Há 5 décadas, mito mina diplomacia dos EUA

Suposta vitória de Kennedy contra URSS na Crise dos Mísseis pôs intransigência no topo da política externa americana e tornou uma vergonha negociar

Leslie H. Gelb, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2012 | 03h04

WASHINGTON - A habilidade com a qual o presidente americano John F. Kennedy soube conduzir a crise cubana dos mísseis, que este mês completa 50 anos, foi convertida no mito principal da Guerra Fria. No centro do mito, está a lenda de que, graças à superioridade militar dos EUA e à sua tenacidade, Kennedy obrigou o premiê soviético, Nikita Kruchev, a capitular e a retirar os mísseis nucleares que os russos haviam secretamente instalado em Cuba. Como declarou entusiasmado o secretário de Estado, Dean Rusk, os EUA encararam os soviéticos "olho no olho" e estes "apenas piscaram". Diz o mito que Kruchev teve de ceder tudo e Kennedy não precisou dar nada em troca. Assim, a crise se transformou num triunfo americano incontestável e numa perfeita derrota soviética.

A vitória de Kennedy na confusa e inútil Guerra Fria passou a ser considerada naturalmente o ponto alto da estratégia dos EUA em política externa, endeusando o poder militar e a coragem e denegrindo a diplomacia da negociação. Estabeleceu-se como norma a intransigência e o duelo arriscado com os vilões, que nunca foi possível avaliar - principalmente porque nunca chegou a ser posta em prática.

Evidentemente, os americanos tinham a velha mania de não se comprometer com entidades demoníacas, mas se comprometeram. O presidente Harry Truman chegou a oferecer a Moscou uma participação no Plano Marshall. Posteriormente, o seu secretário de Estado, Dean Acheson, afirmou que só era possível tratar com os comunistas criando "situações de força". E esse estado de coisas permaneceu mais ou menos inalterado até a crise cubana dos mísseis, quando JFK pôde demonstrar amplamente a proposta da força, intensificando as pressões para que os seus sucessores resistissem a chegar a compromissos com tais demônios.

O que as pessoas entenderam sobre a crise dos mísseis - o fato de JFK ter saído vencedor sem ceder um milímetro - cristalizou-se nas deliberações em matéria de estratégia e no debate político, aberto ou não. Agora, depois de tantas décadas, está evidente na preocupação de evitar concessões ao Irã na questão das armas nucleares ou ao Taleban quanto ao seu papel no Afeganistão. Os líderes americanos não gostam de chegar a uma negociação e o persistente equívoco referente àqueles 13 dias de outubro de 1962 tem muito a ver com isso. Na realidade, a crise se concluiu, não com um resmungo diplomático da parte de Moscou, mas com concessões mútuas. Os soviéticos retiraram seus mísseis de Cuba em troca das promessas dos EUA de que não invadiriam a ilha de Fidel Castro e retirariam os mísseis Jupiter da Turquia. Por razões aparentemente claras, o clã Kennedy manteve em sigilo a questão dos mísseis Jupiter por quase 20 anos e, mesmo então, a descreveram como algo de escassa importância. Por motivos ainda hoje desconcertantes, os soviéticos também calaram a esse respeito. Com o passar dos anos, estudiosos como Graham Allison, da Universidade Harvard, contaram a verdade, mas seus esforços raramente foram reconhecidos nos debates públicos ou nas reuniões da Casa Branca sobre como encarar os inimigos dos EUA olhos nos olhos.

Desde o início, os Kennedys trataram de ocultar a concessão em relação aos mísseis Jupiter. O irmão do presidente, o secretário da Justiça Robert F. Kennedy, esteve com o embaixador soviético Anatoly Dobrynin no dia 27 de outubro para apresentar-lhe a proposta da troca dos mísseis Jupiter pelos mísseis soviéticos. Ele disse: "Retiraremos os Jupiter, mas isso não faz parte do acordo, e os senhores jamais falarão disso". Os soviéticos retiraram seus mísseis, os EUA retiraram os Jupiter, e o segredo foi mantido durante 16 anos, até ser mencionado num pequeno parágrafo num livro de Arthur Schlesinger, que mal chegou a chamar a atenção.

Quatro anos mais tarde, os principais assessores de Kennedy escreveram um artigo para a Time, por ocasião do 20.º aniversário da crise, no qual admitiram ter incluído os Jupiter no acordo. Entretanto, o fizeram de maneira a diminuir sua importância e apresentaram os Jupiter quase como um fator secundário, afirmando que JFK havia decidido anteriormente retirá-los da Turquia. Então, eles caíram totalmente em contradição ao admitir que o sigilo sobre a questão dos Jupiter no acordo era tão importante que um vazamento poderia "ter efeitos explosivos, destrutivos mesmo para a segurança dos EUA e de seus aliados".

Os assessores dos Kennedy mantiveram-se tão fiéis ao mito do triunfo que muitos continuaram a propagá-lo bem depois de eles próprios terem renegado sua máxima. A maioria acabou se opondo à Guerra do Vietnã na qual JFK ainda estava envolvido quando foi assassinado. Todos passaram a encarar com ceticismo o valor do poderio militar e dos confrontos entre as grandes potências, e tornaram-se formidáveis promotores do compromisso diplomático.

Entretanto, somente em 1988 um deles admitiu clara e abertamente a hipocrisia que durava várias décadas e quanto ela custara. Em seu livro Danger and Survival, McGeorge Bundy, o assessor de segurança nacional de Kennedy, lamentou: "Um sigilo dessas proporções tem seus custos. Guardando segredo sobre a garantia no episódio dos Jupiter, enganamos nossos colegas, nossos compatriotas, nossos sucessores e nossos aliados", e concluiu "que fora suficiente manterem-se firmes naquele sábado". Levou 26 anos, mas aí estava.

Surpreendentemente, os russos não revelaram a verdade mais cedo. Um vazamento soviético com um timing bem calculado, depois da retirada dos Jupiter, seria útil a Moscou por dois motivos. Em primeiro lugar, a história da troca acabaria definitivamente com os relatos de sua total derrota. Não importa se JFK planejava retirar os Jupiter de qualquer maneira e substitui-los por mísseis Polaris disparáveis de submarinos.

Em segundo lugar, o fato teria causado grande consternação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), onde a troca teria sido vista como uma traição das expectativas da Turquia. Bobby Kennedy chegou a afirmar a Dobrynin que esse temor era a razão principal para o acordo ser mantido em segredo. Dobrynin enviou a Moscou um telegrama com as palavras de Bobby: "Se essa decisão fosse anunciada agora, provocaria a desagregação da Otan". Uma vez retirados os Jupiter, Moscou não hesitaria em aproveitar da situação.

Dobrynin compreendeu plenamente que o mito esfriou toda disposição dos EUA ao acordo, conforme ele contou no final da década de 70, quando eu estava no Departamento de Estado. Entretanto, só afirmou isso publicamente quando suas memórias foram publicadas em 1995. Ele escreveu: "Se Kruchev tivesse dado um jeito (de vazar a informação), a solução da crise não teria sido vista como uma retirada inglória".

Por que, então, os soviéticos não permitiram que vazasse? É possível, até mesmo provável, que Kruchev e seu Politburo nunca tenham pensado nessa possibilidade porque não tinham ideia de como a crise seria apresentada - como sua posição pareceria fraca. Quando o perigo começou a se agravar, antes de saber que Kennedy faria a proposta da troca com os Jupiter, Kruchev já se mostrava disposto a recuar. Falou aos seus colegas que a União Soviética se "defrontava com o perigo de uma guerra e de uma catástrofe nuclear, com a possível consequência da destruição da raça humana". Ele não estava pensando nos Jupiter; só queria sair de Cuba e estava decidido a convencer os colegas de que uma promessa dos EUA de que não invadiriam seria suficiente para proteger o poder e o orgulho soviéticos.

Para comprovar a veracidade desta afirmação, contactei as três pessoas que ainda viviam e mais provavelmente estariam a par da questão: Sergei Kruchev (o filho de Nikita), Anatoly Gromyko (filho de Andrei, chanceler soviético durante a crise dos mísseis) e Alexander Sasha Bessmertnykh (um funcionário do Ministério do Exterior na época da crise, e posteriormente ministro do Exterior).Todos corroboraram essa teoria, embora admitissem desconhecer detalhes da posição de Kruchev. Os líderes soviéticos, afirmaram, temiam de fato uma invasão americana de Cuba. Nenhum deles contestou o meu argumento de que, na época da crise, não havia nenhuma probabilidade de uma invasão. Depois do fiasco da Baia dos Porcos, essa ideia foi ridicularizada nos círculos políticos americanos. Ninguém admitiria que o vazamento da troca por parte de Moscou seria necessário para preservar a honra soviética. Mas todos reconheceram que seria vantajoso para a imagem do poder soviético se a troca tivesse sido divulgada.

Em Moscou, numa retrospectiva da crise em 1989, o autor dos discursos de JFK e seu confidente Ted Sorensen promoveu o livro de Bob Kennedy Thirteen Days como o relato definitivo. Dobrynin o interrompeu para dizer que o livro omitiu o caso dos Jupiter e Sorensen retrucou que Dobrynin estava correto, mas na época, o acordo ainda era "secreto". "Portanto, eu assumi a responsabilidade de excluí-lo", ele disse.

Por sua vez, os jornalistas que cobriam o evento assumiram a responsabilidade de não noticiar a troca. Tampouco as conversas sobre política externa, ao longo dos anos, fizeram muitas referências aos Jupiter. Na realidade, o acordo foi mencionado tão esporadicamente que o jornalista Fred Kaplan tomou o cuidado de não mencioná-lo numa recente resenha da Slate do último volume de Robert Caro sobre o presidente Lyndon Johnson. Embora sempre tão cuidadoso, Caro confiou apenas nas fontes que louvaram a decisão de Kennedy e ignorou os Jupiter.

Pacto não é um termo que em geral faça palpitar os corações e é até menos privilegiado quando se refere a uma estratégia da política externa americana. O mito da crise dos mísseis reforçou o menosprezo. O mito tornou-se o parâmetro quando foi preciso barganhar com os adversários.

Evidentemente, os políticos em Washington não proclamariam o seu desejo de emular o mito da crise dos mísseis, mas estava no próprio ar da cidade, nas colunas e nas conversas com amigos do início dos anos 60 aos 90. Poucos queriam se expor propondo acordos até mesmo moderados com os inimigos. Na famosa revisão A to Z da política americana em relação ao Vietnã, encomendada por LBJ depois da Ofensiva do Tet, em 1968, nós (eu estava no Pentágono na época) sequer tivemos a permissão de estudar possíveis acordos com Hanói. E não há dúvida de que somente um dos principais articuladores da Guerra Fria, como Richard Nixon, poderia enfim ordenar a retirada do Vietnã.

Foi necessária uma coragem extraordinária para propor acordos nas conversações sobre o controle de armas com Moscou. Até os tratados sobre as insignificantes reduções das forças nucleares de ambos os lados enfrentaram batalhas furiosas no Congresso. Hoje, beira o suicídio político sugerir publicamente que se permita que o Irã enriqueça urânio a irrelevantes 5% com inspeções rigorosas, o que é permitido pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear. E embora a equipe de Barack Obama esteja conversando com o Taleban, suas exigências são tão taxativas - o Taleban precisaria depor as armas e aceitar a constituição de Cabul - que se torna impossível qualquer tipo de reciprocidade. Se fosse mesmo séria, a Casa Branca teria pelo menos de acenar com a possibilidade de um acordo de partilha de poder com o Taleban.

Durante muito tempo, os debates sobre política externa americana exaltaram as ameaças e o confronto e minimizaram o pacto realista. Evidentemente, nem sempre a negociação é a resposta, embora às vezes seja justamente a resposta errada. Mas os responsáveis pelas decisões e os políticos devem poder considerá-lo abertamente e sem medo, e avaliá-lo em relação às alternativas. Os acordos frequentemente fracassam e os presidentes então intensificam as ameaças ou mesmo o uso da força. Mas eles precisam lembrar de que até JFK, com seus frios olhos de aço, encontrou uma solução negociada para a crise cubana dos mísseis - e ela funcionou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É PRESIDENTE HONORÁRIO DO CONSELHO PARA AS RELAÇÕES EXTERIORES

 

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