudava a traficar cocaína para os EUA. 

Como lembra reportagem da agência Reuters, as tensões com os EUA começaram a desandar em 1985 quando Noriega não aceitou a vitória de Nicolas Ardito Barletta nas primeiras eleições democráticas do país em 16 anos. A eleição era vista pelos EUA como uma pré-condição para retomar o controle sobre o Canal do Panamá. Noriega tomou poder e deu início à sua ditadura. 

Capturado pelas tropas americanas, Noriega foi levado para os EUA, julgado e condenado a 40 anos de prisão por extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Depois de passar 17 atrás das grades, teve sentença reduzida por bom comportamento. 

Noriega foi extraditado para a França em 2010, onde também foi condenado por lavagem de dinheiro. No ano seguinte, foi extraditado para o Panamá, onde morreu seis anos depois após sofrer complicações durante uma cirurgia para retirar um tumor no cérebro.

 

Pouco antes da invasão americana, a Subcomissão de Terrorismo, Narcóticos e Operações Internacionais da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, em uma crítica ao governo Bush, afirmou que Noriega formou, com a anuência de autoridades dos EUA, a “primeira narcocleptocracia do hemisfério”. 

“Trata-se do melhor exemplo nos anos recentes da política externa americana de como um líder estrangeiro foi capaz de manipular os EUA em detrimento de nossos próprios interesses”, afirmou o relatório da subcomissão, em dezembro de 1988

Após sua captura, em 3 de janeiro de 1990, Noriega disse que tudo que fez em seu país – desde seu período de informante da CIA até se tornar ditador – era sabido pelos EUA. 

“Panamá era um livro aberto”, disse ele. 

 

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O rock como arma para a rendição de Manuel Noriega

Depois que o ditador panamenho - um apreciador de ópera - se refugiou na embaixada do Vaticano na Cidade do Panamá, soldados americanos colocaram para tocar em alto volume clássicos do rock

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 05h40

Um dia depois da invasão ao Panamá, o então comandante das Forças Armadas dos EUA Colin Powell teve de admitir que as forças americanas ainda não tinham localizado Manuel Noriega. “Estamos procurando por ele e vamos encontrá-lo”, disse Powell à imprensa. 

Enquanto não encontrava o ditador, o Pentágono não perdeu a oportunidade de anunciar que em sua residência, no Fort Amador, os soldados encontraram pornografia, um pôster de Hitler, bonecos de voodoo e cocaína (que mais tarde disseram se tratar de farinha de trigo). 

Tropas encontraram ainda uma mala com uma metralhadora de mão, US$ 3 milhões em espécie, discos de ópera - que o ditador era grande apreciador  -, garrafas de vinho israelense e conhaque francês. 

Os detalhes são contados por Russell Crandall, em seu livro Gunboat Democracy: U.S. Interventions in the Dominican Republic, Grenada, and Panama (Democracia com canhões: intervenções dos EUA na República Dominicana, Granada e Panamá, em tradução livre), que relata também que o ditador estava em um hotel com uma prostituta perto da Cidade do Panamá quando soube da invasão. Alertado por um de seus seguranças, ele conseguiu fugir. O governo Bush chegou a oferecer US$ 1 milhão por sua cabeça. 

Na véspera do Natal, um carro da embaixada do Vaticano na Cidade do Panamá foi enviado para encontrar Noriega em um local secreto. Usando shorts e camiseta e levando duas AK-47, Noriega entrou na representação diplomática, relata Crandall. 

Do lado de fora, o major-general Marc Cisneros negociava uma rendição pacífica. Sem sucesso, o comando americano, sabendo da paixão de Noriega por ópera, mandou que os soldados colocassem para tocar em alto volume clássicos do rock.

Na playlist da época, sucessos como I Fought the Law (The Clash), Voodoo Child (Jimi Hendrix) e, claro, Panama (Van Halen).  A estratégia não deu certo, segundo conta Crandall, por que depois de alguns dias oficiais do Vaticano começaram a reclamar que aquilo também estava “enlouquecendo a eles”. 

Após uma semana na embaixada, o núncio monsenhor José Sebastián Laboa convenceu Noriega que o melhor era se render. No dia 3 de janeiro, vestido em seu uniforme militar e segurando uma bíblia, o ditador se entregava e era levado como prisioneiro dos EUA, de quem um dia foi colaborador.

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